O céu cinzento e a chuva miudinha deste entardecer de novembro não deixam margens para dúvidas. Estou mesmo em Londres. Não é a primeira vez aqui, mas esta é especial.
Para lá desta porta gigante, onde centenas de fãs se juntam em ansiosa espera, está Phil Spencer e, com ele, o futuro da Xbox.
É a minha estreia num evento desta magnitude e também a primeira vez que um Xbox Fanfest acontece em Londres. A Copper Box Arena tem capacidade para 7500 pessoas e hoje está vestida de verde. Só de verde. A grandeza deste game show impressiona. E a promessa é que este seja o primeiro de muitos. Mas estou a escrever-vos de 2026 e posso confirmar que este foi o primeiro e o único.
A Pandemia do Covid-19, que fechará o mundo em casa dali a uns meses, certamente mudou todas as regras do jogo. Não foi só esta a culpada, certamente, mas já lá vamos.

Regressemos ao X019 em Londres, o impressionante evento da Xbox para apresentar as novidades fortíssimas day one do Game Pass, a aposta no cloud gaming, jogos exclusivos e muito mais.
Phil Spencer sobe ao palco e é recebido com um aplauso estrondoso. Do meu assento, um pouco acima da multidão eufórica, o mar de fãs é uma vista admirável. O “pai do Game Pass” discursa sob os holofotes e parece trazer a salvação de que a Xbox tanto precisava depois da atribulada era Xbox One (que está mesmo a chegar ao fim). Ainda ninguém sabe, mas daí a um mês (na cerimónia dos The Game Awards) será oficialmente revelada a Xbox Series X e uma janela de lançamento: finais de 2020.
Terminada a apresentação do X019, Phil Spencer ficou para falar e tirar fotos com os fãs. A fila era enorme. Atrás de mim, tinha a demo exclusiva de Star Wars Jedi: Fallen Order e duas opções: jogar pela primeira vez um dos meus jogos mais esperados ou trocar umas palavras com o homem que devolvera a esperança à Xbox. Escolhi jogar. Sei que o Phil ficaria orgulhoso. Afinal, gamer a como a gente, o seu objetivo maior sempre foi pôr-nos de comando na mão.
Aqui no Café Mais Geek, mais por brincadeira mas não longe da realidade, sempre fui visto como o caixista da equipa, o membro mais ferrenho da casa da Microsoft. E foi com orgulho que vesti a camisola com o X verde. Depois deste primeiro evento em Londres, voltei a estar em muitos Xbox Fanfest. Fui ao de Madrid, ao de Varsóvia, ao de Colónia (na gamescom) e muitas vezes me cruzei com Phil Spencer.
Em 2023, cumprimentamo-nos de passagem. A fila para as fotografias era longa, como sempre, e eu voltei a escolher um jogo em vez do mestre dos jogos. Nesse momento, em vez da tal foto, fui ver uma apresentação exclusiva de Starfield com devs da equipa da Bethesda. Noutra ocasião, preferi conhecer e falar com Melina Juergens, a Senua de Hellblade.
Phil Spencer estava sempre lá. Tudo o resto parecia passageiro, mas ele estava sempre lá, como aquele colega que passa por nós nos corredores e a quem prometemos umas palavras mais tarde. Aquele café que haveríamos de marcar. E eu achava que ele seria eterno neste lugar, que haveria sempre outra oportunidade para a prometida fotografia.
Eu admirei este homem, sim. Vi o quanto teve de se esforçar para reerguer a Xbox depois do desastre da Xbox One. E o quanto conseguiu. Foi na era Phil Spencer que me juntei aos Xbox Ambassadors (entretanto extintos pela Microsoft), que viajei para vários países para participar nos eventos a convite, onde conheci alguns dos fãs mais devotos da marca. Tornei-me um embaixador do Game Pass e acreditei mesmo na visão que a Xbox tinha para o mundo do gaming.
Há meses que não a ligo. A Xbox. Cancelei a minha subscrição do Game Pass com o último aumento de preços. Começou como uma espécie de protesto, mas depressa percebi que o meu backlog do Steam no PC e a recente adquirida Switch 2 são suficientes para me manter ocupado. E afinal, se os jogos Xbox estão em todo o lado, por que preciso de a ligar? Até perdi o FOMO dos day one no Game Pass. Não me reconheço.
Nisto tudo há algo que temos em comum.
Phil Spencer, tal como eu, deixou a Xbox.
Os nossos caminhos cruzaram-se tantas vezes e aqui chegámos. Um para cada lado.
A esperada fotografia já não acontecerá. Mas as imagens de tempos grandiosos estão bem guardadas na memória. É pena que, ao contrário dos jogos que nos trouxe, não haja um checkpoint onde voltar rapidamente e de onde refazer o que ficou mal feito, não é, tio Phil? 💚