Do Revenge – a vingança nunca foi tão Gossip Girl
Publicado a 28 Nov, 2022

Ou por outras palavras, esta gente precisa de um hobby…

Protagonizada por Camila Mendes (Riverdale) e Maya Hawke (Stranger Things) como duas estudantes do ensino secundário obcecadas por vingança, Do Revenge é uma comédia sombria da Netflix, que acima de tudo aproveita-se da nostalgia pelos filmes de adolescentes dos anos 90 e 2000 para cativar a sua audiência. Temos um guarda-roupa que faz lembrar filmes como Clueless, alunos divididos por grupos tal como em Mean Girls ou 10 Thing I Hate About You, e personagens fortemente vincadas pelos seus objetivos.

Drea (Camila Mendes) é uma rapariga inteligente, popular, no auge da sua adolescência em todos os níveis. Isto é, até que uma gravação de cariz sexual destinada ao namorado Max é publicada e ela se torna uma pária social da noite para o dia. Como única vítima deste ataque, pois tal como a própria afirma “este tipo de coisa nunca prejudica a reputação do rapaz”, decide vingar-se. Então, quando num acampamento de ténis de verão em Palm Beach conhece Eleanor, também furiosa e com sede de vingança por causa de um boato iniciado anos atrás por uma amiga, chegam a um acordo: ajudarem-se mutuamente. Tudo isto ao estilo de Strangers on a Train, um clássico de Hitchcock, em que dois estranhos combinam ser os “assassinos” para as vítimas um do outro para que, assim, nenhum tivesse motivo e nunca poderem ser condenados.

O que Do Revenge acaba por acertar em cheio é na sua inclinação para a sátira do género, em vez de tentar copiar e colar o que o passado tão perfeitamente já terá conseguido captar.  As interpretações das duas protagonistas, em particular, de Mendes é um dos pontos positivos, sem dúvida do filme. Embora não consigamos abstrair-nos do facto de que as duas já não passam por adolescentes de 16 anos, os anos que Mendes conquistou em Riverdale refinaram o seu desempenho de uma rapariga fria e popular, mas com uma secreta vulnerabilidade, a um nível profissional.

Os planos de vingança rapidamente se tornam indefensáveis, como repetir o pecado original de publicar mensagens pessoais, o que nos atira para a ideia de que a vingança pode mesmo corromper o injustiçado ao ponto de o próprio se tornar um vilão. Porém, depois de uma reviravolta bem entregue aproximante a um terço do fim, as peripécias desenrolam uma sobre a outra sem acabarem por realmente desabar em algo de concreto. Com quase duas horas de filme, Do Revenge estende-se para lá do necessário. É, sem dúvida, revigorante a forma como temos duas protagonistas femininas com carácter e que não perfeitas e boazinhas. No entanto, o narcisismo exagerado afasta-nos do objetivo que é torcer por uma das duas, ou até mesmo, ambas. Para além disso, mesmo sendo um filme longo, ficam a faltar cenas entre Eleanor e Gabbi, o desenvolvimento da relação entre Drea e Russ que acontece em menos de duas cenas, e o relacionamento da feminista Gabbi com Max, o irmão misógino.

Ainda assim, Do Revenge oferece uma realização comovente e esperta por parte de Robinson, um design de produção vibrante por Hillary Gurtler e um figurino impecável por Alana Morshead, colocando-o num escalão superior da qualidade visual dos filmes da Netflix. Em última análise, não deixa de ser um filme de adolescente com um twist, um que a Netflix se deve orgulhar de acrescentar ao seu reportório, não pela novidade ou pela excelência, mas por cumprir aquilo a que se propõe: visualmente cativante, divertido e a caminho de se tornar um clássico do género.

Justiceiras
Satisfatório
Argumento:
Duração: 01H54M (114 min)
Distribuição: ,
Lançamento: 16 de Setembro de 2022
6.5
Escrito por:
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.