One-Punch Man

One-Punch Man é uma manga japonesa escrita por One e ilustrada por Yusuke Murata que nos transporta para um mundo de monstros e super-heróis.
Eu já não pegava numa manga há muito tempo, mas o conceito desta deixou-me intrigado. Afinal, será que uma história sobre um herói que derrota todos os seus vilões com um simples soco consegue ser interessante? Quando nos foi enviada a versão portuguesa do décimo volume pela Devir, decidi pegar neste pedacinho de loucura e atirar-me novamente ao abismo das bandas desenhadas orientais.
A história desta paródia do género dos super-heróis é simples. Saitama era um homem normal a debater-se para encontrar um emprego. Ao deparar-se com um monstro na rua (algo normal por aquelas bandas), lembra-se que o seu sonho em criança era ser um super-herói capaz de derrotar vilões com um único soco. Inspirado por esse momento, em que consegue salvar o dia apesar de ser um cidadão comum, Saitama começa a treinar para se tornar num super-herói.
A acção principal passa-se três anos mais tarde. Por esta altura, Saitama veste um fato que parece um pijama com capa e é dotado de uma força e velocidade inigualáveis. No entanto, o árduo treino a que se sujeitou para ganhar os seus poderes também fez com que ficasse completamente careca. Além disso, tem dois grandes problemas: primeiro, ainda não conseguiu ser reconhecido como um super-herói profissional; segundo e pior de tudo, todos os monstros explodem após um único soco e isso deixa-o aborrecido. Um dia, Saitama conhece Genos, um jovem ciborgue e a primeira pessoa a ver o verdadeiro potencial do nosso protagonista. Juntos apercebem-se de um pequeno erro no plano de carreira de Saitama: apesar dos seus poderes e actos heróicos frequentes, ele esqueceu-se de se registar na Associação dos Heróis. Juntos, inscrevem-se e juntam-se aos restantes heróis na luta contra o mal.
O conceito faz-me lembrar o Super-Homem, na medida em que temos um protagonista todo-poderoso, mas explorado de uma maneira bastante diferente. Algo que sempre me frustrou nas histórias do Super-Homem é precisamente a sua incapacidade ou dificuldade para resolver problemas apesar de todo o seu poder e seriedade. Afinal, é difícil criar uma história interessante sobre uma personagem que, num dia bom, pode resolver qualquer conflito em segundos. Por outro lado, One-Punch Man apresenta-nos histórias diferentes e originais, onde o humor realça a humanidade do protagonista e cobre a maioria dos buracos. Além disso, um sortido de personagens e circunstâncias garantem alguma acção.
Tanto monstros como heróis recebem histórias de origem e nomes ridículos (a título de exemplo temos o “Ciclista Sem Carta” e o “Bigode Pontiagudo”) que tornam esta manga numa espécie de caricatura dos super-heróis ocidentais, mas que também explora os clichés dos heróis japoneses. Até as cidades recebem nomes genéricos como se estivessem à espera de ser arrasadas, mas estas páginas não são apenas piadas desprovidas de significado. Temos, por exemplo, o caso de Saitama ser considerado um herói inferior por ter passado por um triz no exame de aceitação da Associação de Heróis, algo que parece ser uma crítica ao sistema de educação e mesmo à maneira como instintivamente avaliamos e categorizamos quem nos rodeia de acordo com as regras ditadas pela sociedade. Enfim, a satisfação vem ao acompanharmos a jornada do herói e como aos poucos ele conquista o respeito dos super-heróis de elite, mesmo que esse não seja o seu objectivo.
O desenho também faz a sua contribuição para a comédia, seguindo o tom da história. Os traços são mais detalhados em momentos sérios e mais tolos em momentos de humor, por vezes misturando os dois. É comum ver um monstro super-detalhado e ameaçador frente a um Saitama que já sabe o que vai acontecer e está mais concentrado sobre o que vai fazer para o jantar. Mesmo na arte, a lição sobre não julgar um livro pela capa está constantemente presente.
Nota-se também que o artista tem um carinho especial por grandes panoramas cheios de destruição absurda. Falando em “destruição absurda”, um dos meus receios era a forte possibilidade de inconsistências nos níveis de poder das personagens (estou a olhar para ti, Dragon Ball). Eles existem, claro, mas mal se notam. No fim de contas, o Saitama derrota tudo e todos sem grande esforço e isso é uma constante que não deixa de ser divertida.
Chegando ao Volume 10, e como seria de esperar por esta altura, achei difícil pousar o livro assim que o peguei.
A história deste volume começa com o crescente receio entre a comunidade de heróis devido a Garo, um admirador de monstros e auto-denominado “Caçador de Heróis” que tem enviado até os mais poderosos para o hospital. Enquanto isso, uma centopeia gigante surge na cidade e cabe principalmente ao Taco de Basebol Metálico lidar com a situação, mesmo que seja demasiada areia para a sua camionete. Por outro lado, Saitama ouve dizer que o tal Caçador de Heróis é um praticante de artes marciais e decide inscrever-se num torneio para aprender mais sobre o assunto. Esta última parte acaba por ser a que tem menos destaque em todo o livro, pelo que este One-Punch Man acaba por dar pouco tempo de antena ao “One-Punch Man”. Felizmente, a ausência de Saitama é compensada nos capítulos extra no final do livro, nos quais podemos ler umas mini-aventuras adicionais.
Francamente, achei a ideia de usar um torneio para prender o Saitama e afastá-lo dos monstros algo simples e “barata”. Por outro lado, ele entra nesse torneio usando uma peruca para se fazer passar por outra personagem, o que se torna naturalmente divertido, cria expectativa para os próximos capítulos e certamente irá ajudar a limitar os seus poderes.
Quanto à tradução, encontrei erros gramaticais frequentes (algo ao nível de uma primeira edição) e achei particularmente estranho os nomes de alguns heróis estarem em inglês quando a maioria está em português, mas é possível que esses também estejam em inglês na versão original. Além disso, logo nas primeiras páginas vi inconsistências no uso da palavra “beisebol”, que também aparece escrita “basebol”. Tirando isso, achei o texto agradável e uma boa tradução. Tendo lido manga em formato digital até agora, gostei bastante da experiência física. De alguma forma, parece que os detalhes dos desenhos sobressaem no papel e, claro, temos o cheirinho a livro novo.
Concluindo, One-Punch Man é algo que certamente irá agradar a fãs de manga mais famosas como Dragon Ball ou Naruto, mas que sem dúvida conseguirá divertir os leitores com sentidos mais apurados. Este Volume 10 vale a pena? Bem, se leram os outros 9, claramente, mas cheira-me que o melhor ainda está para vir. Para novos leitores, posso garantir que One-Punch Man lê-se que nem manteiga, mas se estão a pensar começar por aqui, tirem o cavalinho da chuva. Esta história é simples, mas não tão simples assim e tem uma forte continuidade. Terão que começar pelo início.
Capa
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One-Punch Man / One-Punch Man
Criado por ,
Data de Lançamento 12 de outubro de 2019 Volume 10
Distribuição por
  • Vilão apresentado de forma humana, sem ser absolutamente mau (ou absolutamente bom).
  • Não se perde valor na tradução.
  • Leve e fácil de ler.
  • Ritmo mais lento comparando com os volumes anteriores.
  • Ausência do protagonista na maior parte do livro em prol de destaque a um herói menos interessante.
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Escrito por: Pedro Cruz

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...