Atlas Fallen

A areia estava flat

Se há estúdio que confio para fazer um jogo focado em exploração e combate, esse estúdio poderia muito bem ser o Deck13. Depois de dois títulos fenomenais com The Surge, e outras produções mais pequenas que em nada os envergonham, acho que é seguro dizer que darem o salto para um novo título com uma escala como a de Atlas Fallen era o próximo passo lógico e só indica coisas boas a favor desta nova aposta.

No anúncio do mesmo, confesso que fiquei um pouco sem perceber o que poderia vir dali. Estávamos apenas perante uma apresentação sem gameplay real e do pouco que era efetivamente o jogo a correr, não dava para perceber de que forma aquilo se ia traduzir num produto finalizado.

Com o tempo, e com a revelação de mais conteúdo do jogo, tudo apontava para algo bastante divertido e bem composto. Será este outro caso de sucesso deste estúdio alemão?

No que diz respeito à jogabilidade em si, estamos perante um conjunto de mecânicas muito bem conseguidas e que se complementam de forma excelente. A exploração é muito boa de se fazer, e se havia a sensação que andar a surfar na areia ia ser bastante satisfatório, essa sensação transformou-se em realidade assim que entramos em jogo. É bastante intuitivo e acabamos mesmo por nem usar o mapa para viajar entre pontos já descobertos, por ser tão relaxante e gratificante andar a explorar rapidamente o mapa através deste meio de deslocação.

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Ainda bem que também existe um vasto leque de atividades para se completarem ao longo dos mapas que vamos explorando. Podemos descobrir tesouros enterrados na areia, inimigos elite para derrotar que nos dão melhores recompensas, pequenos desafios contra-relógio, estatuetas para deitar abaixo, eventos de combate com uma dificuldade mais elevada. Sempre teremos algo para ocupar o nosso tempo, se estivermos empenhados em explorar todos os recantos deste vasto mundo e descobrir o que nos aguarda.

Claro que não saímos daqui sem um “mas”! Ainda que possamos explorar tudo à nossa vontade, não estamos propriamente num mundo aberto convencional. Existe essa ideia e sensação, mas só dentro da área na qual nos encontramos naquele momento. Algo que também aborrece são as paredes invisíveis que nos limitam o acesso a áreas que estão claramente ao nosso alcance. Nada é mais frustrante, e me retira imediatamente da envolvência do jogo, que estar à frente de uma plataforma ou zona que consigo alcançar sem dificuldade alguma e me barram o acesso por não ter ainda feito algo antes. Atlas Fallen faz isto inúmeras vezes e nem sempre é claro que não é suposto acedermos aquela área naquele momento. Mas para continuarmos a explorar tudo o resto que existe, é sempre necessário continuar a evoluir a nossa luva e personagem. Eventualmente, progredimos para a próxima zona onde iremos encontrar mais habilidades que ajudam o personagem, assim como dão algo extra ao armamento que temos ao nosso dispor.

As habilidades são bastantes e consideravelmente variadas. Contudo, não as podemos usar conforme nos apetece. Assim que entramos em combate, começamos a acumular momentum, e quanto mais formos acumulando, mais subimos na escala para aceder a habilidades mais potentes. É necessário desbloquear espaço para cada habilidade e vamos ter acesso a três níveis. Em cada um deles podemos ter uma habilidade ativa, com efeito imediato ao ser usado, e outras três habilidades passivas, com a exceção do último nível que só tem duas. Estas vão alterar certas características seja do nosso dano, vitalidade ou movimento.

Tudo agora depende do tipo de arma que vamos usar, tendo três hipóteses ao nosso dispor, e de como queremos enfrentar o combate. Ainda que a escolha de armas seja limitada, é bastante focada no dano versus velocidade de ataque. A mais lenta dá mais dano, enquanto outra é o extremo oposto e a última é uma opção intermédia. Aquilo que podemos fazer acaba por ser suficientemente variado para tornar o combate divertido. Os próprios inimigos têm diferentes pontos fracos que precisam ser destruídos antes de serem derrotados por completo.

São um bom desafio, que por vezes pode parecer demasiado intenso, mas que com tempo e calma tudo se ultrapassa. E a possibilidade de ter diferentes conjuntos de combinações previamente guardadas, facilmente podemos mudar entre várias opções que tenhamos feito com as habilidades já desbloqueadas e enfrentar um combate com algo mais apropriado ao tipo de inimigo que temos à nossa frente.

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E é durante esse procedimento de desbloqueio de conteúdo que percebi que a distribuição poderia estar desequilibrada. Sem ainda ter saído da primeira zona do jogo, que convenhamos é consideravelmente extensa e recheada de conteúdo, já tinha mais de metade das minhas habilidades e atualizações desbloqueadas. E nem foi preciso completar a área para isso, bastou-me guiar pelas missões principais, fiz algumas secundárias e, sem querer, fiz uma atividade que nos foi dada por um personagem numa cidade. Claro que descobri tesouros e outros conteúdos. como os que já mencionei em cima, mas não estava perto de ter percorrido o mapa de uma ponta à outra.

Esta sensação só ficou mais validada por estar um ou dois níveis abaixo dos adversários. Logicamente, deveria ter alguma dificuldade em derrotá-los. Essa dificuldade existiu nos momentos iniciais e ainda se fez notar em alguns momentos ao longo do jogo, mas no geral, como já tinha tantas possibilidades ao meu dispor, muitos combates eram apenas mais um, onde não havia grande risco em atirar-me de cabeça e despejar ataques e habilidades até derrotar os inimigos.

O ponto em que o jogo apresenta as suas maiores falhas reside principalmente na narrativa e na escassez do seu desenvolvimento. Não estamos diante de algo verdadeiramente transcendental. Algures no tempo, a humanidade foi ignorada e deixada ao abandono pelos Deuses que outrora lá andavam. Sem rumo e sem fé, resta-lhes apenas a luta pela sobrevivência contra as adversidades que persistem do passado, esforçando-se para preservar o que resta da humanidade. Nós somos talvez a única esperança de um povo dividido entre aqueles que têm poder e riqueza, e aqueles que nem nome lhes é dado. São apenas mão de obra a ser explorada para suportar o estilo de vida que outros levam. Vamos nós, um sem nome, conseguir fazer frente a bestas míticas e que só nos querem ver mortos, tal como os nossos superiores?

Surgem algumas revelações pelo caminho, que acabam por dar algum contexto à realidade adversa deste povo, seja do passado seja do presente. No entanto, durante cerca de cinco horas de jogo, senti uma falta notável de contexto ou elementos que conferissem significado. No espaço de 20 minutos, se tanto, lembro-me de falar com personagens distintos e questionar sobre dois assuntos igualmente díspares. Estas opções existiam durante as conversas, só lá estavam porque as decidiram colocar, daí o meu espanto quando levo com um “É assim que são as coisas!” ou “Não sei, mas acredita no que te digo!”. E nada do que perguntei era propriamente muito complexo.

O resto penso que seja um trabalho bastante competente. Não é nenhuma bomba gráfica, ainda que em certos locais consiga surpreender com a dimensão que tudo assume, e a nível sonoro destacam-se os efeitos e boas vocalizações. A banda sonora é algo que se esquece assim que desligamos o jogo. O que é pena, tendo em conta que muitos momentos pediam algo épico para acompanhar o combate, mas não tem grande impacto. As opções de acessibilidade deixam algo a desejar. Felizmente não preciso delas, e não tive dificuldade alguma a jogar, mas se as legendas e texto do menu eram minúsculos, e nem opção havia para aumentar o tamanho do texto.

Duvido que este título vá ter o peso que The Surge conseguiu alcançar, mas é bom ver que ainda há quem esteja interessado em fazer mais do que sequelas. Ainda que essa tentativa seja um pouco uma manta de retalhos de tantos outros títulos, mas é uma boa manta. Capaz de nos deixar confortáveis durante umas boas horas, em que ficamos a pensar se um pouco mais de tempo ou direção narrativa / artística não teria dado o corpo que Atlas Fallen precisava para se destacar num período algo transitório entre outros bons jogos que foram recentemente lançados e os grandes nomes que se começam a aproximar a passos largos.

Atlas Fallen

Atlas Fallen
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Lançamento: 2023-08-10
Distribuidora:
Estúdio:
7.5
Picture of Marco Almeida
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

Colaboraram neste artigo

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