“A Odisseia”: da Era do Bronze à Era dos Blockbusters

A tão aguardada adaptação da epopeia de Homero por Christopher Nolan cumpre o papel de encher as salas de cinema com um ritmo surpreendentemente leve para as suas três horas de duração. Contudo, apesar do impacto visual em IMAX e de uma banda sonora arrepiante, o filme acaba por desiludir quem esperava uma obra autoral e revolucionária.

Finalmente chegou a tão aguardada adaptação da Odisseia de Homero realizada por Christopher Nolan. O resultado é exatamente aquilo que se esperava. Com um ritmo envolvente, a longa duração de três horas resulta surpreendentemente leve. A obra destaca-se ainda pela proeza de mobilizar multidões às salas de cinema, contrariando a atual tendência de desinteresse pela experiência na grande tela.

Esta jornada de Odisseu de regresso a Ítaca, depois de vencida a Guerra de Tróia, prometia-se como um dos projetos mais ambiciosos da carreira de Nolan e, no final de contas, fica aquém dessa expectativa. Tirando um ou outro momento, como o encontro da tripulação de Odisseu com a feiticeira Circe, e excluindo o uso da tecnologia IMAX, que tem claro o seu impacto visual, mas que me parece superficial, não é um filme mais espetacular ou mais grandioso que outros da sua filmografia, como Dunkirk (2017) ou a própria trilogia do Batman (2005-2012). Talvez a ousadia esteja mais na pretensão de adaptar a maior epopeia de todas do que propriamente no resultado final.

A repetição de fórmulas e a ausência de assinatura

Inserindo-se na continuidade da obra de Nolan, A Odisseia oferece poucas surpresas, algo que encerra pontos positivos e negativos. Embora cumpra as expectativas sem defraudar o espectador, o filme desperdiça a oportunidade de o desafiar, falhando em trazer à grande tela uma perspetiva verdadeiramente inovadora para um mito já exaustivamente abordado.

Se Nolan é, tal como dito muitas vezes pela sua fanbase, o último resquício do cinema autoral na Hollywood de plástico, então perdeu-se a oportunidade de usar um orçamento gigantesco para criar uma obra realmente única e autoral. Neste sentido, o filme perde por ser mais um reforço desta característica tão marcante da sua filmografia: impressionar pela grandiosidade dos meios em detrimento da narrativa ou do trabalho de realização.

Falta de visão estética e os problemas de montagem

Esta odisseia foi realizada por Nolan, tal como podia ter sido realizada por outro cineasta com acesso aos mesmos meios e ao mesmo orçamento, faltando nela o olhar de um realizador, uma visão e, ao mesmo tempo, coesão estética. Se compararmos, por exemplo, com o penúltimo filme de Robert Eggers, The Northman (2022), vemos nele um épico tão grandioso quanto esta Odisseia e com adaptações tão variadas que vão desde o Hamlet de William Shakespeare até ao Rei Leão da Disney, e ainda assim conseguimos encontrar cravado nos planos, na montagem e no som o olhar tão característico do seu realizador. Não me parece que Nolan tenha sido capaz de cravar o seu olhar nesta epopeia.

Além disso, falta tempo a este filme e, aproveitando o facto de a sua duração não ser um obstáculo para o público, mais meia hora e mais calma teriam feito bem ao corte final. A montagem é apressada e pouco segura, e em muitos momentos, sentimos que estamos a ver um conjunto de planos e enquadramentos individuais forçadamente montados em sequência e não uma planificação coesa e pensada como um todo. A pressa em condensar a maior epopeia da História em três horas não nos dá tempo para respirar, para sentir tensão ou para criar afinidade ou intimidade com os personagens.

Excluindo talvez a cena final, o filme está cheio de momentos extremamente importantes e significativos da Odisseia que perdem o seu impacto, ou pelo menos não atingem todo o seu possível potencial, ao serem tratados com leviandade ou acabarem num piscar de olhos, como acontece com a cena do canto das Sereias ou com o encontro da tripulação com os Lestrigões. Uma deriva de três anos pelo mar seguida de sete anos de cativeiro com a ninfa Calipso é menos desesperadora por não termos tempo para assimilar e para sentir o desespero de Odisseu e da sua tripulação. No máximo, sentimos a angústia de quem espera por ele em Ítaca.

Elenco desigual e um guião fragilizado

Por outro lado, o que também se prometia como um dos grandes atrativos deste filme é o seu elenco, que no geral não impressiona particularmente além de ser uma coleção de atores e atrizes populares e já habituais na filmografia do realizador. Tom Holland não está tão mau como se dizia, mas não vai muito além do Peter Parker já habitual, tal como Jon Bernthal aparece como uma espécie de Frank Castle da Era do Bronze. Da mesma forma, Robert Pattinson e Zendaya entregam-nos o mesmo do costume, esta última com uma prestação e uma participação que não deixa de desiludir.

Matt Damon e Anne Hathaway, claramente a melhor dupla do elenco, mostram-se bastante em forma, mas sempre a um passo de atingir qualquer coisa de interessante. John Leguizamo é uma surpresa bastante positiva, enquanto Elliot Page e Charlize Theron mostram-se em performances que chegam a ser embaraçosas.

A este elenco não ajuda, de todo, o guião com diálogos que soam cómicos de tão estranhos e inusitados. Percebo a intenção da utilização de linguagem coloquial e contemporânea, que, com outro tipo de visão geral, talvez tivesse sido um ponto positivo, mas foi impossível não me incomodarem os repetidos “Dad” de Tom Holland ou o fantástico “Add some stuff” de Elliot Page. A narrativa é desenvolvida a partir destas interpretações e por estes diálogos mal escritos, acabando por construir personagens que ficam pelo caminho e que nunca atingem a profundidade que deveriam. Se não fosse pela cena final, envolvendo a estátua da deusa Athena, o percurso e o dilema de Odisseu teriam caído por terra, limitando-se a ser um “grande guerreiro” cujas más decisões levam à morte de todos à sua volta e que está perdido até, de repente, deixar de estar.

Veredicto: Um blockbuster comercial correto

No final de contas, A Odisseia diverte e serve para passar o tempo, da mesma forma que o fazem os filmes do Marvel Studios, e ganhamos imenso se o encararmos como o blockbuster comercial que é, não havendo nada de errado com isso. Traz uma ou outra abordagem nova e interessante ao mito de Odisseu, como a forma como retrata o Cavalo de Tróia, a feiticeira Circe ou a visita ao submundo de Hades. A banda sonora é sem dúvida muito boa e dá-nos momentos verdadeiramente arrepiantes.

No entanto, mesmo assim, falta-lhe muito para conseguir ser um daqueles épicos incontornáveis a que Hollywood nos foi habituando de tempos em tempos. A Nolan falta outro tanto para ser verdade o seu estatuto de refúgio autoral no século dos blockbusters.

A Odisseia

The Odyssey
Lançamento: 2026-07-16 • Ano: 2026
Realizador: • Argumento:
Duração: 173 min
Distribuidora:
4.5
Picture of Rodrigo Samuel Duarte
Rodrigo Samuel Duarte
Aprendi a ler com a BD franco-belga e descobri o Cinema com o Miyazaki. Sou licenciado em Cinema e mestrando em Ciências da Comunicação. Escrevo curtas-metragens, crónicas, contos, críticas, análises. Ideologicamente estou algures entre a filmografia completa do Carpenter e a do Ozu.

Colaboraram neste artigo

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