O futebol está presente nos videojogos desde a sua verdadeira génese. Se recuarmos aos anos 70, mais precisamente a 1973, a Magnavox Odyssey apresentou aquele que viria a ser o primeiro jogo de futebol de sempre. Com apenas três simples pontos de luz no ecrã e uma folha de plástico com o campo desenhado para colar na televisão, conseguia-se fazer autênticos milagres na imaginação dos jogadores. A partir desse momento histórico, o desporto rei fez sempre parte do percurso das consolas. Aliás, a falta de títulos de futebol de grande sucesso, como os antigos FIFA da EA Sports, chegou mesmo a ser um dos motivos para o insucesso comercial de algumas plataformas ao longo das décadas.
Nestes anos todos, já jochei coisas muito diferentes referentes a este desporto. A minha primeira grande aventura foi com Soccer da Nintendo, passando depois pelas memórias incríveis de Nintendo World Cup. Mais tarde, descobri a magia de International Superstar Soccer na SNES. Tive experiências únicas com Liberogrande, que nos mostrava como era possível ter um jogo focado no controlo de um único jogador, ou com Actua Soccer, que batia de frente contra tantos concorrentes. A simulação e o estilo arcada misturavam-se perfeitamente em títulos como Virtua Striker, jogado exaustivamente no cafezinho da terra, até o FIFA 2000 chegar finalmente lá a casa. Depois, foi o Pro Evolution Soccer 3 a fazer as delícias do meu início de juventude, enquanto nomes como Elifoot, Championship Manager e, mais tarde, o Football Manager faziam furor na vertente tática.

Entre o futebol de rua, os torneios de praia, ser treinador, jogador ou levar uma seleção à glória num mundial, o futebol sempre fez parte da minha vida de jogador. No entanto, acabei por me desligar durante muitos anos devido à estagnação do género. Com o desaparecimento das dezenas de alternativas que existiam na era da PlayStation 1, chegámos à década de 2010 apenas com FIFA, PES e FM a levarem o barco para a frente. Vários concorrentes foram aparecendo ao longo destes últimos dezasseis anos, mas nada que realmente se destacasse ou que me venha rapidamente à memória enquanto faço este exercício nostálgico. É um cenário um pouco triste para os fãs do desporto, mas é exatamente neste vazio de criatividade que surge Copa City, uma lufada de ar fresco muito bem-vinda.
Os Adeptos no Centro das Atenções
De tudo aquilo que já foi feito na indústria, há uma abordagem específica que nunca tinha acontecido: colocar os adeptos em primeiro plano. Até hoje, como referi na introdução, o mundo do futebol virtual viveu sempre dentro das quatro linhas ou no banco de suplentes. Copa City inverte completamente este paradigma e coloca o adepto no centro de toda a experiência.
Este novo título é um jogo de gestão do género tycoon com uma perspetiva nunca antes vista em torno do futebol. Aqui, não gerimos as finanças diretas de um clube, nem treinamos os onze jogadores que entram em campo. O nosso papel é gerir o fenómeno do futebol a nível citadino, desde a antecipação logística de um grande jogo até ao momento do apito inicial. Temos de saber exatamente como receber milhares de adeptos, evitar conflitos com os ultras, proporcionar entretenimento, encher o estádio e garantir que este é um evento seguro para toda a família. Tudo aquilo que planeamos e construímos serve o propósito de criar a melhor experiência possível para os fãs, e é esse sucesso organizativo que dita a nossa própria vitória no jogo.

Uma Cidade Que Respira Futebol
A premissa base é simples e altamente cativante. Assumimos o papel da Copa City, uma grande empresa responsável pela gestão de todos os eventos que envolvam as partidas de alto risco no estádio principal. O jogo oferece-nos várias cidades reais para escolher, todas elas dominadas pela cultura do futebol, e conta com vários clubes licenciados de renome. Embora o licenciamento esteja longe da abrangência de um EA Sports FC ou de um Football Manager, a presença de cidades do mundo real oferece um nível de imersão fantástico.
No entanto, apesar desta louvável atenção ao detalhe com algumas equipas oficiais, é evidente que é preciso ir mais longe para conseguir conquistar outros grupos de fãs de futebol. É crucial expandir o catálogo, trazer mais equipas e garantir mais licenças para o futuro. Compreendendo perfeitamente o impacto económico e o enorme investimento que este passo acarreta para um estúdio independente, julgo que só assim o jogo conseguirá atingir a relevância desejada. É um bom arranque, sem dúvida, mas falta-lhe claramente um passado, por assim dizer, para se fixar como uma referência de peso no mercado.
A Gestão ao Milímetro no Estádio
No meu primeiro impacto com o jogo, cheguei a sentir que a experiência estava demasiado focada na logística urbana e pouco ligada ao futebol de forma direta. Contudo, rapidamente damos o salto para o interior do estádio, e é aí que a magia acontece. Temos de genre meticulosamente as bancadas e a localização de cada tipo de adepto. Para que setor enviamos os ultras? Onde ficam as famílias dos jogadores? Como separamos os adeptos da casa dos visitantes? Onde colocamos as forças de segurança ou os pontos de venda de comida? O relvado está em condições para o jogo? Os bilhetes estão ao preço certo para garantir lotação esgotada?

Há tantas perguntas que precisam de uma resposta rápida que, de um momento para o outro, este título transforma-se em algo muito mais complexo do que aparenta à primeira vista. Não vejo isso de forma alguma como um aspeto negativo. Aliás, é uma característica comum aos grandes jogos tycoon: são complexos de dominar, mas incrivelmente prazerosos quando vemos todas as nossas engrenagens a funcionar na perfeição.
Os Tropeços Técnicos e a Resposta do Estúdio
Apesar de gostar muito daquilo que foi feito aqui, da forma como o jogo nos coloca num espaço nunca antes explorado e do ambiente fantástico criado em torno dos bastidores do futebol, a versão Xbox, que tive a oportunidade de jogar, apresenta alguns problemas notórios. Existem falhas marcadas, principalmente a nível de performance em momentos inesperados e no próprio aspeto gráfico. Por algum motivo inexplicável na versão que experimentei, os vídeos pré-renderizados, que servem para dar uma componente mais cinematográfica à jornada, bloqueiam a cada três segundos. O jogo em si corre normalmente, mas este problema quebra imenso a imersão. Além destes bloqueios constantes, a qualidade desses vídeos está claramente reduzida. O outro lado da moeda é o aspeto gráfico in-game. Fiquei bastante desiludido quando fiz zoom pela primeira vez e percebi que não era possível ler qualquer palavra nas roulottes de comida, de tão baixa que era a resolução das texturas.
No entanto, numa nota de enorme honestidade e respeito pela comunidade, o próprio estúdio veio a público reconhecer abertamente que este arranque não correu como o esperado. Num comunicado oficial partilhado pela equipa, os produtores admitiram estes erros técnicos e confirmaram que já estão a trabalhar arduamente em vários patches de correção pós-lançamento para resolver as falhas de performance e de resolução que aqui apontámos. Como forma de apaziguar a frustração dos jogadores e reconhecer publicamente este arranque em falso, o estúdio tomou a decisão invulgar de baixar o preço do jogo tanto nas consolas como no PC. Esta postura humilde de assumir as falhas transforma uma situação delicada numa demonstração de compromisso que merece ser valorizada, deixando antever um futuro mais polido. Felizmente, com exceção destes pontos técnicos, a restante jogabilidade funciona muito bem e os controlos na Xbox são incrivelmente intuitivos.

Veredito
Copa City é a injeção de originalidade que o género dos videojogos de futebol precisava desesperadamente. A ideia de abandonar os relvados para nos focar na gestão logística, na segurança da cidade e na satisfação dos adeptos resulta numa experiência tycoon surpreendente, profunda e muito viciante. É um autêntico tributo a tudo o que envolve o espetáculo do desporto rei fora das quatro linhas. Se a equipa de desenvolvimento conseguir aplicar com sucesso os patches prometidos para resolver os problemas técnicos e continuar a investir na expansão de licenças, estamos perante um título obrigatório não só para os fãs de futebol, mas para qualquer amante de um bom jogo de gestão.