Minha Sombria Vanessa

Conhecem o termo “Lolita”? Sabem de onde vem? Eis como define o Oxford Dictionary: “A pubescent girl who is sexually precocious or who is regarded in sexual terms by an older person.” Há aqui um problema na primeira parte da definição. Uma rapariga pré-púbere não é sexualmente precoce, é apenas uma criança.

O termo tem origem num romance do mesmo nome de Vladimir Nabokov. Não é uma leitura fácil, mas recomendo que o leiam antes de Minha Sombria Vanessa, porque é bastante pertinente aqui.

Contada da perspectiva de Vanessa, a história surge a dois tempos: 2017, auge do movimento #MeToo em que vieram ao de cima relatos de violações e abusos sexuais; e o passado de Vanessa, a partir de 2001, quando começa um caso com Strane, o professor de Inglês. Mas não podemos chamar-lhe um caso se ela tem quinze anos e ele quarenta e dois; chama-se abuso de menores.

Desde as primeiras páginas que há uma estranha dissonância. Vanessa vê a sua relação com Strane como uma história de amor, mas o livro conta algo bem diferente. É como num filme de terror, quando vemos o herói a caminhar para as garras do monstro sem o saber e não podemos avisá-lo. Aqui, Vanessa atira-se de muito boa vontade para os braços de Strane.

Este é um ponto fulcral do livro e, talvez, a sua mensagem mais importante. Vanessa não se vê como vítima porque Strane não a obrigou a nada (embora isso não seja bem verdade). Ela não é vítima perfeita ─ a menina boazinha e certinha que nunca vez asneiras e que foi forçada ─ logo, ela não é vítima. Ela gostou, ela queria.

Na vida real, há muitas Vanessas, pessoas que foram endoutrinadas (ou até que se convenceram a si próprias) de que queriam. Admitir que não foi bem assim obriga a aceitar uma realidade que pode ser dura demais. Nem nem toda a violência e nem todo o abuso são físicos.

Há muito mais para dizer sobre o tema, mas seria ir além deste livro. A história de Vanessa, embora fictícia, representa as experiências de muitas vítimas reais. Mas não todas. O abuso existe em muitas formas, umas mais óbvias, outras mais subtis, mas todas elas extremamente perigosas. O dano que deixam para trás estende-se muito além do seu fim. Arruína vidas. Mata.

Minha Sombria Vanessa não tem um final feliz. Mas também não tem um final triste. É o final agridoce de sobreviver ao trauma.

Esta análise foi possível com o apoio da Editora Saída de Emergência!
Capa
Minha Sombria Vanessa / My Dark Vanessa
Data de Lançamento 09/10/2020
  • Pertinência do tema
  • Enredo intrigante e complexo
  • Comentário social
  • A minha vontade matar o Strane aumentava a cada página
  • Tema difícil
  • Gráfico por vezes
Carolina Gonçalves
Escrito por: Carolina Gonçalves

Fan girl sobre-entusiasmada. Posso ser encontrada a ler, escrever, procrastinar, ou a agonizar por causa de pessoas imaginárias. Ocasionalmente dada a filmes, séries e desenhos animados. Estou sempre pronta a falar apaixonadamente do que gosto, mas também facilmente me apanham a reclamar do que detesto com o mesmo afinco.