96 Decibéis é, sem dúvida, uma das peças mais ousadas e inovadoras da cena teatral que vi recentemente. Com uma encenação deliciosa de Marco Paiva, o Teatro da Terra Amarela e o Teatrão entregam uma obra de impacto imediato, onde o som é a força motriz que atravessa o palco e a psique dos personagens. A criação é uma verdadeira imersão sensorial que coloca em discussão a nossa relação com o ruído, bem como as tensões sociais, políticas e pessoais que nos rodeiam.
A palavra que me soou ao longo do dispositivo cénico foi “punk”. Um punk da geração antecessora, um punk da minha geração e um punk atual. Primeiramente, a própria banda que faz a sonografia do espetáculo designa-se como 5ª Punkada (banda gestada há mais de 30 anos na Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra). O facto de a própria banda sonora vir diretamente do mesmo palco em que a narrativa ocorre, dissolve a fronteira entre concerto e teatro, criando uma pulsação contínua que empurra a ação para a frente. Há algo que se cola ao espectador. Um lembrete de que o punk nunca foi sobre perfeição ou rebeldia, mas sim sobre verdade.
Não consigo não destacar a notável encenação. Percebemos um controlo rigoroso do caos. Uma conceção sonora e espacial, um jogo entre o som e o silêncio que é meticulosamente calculado para conceber uma atmosfera de desconforto crescente, refletindo as turbulências internas das personagens. Os tempos são afinados com exatidão, os movimentos coreografados sem parecerem artificiais. Ao utilizar o som como uma ferramenta emocional e política, Cadete consegue traduzir a agressão do mundo contemporâneo de forma visceral. O cenário (parabéns a Fernando Ribeiro!), simultaneamente distópico e familiar, constrói um espaço de tensão permanente. Uma cenografia minimalista, contudo, de certo modo, complexa, de iluminação controlada e precisa, que contribui de igual forma para o tom da peça. A luz recorta corpos e agitações com inteligência, não ilustrando, sim acrescentando camadas de leituras.

A magia de 96 Decibéis vem, adicionalmente, da interpretação dos seus atores e atrizes. Cada performance é uma demonstração de precisão técnica e sensibilidade comovedora. A entrega dos atores é total, conseguindo transmitir com clareza a sobrecarga sensorial que as personagens enfrentam, assim como as suas fragilidades e desejos. Num cenário onde o som é uma personagem – de que o espetador não dá conta –, os atores conseguem equilibrar a intensidade do ruído com momentos de calma, criando um contraste que magnifica cada cena. A química entre eles é palpável, e cada gesto, cada olhar, parece carregar uma profundidade que vai além do texto. (excelentes condições físicas, trabalhos de voz e interpretações de Eva Tiago, Margarida Sousa, Paulo Azevedo e Vasco Seromenho.)
E por falar em texto (de Alex Cassal), a escrita é brilhante. A construção teatral articula com grande destreza o quotidiano das suas personagens com questões mais amplas, como a política e a luta pela sobrevivência num mundo imerso em ruídos e desinformação. A crítica social está sempre presente, porém nunca de forma direta ou panfletária. Pelo contrário, há uma amálgama fluida de política e humor, o que torna a proposta artística ao mesmo tempo reflexiva e acessível. Expõe as fraturas e faz refletir sobre resistir num mundo saturado de ruído. O humor, muitas vezes irreverente, surge como um alívio, mas também como uma ferramenta crítica, apontando para as incongruências do nosso mundo e da maneira como lidamos com elas.
No centro de tudo está a inclusão, não como tema, nem sequer abordada, como prática real e visível. O elenco diverso não é apresentado como exceção ou discurso, é uma realidade incontornável. E é precisamente aí que a criação performativa ganha uma força ética rara. Ao normalizar a diferença, obriga o público a confrontar os seus próprios códigos de representação. A comunicação em múltiplas formas – corporal, vocal, gestual – amplia o próprio conceito de linguagem teatral.
96 Decibéis é uma obra que teria tudo para correr mal – muita combinação, muita arte, muitos conceitos – e não deu! Desafia as convenções do teatro tradicional, faz uma crítica afiada e subtil à nossa sociedade, com um toque de humor e uma profundidade emocional que nos coloca frente a frente com as nossas próprias contradições. É uma peça que, sem dúvida, deixa uma marca no espectador.