Caos perigoso
Donkey Kong é uma aventura perigosa. Um personagem poderoso nas mãos da Nintendo desde a sua génese nos videojogos, colocando várias empresas em cheque para levar Kong de forma gratificante às consolas da gigante nipónica. Entre vários formatos e plataformas, Donkey Kong foi passando no teste do tempo, colocando ideias concretas em cada um dos seus lançamentos e mostrando que ainda era capaz de continuar. Com vários personagens a utilizarem o género das plataformas para se destacarem na Nintendo, torna-se complexo criar algo inovador ao fim de tantos anos, mas é aí que entram os verdadeiros criativos. É aí que se destacam. É aí que aquela clássica escola de game design demonstra que ainda tem algo para oferecer. Mas a cada iteração das suas franquias, fica sempre a mesma questão… o que têm para oferecer desta vez?
Donkey Kong é caótico no bom sentido. Desde o seu início é um personagem com ambientes e caracterizações exageradas e capaz de desafiar o jogador de formas totalmente diferentes. E Bananza promete, desde o seu anúncio, ser tão ou mais louco do que já foi lançado até aqui. É evidente, em tantos anos de indústria, que a Nintendo continue a apostar na diferença de cada uma das suas mascotes. Donkey Kong vem dos primórdios da gigante nipónica colocando em cada iteração lançada uma inovação capaz de surpreender os mais céticos. Nem sempre as coisas correram bem, principalmente quando falamos de 40 anos de jogos, mas é inegável que cada um tem algo para se destacar. Os clássicos colocaram as arcades nas ribaltas, a Rare explorou capacidades impossíveis na Super Nintendo, a GameCube viu a saga em formatos inesperados e a Retro Studios conseguiu dar nova vida à franquia. A saga tem uma evolução curiosa, caótica e muito divertida de se descobrir.

Eu encontrei Donkey Kong pela versão NES do primeiro jogo, mas especialmente com Donkey Kong Jr., que foi um favorito durante o meu primeiro capítulo como jogador. Foi com o Game Boy Advance que descobri os títulos Country e a maravilha do caótico Donkey Kong em plataformas. Diverti-me, aventurei-me e desafiei-me em cada capítulo desta jornada. E na Wii e Wii U deliciei-me com o Returns. Foi algo inesperado, mas tão bem-vindo que me deixou esperançoso que esta saga tinha muitas pernas para andar. É fácil perceber que sempre tive uma relação muito positiva com esta franquia e, mesmo com os jogos menos interessantes, passei uns belos momentos. Não é difícil adivinhar que o entusiasmo pelo novo capítulo foi grande desde o seu anúncio.
A Jornada
Anunciado para a Switch 2, Donkey Kong Bananza vem diretamente dos estúdios internos da Nintendo, já que a Retro Studios está ocupada a desenvolver Metroid Prime 4 Beyond. Nesta perspetiva, sabia que não iria contar com um Country em modo 3D, mas que algo dessa escola estaria efetivamente presente. No primeiro contacto, foi rapidamente percetível que faltava aqui muita da essência anterior, mas que havia espaço para explorar novas ideias e estruturas. Mesmo não tendo sido um primeiro impacto arrebatador, foi uma demonstração das possibilidades que as próximas horas me iriam proporcionar.
Bananza tem uma capacidade curiosa de me divertir das formas mais inesperadas possíveis e onde tudo aquilo que à partida viria como problema pode ser visto como uma virtude para esta aventura. A jornada começa devagar, mas rapidamente se sente o estrondo de escavacar o cenário que está à nossa frente. É gratificante entrar nestas aventuras da Nintendo, onde o gameplay se associa ao tutorial e, apesar do jogo nos ir dando algumas ajudas do que devemos fazer, as mecânicas estão todas lá e podem ser exploradas desde o arranque.
Um problema curioso

A par com as mecânicas implementadas neste título, que nos permitem explorar cada centímetro do cenário de forma diferenciada, são mesmo os cenários que brilham neste título. Aliás, é isso que vende Bananza, com a sua capacidade de destruir praticamente todo o ambiente. Aqui é onde um dos problemas reside. Estamos a falar de um jogo que nos permite explorar cenários 3D com uma verticalidade e horizontalidade impressionantes. A dimensão é grande e, mesmo que não requeira horas infinitas para explorar cada cantinho, é respeitável aquilo que a Nintendo conseguiu aqui criar. Tudo isto é indicativo de um problema… para todos? Talvez não, mas sem dúvida para mim.
Eu tenho um problema… a verdade é essa. Não é o jogo, mas sim eu, que quero explorar todos os cantinhos de cada mapa e depois acabo por me aborrecer. E a dimensão de destruição deste jogo deixa-me louco por nem sempre conseguir ir a todos os lados. Até porque o jogo não oferece assim tanto extra por destruirmos todo o pedaço do mapa. Mais ou menos, vá. A verdade é que o jogo tem vários colecionáveis, mas o que irás encontrar mais são as moedas. O dinheiro do jogo é importante para certas coisas, mas qualquer jogador mais explorador vai ter sempre mais do que suficiente para avançar na aventura sem qualquer percalço. Já os verdadeiros colecionáveis estão em locais mais estratégicos e, muitas vezes, não é assim tão difícil de os encontrar — basta ter bom olho enquanto exploramos a parte superior do cenário.
Então o meu problema cria outros problemas que só vamos encontrando dependendo da nossa forma de jogar. Por isso, isto é um problema não o sendo, colocando em cheque a nossa experiência se explorarmos Bananza de forma muito específica. Negativo ou positivo é um detalhe nesta estrutura complexa que a Nintendo tentou aqui imprimir. É divertido explorar, até deixar de ser divertido. É interessante a mecânica de destruir, até percebermos que não há assim tanto para descobrir. Em contrapartida, existem centenas de colecionáveis e muito por encontrar. É um paradoxo.
Divertido e para todos
Este paradoxo desenrola-se num jogo capaz de agradar a qualquer tipo de jogador. Claramente com os seus problemas, a forma como jogamos pode influenciar a experiência, em todos os aspetos. Enquanto os mais recentes títulos do DK transformam-se rapidamente num desafio extremo de perícia do jogador, este é efetivamente mais fácil de suportar. Quer na descoberta de cada cenário, quer na procura dos colecionáveis ou no embate contra os diversos inimigos, o jogo tem um nível de dificuldade adaptado a cada jogador. Mantendo a sua dose de desafio, Donkey Kong Bananza é, na sua génese, um jogo bem mais acessível que os anteriores da franquia.

Com este nível de dificuldade, cabe à exploração criar o suporte suficiente para agarrar o jogador. E, como disse antes, não há assim tanto para descobrir neste jogo, mas é altamente divertido o nível de destruição que se pode fazer. O mérito foi mesmo conseguirem criar estes ambientes diversificados, com cenários cheios de cor e que são passíveis de toda a destruição. E ainda é mais interessante quando olhamos para os detalhes. A atenção ao detalhe é algo já habitual da casa nipónica e que continua a dar frutos tantos anos depois. Desde os mais ínfimos pormenores, continua a ser um jogo que mostra esta tão interessante competência, colocando a atenção do jogador em tudo o que envolve este título. Mesmo com máquinas menos capazes que as restantes no mercado, a Nintendo consegue criar experiências mais ricas.
No meio de tudo o que se pode elogiar à marca, há algumas decisões que ficam aquém daquilo que se esperaria.
Extra demasiado cedo
Foi em julho que Donkey Kong Bananza chegou ao mercado e, passado pouco mais de um mês, temos o primeiro conteúdo adicional, vulgo DLC, que acrescenta mais alguns extras ao jogo. Para vos falar dele vou já passar ao Joel Henriques, que tem algumas palavras referentes ao mesmo. No entanto, acho importante referir que a Nintendo apresenta estes conteúdos demasiado cedo após o lançamento. Não que seja a primeira a fazê-lo, aliás, longe disso. Mas com tão pouco tempo após a chegada ao mercado, parece claro que este extra pode ter sido cortado do jogo base. Uma prática muito comum em várias empresas, que me faz desprezar estes conteúdos em diversas formas. Até hoje, foi rara a vez que adquiri um destes pacotes, mas quando o fiz foi porque realmente havia conteúdo extra interessante e capaz de me proporcionar mais horas daquele jogo.
Não me vou alongar nesta questão e vou passar a palavra ao Joel, que nos traz mais informações sobre o DLC: Donkey Kong Bananza: DK Island & Emerald Rush.

DK Island
Sobre o conteúdo que foi adicionado mais recentemente, temos as nossas reservas. Estamos a falar da DK Island + Emerald Rush.
No meu entender, este conteúdo adicional deverá ser avaliado em dois momentos distintos, tal como o próprio nome indica. Primeiramente, sobre o novo mundo para explorar, fiquei legitimamente curioso, não apenas porque todos os outros mundos criados para o Bananza foram muito bem executados e criativos, não apenas na colocação das bananas, mas também porque cada um demonstra uma atmosfera completamente distinta entre elas. Com este novo mundo, os criadores do jogo poderiam dar aos seus jogadores e fãs um ainda maior motivo para explorar o jogo, mesmo depois dos créditos finais.
Pois bem, neste critério, não foram muito bem-sucedidos. Muito embora a ilha seja uma contínua referência aos jogos anteriores onde Donkey Kong era a estrela, não há nada mais do que isso. A ilha não tem quaisquer colecionáveis. Não há bananas para encontrar, não há fósseis, desafios, nada. A única coisa que existe são desafios para ganhar ouro. Nada mais foi adicionado, o que, na minha opinião, foi uma oportunidade perdida.
Emerald Rush
Já quanto ao Emerald Rush, também não deixou a melhor impressão.
Este novo modo de jogo, descrito como sendo um roguelike, coloca o jogador em missões em que terá de reunir um determinado número de esmeraldas para cumprir as quotas solicitadas pelo Void (um dos inimigos da história principal). A parte interessante é que este modo corre, não apenas na ilha do Donkey Kong, mas também em outras descobertas ao longo da história. Mas, mais uma vez e sob pena de me repetir, é isto: encontrar esmeraldas para cumprir as quotas e (re)adquirir alguns poderes ao longo do desafio, pois aquando da entrada em cada um, vamos completamente formatados.
Em suma, comparado ao jogo base, esta expansão, que poderia acrescer a um jogo já por si muito bom, vem manchar o resultado final, não apenas porque a expansão não traz quase nenhum conteúdo novo e, para o que traz, é cara.

Tendo o jogo em questão as mesmas mentes que nos trouxeram o Super Mario Odyssey, onde também foi criado um Mushroom Kingdom com imensas referências nostálgicas (tendo esse, porém, conteúdo concreto semelhante ao da história), não se entende o fundamento que justifique cobrar vinte euros aos fãs de Donkey Kong para ter acesso a conteúdo relativamente semelhante (ou, até diria, de pior qualidade), quando não o fizeram da primeira vez, ficando assim muito aquém das expectativas.
Um Desastre Viciante
Donkey Kong Bananza é um divertido jogo que nos pode roubar horas de vida a tentar colecionar tudo o que encontramos pelos cenários disponíveis. Não se esmera em ser um jogo Donkey Kong perfeito e julgo que está longe daquilo que a Retro Studios fez com os jogos Country, mas é um título que retorna ao 3D, após o lançamento de Donkey Kong 64 nos anos 90. Tem o seu mérito em oferecer mecânicas interessantes e adequadas à experiência deste título. É um jogo que se pode rapidamente tornar viciante e até frustrante, com a dimensão que se pode revelar, à primeira vista, exagerada.
Mesmo com os seus problemas, consegue equilibrar-se como uma experiência para todos e onde me conseguiu entreter em todos os momentos. É perfeito para passar um bocado e desligar, perfeito para uma portátil. É também um título com visuais interessantes e com muito para mostrar. Os cenários não são gigantes, mas grandes o suficiente para nos agarrar durante algum tempo, principalmente se decidirem começar a destruir tudo o que vos aparece à frente. Começar a furar uma montanha e de repente estar do outro lado do mapa é simplesmente gratificante. Se pelo caminho consegui alguns extras para a minha aventura, então ainda melhor.
Bananza não é perfeito, mas cumpre um papel muito mais importante. Capaz de nos sentar e experienciar cada ponto do cenário com momentos cómicos, também característicos da franquia, momentos emocionantes e personagens caracterizadas de forma muito sua. Gostei da experiência e é um jogo para revisitar, sem qualquer tipo de dúvida. Donkey Kong Bananza é o segundo título da Nintendo a chegar em exclusivo à Nintendo Switch 2 e, tal como Mario Kart World, consegue ser aqui também um jogo que não cumpre todo o potencial que poderia ser esperado, mas… meus amigos, amigas e outros, é um título que me fez agarrar à Switch 2 e isso… isso vale mais que qualquer nota máxima.