Babel é uma obra complexa que navega entre várias temáticas desde imperialismo, colonialismo, segregação social, tradução linguística e uma intrincada ligação entre mitologia e magia. R. F. Kuang tem-nos habituado a histórias densas sustentadas por investigação rigorosa dos temas o que confere as suas obras a possibilidade de as mesmas terem acontecido numa linha temporal diferente.
Enredo e Personagens
O enredo segue a vida de Robin Swift, um órfão de Cantão, apadrinhado e levado para uma Londres pelo seu mentor, o professor Richard Lovell no seculo XIX. Desde cedo, Lovell direciona a educação para o latim, grego antigo e chinês, com o objectivo de o preparar para entrar em Babel, o Real Instituto de Tradução de Oxford.
Já em Oxford, Robin forma amizade com um grupo eclético de amigos; Ramy (Indiano, de Calcutá), Victorie (Haitiana, criada em França) e Letty (Inglesa, filha de um militar). É neste mundo de Oxford que mais tarde na trama Robin se vai envolver com uma sociedade secreta que pretende derrubar o imperialismo britânico, recrutado pelo seu meio-irmão Griffin.
Nas personagens Kuang permitiu-se fazer bastante desenvolvimento de personagens sem nunca deixar o enredo para trás e sem deixar a história densa.
Barras encantadas e a magia da tradução
Kuang foi particularmente inteligente ao usar a génese das palavras como ponto de entrada para a magia. Como é conhecimento geral, as línguas divergem umas das outras, e assim palavras similares ganham significados diferentes em contextos específicos e o inverso também acontece. Kuang usou este princípio brilhantemente, colocando-o ao serviço da narrativa.
Neste universo, a ação de objetos inanimados e a sua melhoria baseia-se na utilização de barras de prata com inscrições daquilo a que a autora chama de pares-correspondentes, ou seja, duas palavras em línguas diferentes com significados próximos, mas não idênticos, que conferem ao objeto uma função especifica.
Parece confuso, eu sei, mas não realidade é bastante simples e Kuang não se inibe de usar linhas e linhas da narrativa para as explicar. Por exemplo, se queres disparar um canhão com precisão e exatidão, neste universo uma barra de prata com um par-correspondente é usada para “ajudar” o objeto a executar a sua função da melhor maneira.
Estrutura narrativa e desenvolvimento
Em termos de escrita, o livro não é maçador apesar da sua extensão (623 páginas). A autora permitiu-se a fazer desenvolvimento de personagens, o que não é necessariamente bom ou mau, depende sempre das opções de cada leitor. Pessoalmente, aprecio quando temos tempo para criar uma personagem complexa e não superficiais como Kuang fez com as principais personagens da narrativa.
A ação da história é descontínua, ou seja, existem momentos que passam dias, semanas e até anos entre capítulos. Para quem gosta de livros finais típicos este não é de todo a melhor opção. A meu ver é um final aberto que possibilitaria uma continuação, mas não acredito que tal aconteça, pois a história está perfeita como está.
Tradução portuguesa
Em relação à versão portuguesa do livro, por ser tratar de uma obra baseada em linguística, a sua tradução tinha de ser exímia. Aqui, deve dar-se os parabéns à editora pelo excelente trabalho realizado por Alexandra Cardoso, não deixando morrer trocadilhos ou expressões na língua original para se entender a história.
O livro possui muitas notas de rodapé, o que é necessário visto que nem todos são especialistas em múltiplas línguas e significados. Essas notas ajudam a entender melhor o pensamento original da autora e a complexidade do sistema das barras de prata. Independentemente disso, e apesar de necessário, o uso frequente de notas corta muitas vezes a cadência da história para o leitor. Eu recomendo Babel, pois nunca tinha lido nada remotamente similar e que fosse cativante. É uma obra que desafia o leitor a pensar sobre o poder da linguagem, a cumplicidade das instituições de poder na opressão de minorias e a questão da violência como forma de resistência.
Veredicto final
Eu recomendo Babel, pois nunca tinha lido nada remotamente similar e que fosse cativante. É uma obra que desafia o leitor a pensar sobre o poder da linguagem, a cumplicidade das instituições de poder na opressão de minorias e a questão da violência como forma de resistência.