Death Stranding 2: On the Beach

No livro A Jangada de Pedra, Saramago imaginou uma Península Ibérica que se separa fisicamente da Europa e começa a navegar pelo Oceano Atlântico como uma jangada. É uma alegoria do distanciamento político e social, claro. Em Death Stranding, Kojima imaginou uma América fraturada, onde os eventos da maré da morte isolaram cidades e pessoas.

Ambos os autores fazem uso do realismo mágico para nos transmitir uma mensagem, inesperadamente, bastante semelhante. As personagens a bordo da jangada de pedra atravessam a massa de terra à deriva, formando laços e uma família improvisada, enquanto Sam Bridges atravessa a América para reunir cidades isoladas, formando uma família e laços improvisados. Tanto na obra de Saramago como na obra de Kojima, só através da cooperação e solidariedade, quebrando o isolamento, poderão estes personagens sobreviver.

Death Stranding 2: On the Beach chega-nos já assente nesta base que o primeiro jogo entregou e concluiu de forma brilhante. É uma difícil tarefa, esta de fazer o que já feito está.

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Eu estive aqui

Talvez seja por isso que Death Stranding 2 comece com um tom de familiaridade intenso, apresentando-se quase como uma extensão do primeiro. Mas ainda assim uma extensão impressionante logo nos primeiros momentos, mostrando finalmente todo o poder técnico da PlayStation 5, ao revelar-nos um mapa grandioso onde tudo o que vemos à nossa frente será escalável. Só que, ainda assim, não deixa de ser só mais Death Stranding. Até ao momento que antecipei, por talvez já conhecer demasiado bem o seu autor, e onde esta sequela decide desfazer muito do que ficou feito na obra original, atirando-nos para uma nova viagem e novo continente (a Austrália), desafiando muito daquilo em que acreditamos. Vou poupar-vos a detalhes dessa reviravolta e de toda a história, pois esta merece ser vivida com total surpresa.

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Mais e melhor (mas nem sempre)

Resumidamente, Death Stranding 2 é um aperfeiçoamento do primeiro jogo em quase tudo. Faltou o quase. E antes de vos revelar aquilo que não apreciei tanto, deixem-me deixar algo bem claro. Esta sequela dificilmente conquistará quem não gostou da obra original. Sugiro antes que voltem a tentar o primeiro jogo (na versão Director’s Cut, por favor!) do que fazer uma entrada neste universo logo através da sequela. É que Death Stranding 2 é mais fácil em tudo, tirando algum do esforço envolvido no primeiro, e isso retira alguma magia à experiência. E esta é a minha primeira crítica. É claro que, depois dos eventos na história anterior, já temos mais ferramentas e recursos à nossa disposição para ajudar nas entregas pesadas, mas a sequela tem terrenos menos difíceis de percorrer ou escalar, acrescenta um género de fast travel (e em várias versões), e parece guiar demasiado a mão do jogador em certos momentos.

Foi por isso que me forcei algumas vezes a ir a pé do ponto A ao ponto B, só porque sabia que a recompensa, apesar do cansaço, seria muito maior (vícios que o primeiro jogo deixou). Esta foi uma clara tentativa de agradar a quem não se deixou fascinar por essa dificuldade, embora muito recompensada, que o primeiro trazia. E neste sentido, temos também o combate. Muito melhor, mais variado, com novas armas à disposição e com um stealth que só nos faz chorar ainda mais por um novo Metal Gear. Aqui sim, a evolução foi muito positiva. Mas o combate ainda continua a ser a parte mais fraca de Death Stranding 2. Até hoje não consigo entender o uso e abuso do slow motion em todas as lutas com inimigos. E há boss fights que deixam a desejar e encontros que nos fazem questionar, novamente, se o combate seria mesmo essencial num jogo deste calibre.

O ritmo do jogo foi mais acertado agora. Há um equilíbrio muito bom entre fazer só mais uma entrega e o avançar da história. E que história!

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Absolute cinema!

Narrativamente, esta é a obra-prima de Kojima. Cheio de metáforas, alegorias, ironia e mesmo humor sobre a condição humana, Kojima e a sua equipa entregaram aqui um enredo memorável, cinemáticas que parecem autênticas mega-produções do cinema e um grupo de atores que poderá bem ter aqui as performances das suas vidas. Os temas não fogem muito ao que já foi criticado e esmiuçado no primeiro jogo, afinal fazem parte do seu lore, mas desta vez não foram poupados esforços para nos gritar a urgência das alterações climáticas (o terreno do mapa sofre terramotos, incêndios, cheias e outros fenómenos a uma escala impressionante), ou para nos fazer temer a substituição do ser humano pelas máquinas e inteligência artificial ou o isolamento social causado pela tecnologia (que já explorei neste artigo). As críticas às corporações e ao capitalismo selvagem são muitas, fortes e incisivas, obrigando-nos a olhar o mundo lá fora (o nosso) com olhos de ver. Mas, surpreendentemente, há também aqui uma história de amor e intriga que deixará muitos jogadores de comando a tremer nas mãos.

Death Stranding 2: On the Beach fez-me chorar vezes e vezes sem conta. Por vezes, só enquanto percorria uma paisagem na minha mota a caminho de fazer mais uma entrega. Não tenho vergonha nenhuma em admiti-lo. Poucas obras têm esta coragem de remexer em temas tão pesados como a morte, a perda e o luto sem pedir licença. Com os seus personagens tão surreais, mas tão humanos, Kojima conseguiu muitas vezes colocar-me de frente a um espelho da minha própria vida. É arte pura. Transcendente. A história de Sam Porter Bridges ecoará pela história da humanidade da mesma forma que outras grandes obras, dos filmes aos livros e à música e qualquer tipo de arte, ecoam em nós sempre que precisamos de repensar a nossa existência.

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Perfeita imperfeição

Que terão em comum Red Dead Redemption, The Legend of Zelda: Breath of the Wild e Death Stranding: Director’s Cut?

São 3 jogos aos quais consigo apontar vários defeitos. São 3 jogos da minha lista de favoritos de sempre. São 3 dos jogos que mais marcaram a minha vida enquanto jogador. Será a perfeição aborrecida? Há vários jogos que considero perfeitos (ou aos quais não consigo apontar falhas), mas que não permaneceram comigo da mesma forma que estes três (e outros semelhantes) ficaram.

Death Stranding 2: On the Beach, em comparação com o antecessor, roça a perfeição. Anda mesmo muito perto de se tornar a obra definitiva de Kojima, mas parece que, quase propositadamente, há algo que nos relembra sempre que aqui, como em nós, há falhas e está tudo bem, faz parte.

E isto nem é imaginação nossa, são palavras do próprio autor. Quando achou que o seu trabalho não estava a polarizar e a desencadear emoções suficientes, Kojima voltou ao estúdio e refez algumas partes. As palavras do compositor Woodkid que, em conjunto com Ludvig Forssell, entrega aqui uma banda-sonora de excelência, são a prova disto mesmo: “Kojima disse-me: vou ser muito sincero, temos estado a testar o jogo com os jogadores e os resultados são demasiado bons. Eles gostam demasiado do jogo. Isso significa que algo está errado; temos de mudar alguma coisa” (fonte: IGN).

Kojima sabe que a perfeição é esquecível, não sabe?

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Não é para todos

Tal como Saramago, Kojima não é para todos. E não há nada de errado nisso. Death Stranding 2: On the Beach é uma viagem impressionante do ponto de vista técnico, puxando aos limites as capacidades da PS5 e trazendo visuais e mecânicas de jogo impactantes, mas não é o jogo que vai atrair novos fãs para o género único do mundo de Death Stranding. A verdade é que não há mais nada assim. E, não sei se repararam, mas nesta análise falei de tudo e não falei de nada. Esta história cravou-se no meu coração e não quero que ela de lá saia. Quero que a descubram como ela merece ser descoberta, através das performances brutais de Norman Reedus, Lea Seydoux, Elle Fanning, Troy Baker e restante elenco.

Uma palavra sobre Troy Baker, que tem aqui, na minha pouco modesta opinião, o papel da sua vida. O monólogo final de Higgs, o vilão da história e seu odiável personagem, é de uma mestria incrível. Conduzido pela mão de Kojima, o ator volta a brilhar em mais uma performance que ficará para a história dos videojogos.

É fácil esquecermo-nos de que este jogo, por ser tão grandioso e atrair tantos holofotes, é um produto de um autor indie com total controlo da sua criatividade, mas a verdade é que Hideo Kojima é um produtor independente… com milhões à sua disposição. Só isso justifica o grau de loucura e intensidade com que esta história é tratada, sem limites. E o mundo e a arte precisam de autores assim arrojados, sem medo do ridículo ou das ideias estranhas, e com uma rede de milhões que os proteja em caso de queda.

É bem possível que soltem uma gargalhada quando um personagem vos fizer um like depois de uma entrega, sem que ainda tenham tido tempo de secar a lágrima que escapou durante a última cinemática intensa. É bem possível que pousem o comando exaustos, de tanto andar, para voltar daí a meia hora para fazer só mais uma entrega. É bem possível que esteja aqui o jogo do ano e o marco de uma geração. Mas não me arrisco a dizê-lo. Não te quero magoar, querido Kojima. 👍

Death Stranding 2: On the Beach

Death Stranding 2: On the Beach
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Lançamento: 2025-06-26
Distribuição:
Plataformas:
9.5
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Filipe Branco
Fã de cultura geek em geral, mas é nos livros, videojogos e cinema onde mais me perco. Adoro escrever sobre o que me apaixona e eventos de gaming é comigo. Podem encontrar-me online ou à deriva num dos extensos corredores da próxima Gamescom.

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