Elizabeth Sparkle (Demi Moore), um dia uma renomada estrela, condecorada com o seu nome na calçada da fama, é, nos tempos atuais, uma celebridade em declínio. Após ser despedida do seu próprio programa de televisão por ser considerada demasiado velha, e desesperada por uma oportunidade, esta decide experimentar uma droga que promete transformá-la em Sue (Margaret Qualley), uma versão mais bela e jovem dela mesma. Elizabeth vê-se então dividida entre ambas as versões do seu eu, obrigando-as a coexistir, visando garantir o balanço necessário para que uma tragédia não aconteça.

“A Substância” é um filme que, por se tratar de um body horror e por tocar em certos temas, vai dividir opiniões. São 2h20 que, na minha opinião, poderiam ser substancialmente reduzidas, mas que, para ser completamente honesto, passaram a correr na sala de cinema. O argumento de Coralie Fargeat, que também dirige a obra, é muito inteligente e, embora não tendo muitos diálogos, sabe quando inserir elementos importantes de forma que não tire o protagonismo de ambas as atrizes, passando ao mesmo tempo uma mensagem eficaz, criticando a indústria e a sociedade em que vivemos. O que Fargeat deixa por contar a nível de argumento, faz questão de contá-lo através da sua realização, engolindo as personagens através de planos de detalhe, utilizando lentes que distorcem a imagem, colocando-nos dentro da história, tanto para sentirmos o desespero das personagens femininas, como para sentirmos aversão das personagens masculinas, principalmente a de Dennis Quaid, um patrão rico e repugnante, uma caricatura da indústria, do patriarcado e da sociedade, no geral. A realizadora ainda opta por engrandecer a personagem da Sue, através de planos de baixo para cima, enquanto enfatiza a depressão de Elizabeth através de planos de cima para baixo.

Demi Moore deixa toda a vaidade de lado, submetendo-se a um papel que exige uma certa vulnerabilidade. Por se tratar de uma mulher da indústria que sofreu na vida real, em partes, o problema da protagonista, imagino que esta personagem fale, a nível pessoal, com a atriz. Não deixa de ser irónico vários meios noticiarem a longa-metragem como uma “volta de Demi Moore”, mesmo esta não tendo deixado de trabalhar, desde os seus papéis mais memoráveis. E Margaret Qualley, no mesmo ano que trabalha com Ethan Coen no filme “Bonecas em Fuga” e com Yorgos Lanthimos na sua antologia “Histórias de Bondade”, abraça “A Substância” como a cereja no topo do bolo de um ano repleto de projetos interessantes, mostrando que, a continuar assim, pode mesmo vir a ser a próxima estrela de Hollywood.
“A Substância” é um projeto controverso, que bebe de diversos clássicos como “A Mosca” (1986) e “Carrie” (1976), que poderia ter sido mais curto, mas que, por outro, lado, estaria a mentir se dissesse que não me diverti muito no cinema ao ver algo tão original, grotesco, engraçado e inteligente. Um dos melhores filmes do ano, que merece destaque nas grandes premiações.