Corrida dos Bichos: o Brasil reinventa o Death Race com sotaque carioca e crítica social

O novo filme brasileiro do Prime Video mistura Death Race, The Running Man e Squid Game para transformar o Jogo do Bicho numa distopia sobre desigualdade e sobrevivência
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O Brasil acaba de levar até ao Prime Video uma experiência ao estilo de filmes como Death Race. Num mundo pós apocalíptico, uma luta ilegal entre humanos disfarçados de animais transforma se no desporto favorito de um grupo restrito de milionários. Corrida dos Bichos, estreado a 7 de agosto de 2026 na plataforma, é a prova de que o cinema de género brasileiro está pronto para disputar espaço no topo do streaming mundial.

Um Jogo do Bicho levado ao extremo

A premissa parte de uma realidade muito concreta: o Jogo do Bicho, uma prática de apostas ilegal que continua a assolar grande parte do Brasil. O filme pega nessa base cultural e empurra a até um futuro distópico, onde o Rio de Janeiro está em ruínas e o mar secou por completo, transformando as antigas praias num deserto vasto e hostil. Nesse cenário, a velha aposta popular evoluiu para a Corrida dos Bichos, um evento brutal em que corredores representam animais e arriscam a vida por um prémio em dinheiro capaz de mudar o destino de quem sobrevive.

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A engenhosidade está em como o argumento amplia as apostas: para poder competir, cada corredor tem de oferecer uma pessoa querida como garantia. Só os vencedores recuperam quem amam. Esta regra transforma o jogo num mecanismo duplo, ao mesmo tempo espetáculo de entretenimento para os ricos e instrumento de opressão para os pobres, escancarando um abismo social que já existia muito antes da catástrofe ambiental que moldou este novo mundo.

As referências que saltam à vista

Quem já viu cinema de género reconhece rapidamente a genealogia de Corrida dos Bichos. Há muito de Death Race, na estética de corrida mortal transformada em espetáculo de massas. Há ecos de The Running Man, no conceito de um jogo televisivo em que a sobrevivência é o único prémio que interessa. E há também uma pitada de Squid Game, sobretudo na forma como o desespero económico empurra pessoas comuns para um sistema desenhado para as destruir em nome do entretenimento alheio.

O mérito do filme não está em esconder estas influências, mas em recusar se a ser uma simples cópia. A equipa liderada por Fernando Meirelles, o realizador de Cidade de Deus, ao lado de Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, optou por enraizar a história em algo genuinamente brasileiro. A transformação do Jogo do Bicho em Corrida dos Bichos não é apenas uma mudança de nome: é uma evolução narrativa que faz todo o sentido dentro da lógica da própria história, uma forma de manter o poder concentrado exatamente onde sempre esteve, agora com máscaras de animais e câmaras a transmitir tudo em direto.

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Um elenco de peso ao serviço da distopia carioca

No centro da trama está Mano, interpretado por Matheus Abreu, um jovem idealista que sempre combateu a corrida e tudo o que ela representa. Esse mundo desmorona quando a sua irmã se torna a garantia oferecida por um dos participantes, obrigando Mano a mergulhar exatamente naquilo que sempre tentou destruir. É esta contradição, a de ter de abraçar o sistema para o poder eventualmente derrubar, que dá ao protagonista a sua jornada de crescimento mais interessante.

Ao seu lado, o elenco reúne nomes como Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge e Leandro Firmino, além de uma participação especial de Anitta. É um elenco que traz peso dramático e uma certa nostalgia do cinema de ação nacional, ajudando a ancorar a fantasia distópica numa dimensão humana reconhecível.

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Ação, tensão e crescimento, sem grandes ambições autorais

É preciso ser honesto: Corrida dos Bichos não é um filme feito a pensar em prémios de autor. A ambição aqui é outra, e o filme cumpre a com competência. Tem ação bem coreografada, tem tensão que se mantém ao longo da narrativa e entrega uma jornada de crescimento satisfatória ao protagonista. Ao contrário de muitas produções do género que preferem deixar pontas soltas para sequelas incertas, este filme responde a tudo o que a história do próprio filme levanta, fechando o seu arco narrativo de forma coerente.

A luta representada é, por natureza, totalmente desigual: de um lado, uma elite que assiste e aposta; do outro, pessoas que arriscam tudo por uma hipótese de mudança de vida. Essa desigualdade está bem desenvolvida ao longo da narrativa, sem cair na simplificação fácil de vilões caricatos ou heróis perfeitos. É esse equilíbrio que torna a experiência mais próxima de uma crónica social do que de um mero exercício de género.

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Uma vitória para o cinema brasileiro

No fim de contas, é excelente ver este tipo de produção, ainda que fortemente inspirada em referências de Hollywood, a chegar de um país como o Brasil, com escala de produção internacional e uma passagem já confirmada pelo festival SXSW. Essa origem dá ao filme um brilho particular: não é apenas mais uma distopia de corrida mortal, é uma distopia que nasce de uma realidade brasileira muito específica e que a usa como espelho para falar de desigualdade, poder e sobrevivência.

Corrida dos Bichos não reinventa o género, mas apropria se dele com inteligência e identidade própria. Para quem gosta de ação com um verniz de crítica social, e não se importa de reconhecer influências claras de Death Race, The Running Man e Squid Game, esta é uma corrida que vale bem a pena acompanhar até à linha de chegada.

Corrida dos Bichos

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Eduardo Rodrigues
Considero-me um geek da cabeça aos pés. Adoro uma boa leitura, apreciar a arte da BD e da Manga, ver de uma assentada aquela série ou anime incrível, ir ao cinema e devorar um filme e deliciar-me com uma aventura interativa nos videojogos e nos jogos de tabuleiro. Sou um adepto da mágica Briosa e um assistente fervoroso no estádio.

Colaboraram neste artigo

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