Mike Flanagan, o rei do terror televisivo
Quem circula pelas suas preferências dentro do género de terror já deve estar familiarizado com o trabalho de Mike Flanagan. A sua jornada na televisão tem sido marcante e dignificadora do género, e não por acaso: ao contrário de muitos criadores que se limitam a replicar fórmulas, Flanagan tem conseguido transformar cada nova série numa experiência distinta, com identidade própria. Desde a minissérie The Haunting of Hill House que o realizador mostra, repetidamente, que o seu trabalho no pequeno ecrã consegue deslumbrar mais do que os seus próprios trabalhos de cinema, e é precisamente essa bagagem que torna tão interessante vê-lo pegar numa obra tão conhecida como Carrie.

Carrie, reinterpretada para os dias de hoje
Carrie é o seu novo projeto, e parte de uma das histórias mais conhecidas de Stephen King. Mas, baseada nesse livro, a série conta os eventos de uma forma deliberadamente diferente daquela que já conhecíamos. Sendo um dos livros mais curtos do autor, e ao contrário de outras adaptações anteriores, mais fiéis e mais contidas, esta versão alonga a história, criando novos entrelaçamentos entre as personagens, com ideias originais e uma jornada bem mais complexa para a protagonista. É uma decisão arriscada, pegar num material tão curto e expandi-lo para oito episódios, mas é também o que permite à série respirar e desenvolver camadas que o livro nunca teve espaço para explorar.
Passada nos tempos atuais, esta nova Carrie transporta os seus problemas para o presente, funcionando também como crítica social à nossa forma de viver hoje, num mundo onde as redes sociais são parte integrante da vida de todos, e onde o seu uso pode ser mal interpretado, sobretudo por quem ainda está a moldar as suas próprias ideias e identidade. É aqui que a atualização do material original ganha mais força: a humilhação pública, tema central do livro de King, já não precisa de um ginásio cheio de colegas para se espalhar, basta um telemóvel e uma ligação à internet. A série usa essa diferença geracional a seu favor, sem a transformar num exercício panfletário sobre as redes sociais.
Um terror moderno com crítica social
Transformar Carrie numa série, mantendo os componentes que tornam esta história tão eficaz dentro do género de terror e, simultaneamente, aliando-lhe medos bem mais contemporâneos, é um equilíbrio difícil de alcançar, e esta adaptação consegue-o. Flanagan continua, assim, a sua jornada de transformar as histórias que adapta em algo seu, com um cunho pessoal muito característico, mesmo quando esse cunho pessoal não salta imediatamente à vista. É uma marca de autor mais subtil do que a de outros realizadores do género, construída através do ritmo, da forma como filma o quotidiano antes da tragédia, e da paciência com que deixa as personagens existir antes de as sujeitar ao horror que todos sabemos que aí vem.

A história de Carrie já é mais do que conhecida, e aquilo que representa já foi contado vezes sem conta, em filmes para cinema, filmes para televisão e, claro, no romance original. O risco de qualquer nova versão é, precisamente, o da repetição exaustiva de algo já visto. Ainda assim, esta série evita essa armadilha: não é uma repetição do que já nos foi mostrado até hoje, é uma reinterpretação genuína, que parte do que já conhecemos para chegar a um lugar emocional diferente.
Personagens cruas, verdadeiras e inesquecíveis
É nas personagens que esta reinterpretação mais se destaca. Estão representadas de forma brilhante, com destaque especial para o grupo principal, e o que mais impressiona é a ausência de atalhos fáceis na sua construção. É cru. É cruel. É verdadeiro, tão verdadeiro quanto pode ser, tendo em conta aquilo que nos é mostrado ao longo dos episódios. Não há vilões unidimensionais nem vítimas perfeitas, há apenas pessoas a reagir, mal, à pressão social que as rodeia, o que torna o desfecho da história ainda mais difícil de encarar com distância.
São essas personagens que tornam esta Carrie ainda mais real, ainda mais capaz de nos fazer pensar e de nos deixar agarrados do princípio ao fim. Já vi esta história contada várias vezes, em diferentes formatos e épocas, e ainda assim fiquei completamente agarrado a esta versão, o que, por si só, já diz muito sobre o trabalho feito aqui. A realização não falha, e a direção escolhida funciona perfeitamente ao longo desta jornada de Carrie e de todos os que a rodeiam. Os acrescentos à história original são eficazes e acabam por alargar este mundo que já julgávamos conhecer de cor, sem nunca parecerem enchimento. Tudo encaixa na estrutura que decidiram criar, e os oito episódios mantêm-se sólidos do princípio ao fim, algo raro em séries que expandem material originalmente mais curto.

Nem todos os episódios atingem o mesmo pico
Depois de ver os oito episódios na íntegra, há, no entanto, uma reserva a fazer. Tudo encaixa na estrutura que decidiram criar, mas o nível de intensidade não se mantém absolutamente constante do princípio ao fim. Há episódios claramente mais fortes do que outros, momentos em que a tensão e a escrita atingem um pico quase perfeito, e outros em que a série abranda ligeiramente o ritmo para preparar o terreno para o que vem a seguir. Isto não chega a comprometer a experiência global, até porque mesmo os episódios mais fracos mantêm um nível de qualidade elevado, mas é uma diferença percetível para quem vê a temporada de forma contínua. É essa ligeira oscilação, mais do que qualquer falha concreta, que separa esta Carrie da perfeição absoluta.
Um dos grandes trabalhos de Flanagan
É o melhor trabalho de Mike Flanagan? Diria que esta Carrie se coloca mesmo a par da primeira temporada de The Haunting of Hill House, até agora o grande marco de referência do realizador no terror televisivo. Não por imitar o que Hill House fez, mas por conseguir, à sua maneira, o mesmo feito: pegar em material já muito trabalhado e encontrar ali algo novo, genuíno e capaz de nos deixar agarrados do princípio ao fim. É, sem qualquer dúvida, um dos grandes trabalhos do realizador.