Quais são os requisitos para ser padre? Tecnicamente, ter-se-ia de frequentar o seminário, estudar e devotar-se a Deus até finalmente se ser ordenado e se poder ser considerado padre. O subversivo Corpus Christi de Jan Komasa vê a questão em termos mais existenciais, permitindo que um delinquente juvenil bem-intencionado pule toda essa preparação espiritual e convença uma pequena comunidade polaca a aceitá-lo.
Atraído pela religião, mas sem permissão para ingressar no seminário por causa de seu histórico criminal, Daniel (Bartosz Bielenia) viaja para uma cidade rural na Polónia depois de sair em liberdade condicional para trabalhar. No entanto, uma pequena mentira faz com que este tome a identidade do jovem novo padre, Tomasz (nome que assume em homenagem ao padre que o visitava na cadeia e que o inspirou), e quase que como por intervenção divina tenha uma oportunidade para começar uma nova vida a fazer o que quer e que de outra forma, pelo seu passado, não poderia. Rapidamente, Daniel começa a celebrar missas e a ouvir confissões, enquanto o padre residente mais velho se encontra em reabilitação. Torturado pelos seus próprios demónios interiores, este intruso misterioso é sincero, simpático e surpreendentemente eficaz nos seus métodos não convencionais, e o facto de saber que eventualmente alguém o pode descobrir parece apenas ser mais lenha para a fogueira, levando-o a empenhar-se mais. Um dos principais desafios da performance de Bielenia é que este deve transmitir o fardo da sua consciência do personagem, enquanto se apresenta a esta comunidade como uma bússola moral.
Inspirado em eventos reais, o filme dramatiza o que acaba sendo uma ocorrência bastante comum na Polónia contemporânea: a cada poucos meses, alguém é expulso por se passar por padre. Mas o que leva estes homens a fazê-lo? E como o conseguem fazer?
A crítica mais urgente, no entanto – aquela que atrapalha a crescente desilusão da sociedade com a religião organizada – tem a ver com a hipocrisia e a corrupção que Corpus Christi expõe no sistema. A podridão revela-se nos acordos moralmente questionáveis que empurraram o velho padre para o álcool. Um deles terá sido o facto deste ter concordado em abençoar a abertura de uma fábrica como um favor ao prefeito (Leszek Lichota), que exerce pressão sobre a igreja para conseguir o que ele quer. O próprio padre admite ter cometido um pecado capital, descobrimos mais tarde que se trata, portanto, da ganância e esta revelação dá origem a um dos vários sermões humildes e bem escritos de Daniel.
O drama dá uma reviravolta interessante quando Daniel descobre que um trágico acidente de trânsito traumatizou a comunidade e descobre uma habilidade inesperada no cuidado pastoral, enquanto tenta ajudar a curar as almas danificadas dos que estão a fazer luto. Tudo isso cria um conflito dramático convincente e é gratificante ver um impostor abalar o status quo. O filme aumenta ainda mais a tensão quando aparece um antigo colega prisioneiro (Tomasz Zietek) que ameaça revelar o segredo de Daniel, chantageando-o e pondo em causa o seu caminho para a redenção.
Pegando numa das frases do filme que diz que “o silêncio também é uma oração”, muitas das cenas parecem aproveitar a expressividade do rosto de Daniel para apresentar profundidade ao filme, acrescentando assim uma emoção e luta interior a um diálogo (argumento de Mateusz Pacewicz) que por si só já é forte e talvez a componente mais interessante. No espaço deixado vazio de palavras, o público é assim livre para projectar todo o tipo de interpretação, e se colocar dentro das próprias questões que vão sendo postas. Afinal o que é a fé? O que é o bem e o mal? Não merecemos todos redenção? Quem é digno de ser o representante de Deus na terra, o ordenado ou o iluminado?
Uma das únicas falhas é, no entanto, a incapacidade de transmitir porque as acções de Daniel são imperdoáveis ou más. O facto de vermos este “crime” apenas pelo ponto de vista deste jovem que realmente tem fé, ignora todos os que se disfarçam com más intenções. Embora haja um momento em que o seu “mentor” o confronta com a ideia de que ser padre não é uma brincadeira, nem fácil, ficamos ainda do lado de Daniel sem grande esforço. Deveria haver mais conflito, criar no espectador mais reflexão entre o bem e o mal, qual a linha que os separa e em que circunstâncias essa linha deve ou não ser ultrapassada, afinal este é um problema comum na Polónia.
Na fé católica, o processo de ordenação culmina com o nome de alter Christus, ou substituto de Cristo. Há uma transformação divina nesse acto, e, no entanto, o filme implica que a comunidade que Daniel engana é melhor pela sua influência. Como se personificar um padre fosse no máximo um pecado pequenino, quando na verdade não é um padre que está a ser personificado, mas a mensagem de Cristo, e pode esta começar com um crime? Será desculpável? Será que os meios justificam os fins? E não será pior quando esses meios envolvem o nome de Deus? Ou será que é a intenção de Deus que assim seja feito? Todas estas são perguntas que o filme levanta e que falha em responder, o que talvez seja de propósito para que sejamos nós próprios a responder, a pensar no assunto, não sendo ao acaso que o filme acaba em aberto.
Todo o filme leva-nos a esperar algum tipo de trajectória redentora, mas no final parece que não é para lá que caminha, acabando numa nota muito mais sombria e que nos deixa a reflectir sobre qual será a verdadeira mensagem que se quer transmitir. Na minha opinião, a mensagem para além de que redenção há para todos aqueles que se arrependem, é a de que o nosso exemplo afecta os outros. Por isso, as nossas acções têm um peso que é não só o de terem consequência na nossa vida, mas nas daqueles que nos rodeiam, e que por isso há que pensar na maneira como agimos. Uma nomeação ao Óscar de melhor filme estrangeiro bem merecida e que só salienta como o cinema estrangeiro é um terreno que merece ser explorado.