Children of Time

Aviso: Este livro contém aranhas. Montes e montes de aranhas. Menos no sentido de criaturas assustadoras e mais como protagonistas.

Tudo começa com a humanidade a dominar a viagem interestelar e a alcançar planetas distantes. E como sempre que chegamos a algum lado, passa a ser tudo nosso (pelo menos desta vez não estava lá ninguém primeiro).

Um grupo de cientistas quer fazer uma experiência: pegar num planeta e terraformar. Adicionar fauna e flora. Juntar símios infectados com um vírus concebido para acelerar a evolução. Esperar até surgirem humanos. Observar.

Só há um pequeno problema. Por questões éticas, um grupo armado destrói a nave dos símios ao mesmo tempo que provoca uma guerra civil na Terra, a anos-luz de distância. Os símios morrem, mas o vírus sobrevive e chega ao planeta. E às aranhas.

A partir daqui a história segue dois pontos de vista: As aranhas ao longo dos milénios, à medida que evoluem e se transformam, criando uma sociedade complexa não muito diferente da nossa. No futuro, os humanos sobreviventes fogem de uma Terra destruída em busca do planeta que os seus antepassados fizeram seu.

Ambas as linhas de enredo enfrentam problemas, e não tão distintos quanto isso. Tanto as aranhas como os humanos têm que lidar com avarias, com guerras, com falta de recursos, com morte, com sacrifício.

A nave que transporta os últimos humanos no universo não está preparada para manter tantas pessoas durante uma viagem tão longa. Escolhas difíceis têm que ser feitas e a tensão de como e quem escolhe estala o conflito. Danos que exigem manutenção constante por parte dos engenheiros obrigam a que estes saiam da hibernação e envelheçam. O seu conhecimento é passado aos seus descendentes, que formam uma nova e estranha sociedade numa nave que não foi concebida para os receber.

Já no novo planeta, de uma aranha diferente das outras passamos a toda uma colónia com soldados, engenheiros, filósofos e sacerdotes, entre muitos outros papéis. Os desejos, os medos, as motivações e as intrigas são tão ou mais complexas que as dos humanos e verdadeiramente dignas de Shakespeare (e talvez por isso as aranhas recebam nomes de personagens seus).

Achei as vidas das aranhas muito mais interessantes do que os problemas dos humanos, ao ponto de quase me apetecer passar os capítulos destes últimos à frente. Isoladamente, os humanos têm uma narrativa digna de um bom livro de ficção científica. (O quê que acontece quando a nave não aguenta mais e a Humanidade está prestes a desaparecer do universo?) Porém, perdem a graça ao pé das aranhas, cuja história os mete a um canto.

[Confesso que sou um tudo nada enviesada. Adoro aranhas, incluindo outras aranhas fictícias, e já começo a ficar um bocado enjoada das parvoíces das pessoas.]

Quando estes grupos tão diferentes finalmente colidem, são as suas decisões em relação um ao outro que decidem qual dos dois é mais humano: as aranhas ou as pessoas.

Capa
8.5
Children of Time / 1 de junho de 2015
Muito Bom
Saga/Série Children of Time
Editora
  • Aranhas
  • Precisão científica
  • Comentário social
  • World-building brilhante
  • Humanos
  • Por vezes lento
  • Nem sempre segue os personagens mais interessantes
Carolina Gonçalves
Escrito por: Carolina Gonçalves

Fan girl sobre-entusiasmada. Posso ser encontrada a ler, escrever, procrastinar, ou a agonizar por causa de pessoas imaginárias. Ocasionalmente dada a filmes, séries e desenhos animados. Estou sempre pronta a falar apaixonadamente do que gosto, mas também facilmente me apanham a reclamar do que detesto com o mesmo afinco.