Baseada na trilogia de livros de sucesso de Leigh Bardugo, Sombra e Ossos é a mais recente série de fantasia da Netflix. Com uma narrativa típica do “Escolhido” (neste caso uma “Escolhida”), a história gira em torno da órfã adolescente Alina, que trabalha como cartógrafa em Ravka, um país eternamente dividido, literalmente, pela guerra. É no calor da batalha que descobre inesperadamente que pertence aos Grishas – um grupo de humanos com poderes sobrenaturais. E qual é a sua habilidade? A capacidade de controlar a luz, tornando-a uma arma vital e única numa terra desolada pelas sombras, oferecendo-lhe o título de santa. Como “Conjuradora do Sol”, Alina é a única pessoa capaz de oferecer uma passagem segura pelo Sulco de Sombra, uma faixa de escuridão quase impenetrável cheia de monstros que se alimentam de carne humana e que dividiu Ravka em duas metades, tornando-se de um momento para o outro na chave para trazer paz à nação, o que obviamente acarreta variadas consequências.
O que realmente distingue a série é a forma como conta a história. Uma narrativa simples e sempre em movimento, contrasta com as mais recentes tentativas do género que optam por ruminar na construção do mundo por tanto tempo que se perde o interesse rapidamente. Em vez de começar com um pergaminho interminável de texto expositivo que despeja milénios da história em poucos minutos, começa, em vez disso, com Alina desenhando um mapa.
Fazer de Alina uma cartógrafa militar dá a Sombra e Ossos a chance de nos orientarmos neste mundo enquanto esta trabalha – vemos o Sulco, o grande mar turbulento de sombras que divide o reino de Ravka e muitas das cidades que iremos visitar ao longo da série. Sim, há algumas ocasiões em que duas ou mais personagens trocam informações sobre a história deste mundo exatamente como ninguém faz na vida real, mas esses momentos passam de forma rápida e eficiente.
Um dos meus principais medos quando soube que a adaptação se iria debruçar não só na trilogia de Leigh Bardugo, mas que iria incluir também personagens e histórias de outros dos seus livros situado no mesmo mundo, foi a de saber que apresentar eficientemente vários enredos é muito difícil. Algo que Game of Thrones conseguiu muito bem, e que eu diria nenhuma série posterior do mesmo género alcançou de forma satisfatória.
No entanto, embora em Sombra e Ossos passemos de uma personagem para a outra muitas vezes no exato momento em que ficamos curiosos sobre a sua história e nos estamos a relembrar da última vez que os vimos, os episódios fluem de forma emocionante e terminam quase sempre num ponto que impelem o espectador a começar o próximo episódio imediatamente. Admiravelmente ambicioso, “Sombra e Ossos pode não fornecer ainda o nível de nuance característico e complexidade cronológica desafiadora de The Witcher, por exemplo, mas acredito que pode vir a alcançar, não deixando de ser uma excelente primeira temporada, cativante e divertida.
Para além de Alina Starkov (Jessie Mei Li) e seu melhor amigo Mal (Archie Renaux), temos talvez a personagem mais magnética de toda a série, o General Kirigan, um manipulador de sombras com intenções duvidosas quanto a Alina, que forma o terceiro vértice do triângulo amoroso entre esta e Mal. Resgatados de outra saga (Six of Crows) de Leigh Bardugo, somos ainda apresentados aos vigaristas Kaz (Freddy Carter), Inej (Amita Suman) e Jesper (Kit Young) que fazem todo o tipo de trabalhos ilegais, um dos quais os coloca no caminho de Alina, e que poderão vir a ser essenciais para a segunda temporada.

Como fã de Bardugo e dos seus livros, não poderia não comparar a série com os livros. Como acontece com qualquer adaptação, existem algumas mudanças significativas da página para a tela. Uma das principais foi a escolha do roteirista Eric Heisserer em incluir personagens da duologia Six of Crows, algo que deixaria qualquer fã reticente, visto que embora existam no mesmo mundo, a história destes acontece noutro tempo. No entanto, com a aprovação total de Bardugo, Heissener foi capaz de incluir uma espécie de prequela de algumas das personagens e o resultado foi muito bom.
Para além desta mudança, temos uma grande diferença em relação à personagem principal. Nos livros, ela é descrita simplesmente como uma órfã pequena, pálida e tímida, com cabelos e olhos castanhos opacos. Conforme o seu poder cresce, Alina torna-se mais bonita e saudável. Para a série, foi decidido fazer Alina metade Shu, o que significa uma raça mista asiática no Grishaverse. Alina, tendo um passado mais complicado, adiciona alguma profundidade à sua personagem. Os Shu são frequentemente considerados inimigos, então há um conflito adicional dentro de Alina de não pertença e de confronto com o racismo ao longo de sua jornada. Na verdade, é uma adição inteligente à história de fundo de Alina, o que só ajuda a contar a história estabelecida da protagonista.
Há ainda o caso da relação de Mal e Alina. Enquanto Mal é um pouco insosso nos livros, principalmente porque, especialmente no primeiro livro, os leitores passam grande parte da ação dentro da cabeça de Alina e a acompanhá-la ao longo da sua jornada, na série, Mal ganha mais profundidade e personalidade, cativando mais o espectador no seu caminho até Alina, em que perde amigos e companheiros. Uma cena que desaparece na série é a raiva com que Mal encontra Alina depois de tanto tempo separados, criando um momento muito mais terno e real na série. A isto é ainda adicionado o facto de que, no livro, Alina está completamente apaixonada pelo seu amigo de infância, e grande parte da trama é movida por este amor e pela necessidade de mantê-lo vivo a todo o custo. Contudo, na série, Mal é tratado de forma muito mais profunda e equilibrada, sendo mais do que um mero interesse romântico. A série estabelece a sua importância para Alina desde a infância e, embora esteja claro que eles se importam um com o outro e há amor ali, Mal não está a conduzir a história, mas sim Alina. Na minha opinião, é uma melhoria em relação ao livro, ao mesmo tempo que respeita o material de origem.
Outra melhoria em relação a Alina e aos seus interesses românticos é através de seu arco com o Darkling na série. Nos livros, Alina sente-se atraída por ele, e os dois começam a envolver-se fisicamente antes de Alina descobrir os seus planos para a controlar. O livro dá a entender que, apesar da sua química, Alina não passa de um peão no jogo do General Kirigan, e os momentos que eles compartilharam foram na realidade uma manipulação. No entanto, durante os oito episódios da série, Kirigan parece realmente acreditar que Alina é o seu par, e os dois parecem ter sentimentos mútuos e profundos um pelo outro, embora este ainda queira controlar os seus poderes.
Em última análise, apesar de ter ficado com vontade de ver um pouco mais do processo de Alina a dominar os seus poderes e ficar na dúvida sobre alguns dos efeitos visuais escolhidos para ilustrar estes mesmos, e de alguns problemas de noção de tempo ao longo da história, não poderia ter saído mais satisfeito com esta primeira temporada, a forma como retrataram o mundo, adicionaram representatividade, e até mesmo com as performances, pelo que mal posso esperar pela próxima.
Uma série à qual vale a pena dar a oportunidade e que não desapontará os fãs de Bardugo, podendo ainda começar uma nova vaga de fãs para um universo mágico que tanto merece.