Altamente publicitada como “a nova série dos criadores de Stranger Things”, numa espécie de publicidade enganosa, estreou pela Netflix aquela que promete ser uma das principais produções de 2026: Algo Terrível Está Prestes a Acontecer. Digo “publicidade enganosa” porque dos Duffer Brothers esta série tem pouco – e ainda bem.
Criada por Haley Z. Boston, esta série mostra-nos Rachel (Camila Morrone), que, na semana anterior ao seu casamento com Nicky (Adam DiMarco) e em que conhece finalmente a família do seu noivo, se vê cada vez mais aterrorizada e convencida de que “algo terrível está prestes a acontecer”, quando efetivamente coisas (no mínimo) esquisitas começam a passar-se à sua volta. Não querendo revelar muito, esta é a sinopse possível, que na verdade pouco jus faz ao produto real que nos é entregue.
Quando ainda não temos consciência desta questão e ainda estamos em suspense à espera de descobrir o que é que de tão terrível vai acontecer – sentimento que não dura tanto tempo como se poderia esperar – esta premissa simples é suficiente para nos interessar, mas não para nos oferecer alguma coisa de minimamente nova. Desde o trailer até à primeira metade da temporada, que a sensação recorrente é de se estar a ver mais do mesmo. Soa-nos a Get Out (Jordan Peele, 2017) e soa-nos a Ready or Not (Tyler Gillett, Matt Bettinelli-Olpin, 2019), mesmo que nos cativem os seus elementos diferenciadores.

No entanto, se a primeira metade da temporada é mais do mesmo, digo também que é a metade que mais ficou comigo, (por “boas” razões, digamos assim), precisamente por alguns desses “elementos diferenciadores”. No primeiro episódio, a viagem de carro até à casa isolada da família de Nicky é muito bem construída. São utilizados muito bem os clichés e pressupostos clássicos do terror para nos deixar tensos e em alerta o tempo todo. Nesse sentido, o ambiente é fulcral. Seja a noite cerrada, a neve e a floresta, seja o café no meio da estrada com apenas uma funcionária que ainda veste a roupa de um enforcado, seja pela banca abandonada de frozen custard, seja pela estrada que parece interminável, o sentimento é de isolamento, de impossibilidade de fuga. A casa e a família que Rachel encontra vêm reforçar este ambiente de hostilidade e estranheza, com os cães empalados, a cabeça de urso por cima da cama ou os irmãos nada “amigáveis”, para dizer pouco. Pena que poucos destes elementos nos levem a algum lado no decorrer da narrativa, e quando o fazem, o destino não é o melhor.
Entre esses elementos, quero destacar também o “Sorry Man”, uma espécie de mito urbano e um conceito merecedor de um produção para si próprio, mas que, tal como grande parte do que é introduzido, como já mencionei acima, não tem um pay-off nem minimamente digno. É uma revelação surpreendente, não nego, mas que se perde no segundo seguinte em que pensamos sobre ela e nos apercebemos das suas inconsistências.
Inconsistências é uma boa palavra para descrever a segunda metade da série, que se inicia quando, depois de demasiadas cenas de Rachel a ouvir, por trás das portas, conversas convenientemente suspeitas, reveladoras e, ao mesmo tempo, ambíguas, lá nos revelam o que se está a passar. A partir daí o que recebemos é uma antecipação do episódio final, numa jornada guiada por um conceito que, tal como acontece com muitos filmes de terror contemporâneos, não teve a maturação necessária e vai só pondo ao descoberto as suas falhas revelação após revelação.
Portanto, e se formos comparar com a mais famosa criação dos Duffer Brothers, os seus produtores executivos, o que me ficou também no final destes oito episódios foi só um terror completamente mal aproveitado, um conceito mais falível que cativante e uma série de buracos que, ao contrário do que possam dizer, não revelam espaço para reflexão e interpretação, mas só uma estrada cheia de incongruências.