No início da década de 1970, o Brasil vive num difícil período de ditadura militar. No Rio de Janeiro, Rubens (Selton Mello) e Eunice Paiva (Fernanda Torres) vivem, com os seus cinco filhos, numa casa grande, junto à praia e de portas constantemente abertas para amigos e família. Um dia, Rubens é levado pelos militares e Eunice é forçada a abandonar as suas rotinas de dona de casa, transformando-se numa voz ativa contra o regime, procurando a verdade sobre o paradeiro do seu marido e enfrentando as consequências da repressão.
Eu tenho dúvidas de como escrever sobre um filme como este. A sensação que senti ao ficar sentado largos minutos na cadeira do cinema após o final desta obra é a de ficar rendido ao trabalho de toda a equipa de “Ainda Estou Aqui”. A nível técnico, o filme é muito bom. Quero destacar o argumento de Murilo Hauser e Heitor Lorega, baseado no livro de mesmo nome do próprio Marcelo, filho de Rubens Paiva, que consegue espelhar bem a história da família e a realidade do país e a fotografia de Adrian Teijido, de cores quentes e o grão na imagem, quase que remetendo a um estilo de fotografia analógica (que está presente no filme) até às cores mais frias, com menos grão, proveniente de tempos mais modernos e de toda a tristeza que ainda paira sobre aquelas personagens.

No entanto, quem nos conta esta história é Walter Salles. Uma história que também é dele, uma vez que chegou a frequentar a casa dos Paiva. E o cuidado e a delicadeza que coloca em cada frame são notórios. No primeiro ato, Salles utiliza muito bem a personagem do próprio Rubens, muito bem representado pelo carismático Selton Mello, para prender a atenção do espectador e criar uma expectativa que depois irá quebrar. O grande divisor de águas é a cena onde a família Paiva canta e dança, rodeada de amigos e família, a música “Take Me Back to Piauí”, de Juca Chaves, um crítico da ditadura militar que escreve esta música exilado, num tom sarcástico. Na cena seguinte, Rubens é levado e Walter Salles começa a direcionar o espectador para a personagem de Eunice – a casa vai ficando mais escura, a edição vai ficando mais frenética e os planos vão se fechando – como se tudo caísse nas costas desta personagem, como na vida real caiu.

E tudo isto só funciona porque Fernanda Torres está neste projeto. A atriz é o centro desta história e responde de forma exímia, entregando aquela que é, na minha opinião, uma das melhores performances que vi no cinema. Fernanda Torres consegue retratar a dor e o sofrimento que milhares de pessoas outrora sentiram, muitas vezes sem proferir uma única palavra. Não só merece a nomeação ao Oscar como, a meu ver, é a atriz que fez o melhor trabalho do ano.
“Ainda Estou Aqui” é um murro no estômago extremamente importante, sobretudo nos dias de hoje, e é uma carta de Walter Salles destinada a Hollywood, provando que o cinema brasileiro merece espaço e tem histórias para contar.