A televisão moderna está repleta de conteúdos efémeros, obras que consumimos de forma voraz e esquecemos com a mesma rapidez. Contudo, de vez em quando, surge um autor com uma assinatura tão forte que nos agarra de forma irremediável. Foi exatamente isso que aconteceu quando descobri Yellowstone. Fiquei rapidamente fã dos trabalhos do seu criador, Taylor Sheridan, e de toda a brutalidade poética que ele transporta para o ecrã. Aliás, já tive a oportunidade de explorar este fascínio noutros artigos, como foi o caso da análise a The Madison. Neste momento, atingimos um ponto em que qualquer série que traga o nome de Sheridan nos créditos desperta, de forma automática e instintiva, a minha curiosidade. Tornou-se um selo de garantia incontornável.

Mas a verdade é que, enquanto ia descobrindo e desbravando outros dos seus projetos paralelos, havia um sentimento persistente de que ficava sempre a faltar qualquer coisa. Faltava aquele impacto inicial, aquela sensação crua e avassaladora que a narrativa principal de Yellowstone teve em mim. Nem sei bem explicar ao certo o porquê, mas aquele ambiente tão específico do neo-western, com as suas paisagens vastas, a moralidade cinzenta, a lealdade levada ao extremo e a constante luta pela sobrevivência, fez-me ficar absolutamente sedento por mais episódios. E mesmo com os vários spinoffs a fazerem um trabalho admirável na expansão geográfica e temporal deste universo, o vazio continuava lá. Continuava sempre a faltar a âncora do presente.
A Sequela Que Faltava: O Reinado de Beth e Rip
É perante esta sede de regressar às origens que surge Dutton Ranch. A série apresenta-se, sem rodeios, como a verdadeira sequela de Yellowstone, e é exatamente isso que nos entrega: uma continuação direta e impiedosa dos acontecimentos que nos prenderam durante anos. Desta vez, a lente foca-se totalmente na vida de Beth e Rip. Dar o protagonismo a este casal improvável, ou talvez, olhando bem para a sua essência caótica, o mais provável de todos, é uma jogada de mestre que capitaliza sobre os dois pilares mais magnéticos das temporadas originais.
Como seria de esperar nas mãos de Sheridan, há muitos acontecimentos intensos pelo caminho. A série faz questão de tomar o seu próprio rumo, estabelecendo a sua própria identidade, mas a magia acontece no momento em que carregamos no play: rapidamente me senti em casa. Sim, esta série é, ao milímetro, exatamente aquilo que eu esperava e exigia de uma sequela. O ambiente árido, a vibe implacável onde o perigo espreita a cada canto, as ideias centrais sobre legado e a própria forma frontal e crua de estar dos personagens estão todas lá, intactas. Tudo funciona exatamente como deveria, dando a sensação reconfortante de que voltámos a ter um arranque de luxo para uma narrativa que, verdade seja dita, já se começava a sentir algo perdida no seu próprio sucesso.

A Lucidez de Encerrar um Ciclo no Momento Certo
É inegável que Yellowstone é uma obra de qualidade elevadíssima dentro do estilo que introduziu, ou melhor, que ressuscitou e adaptou para os tempos modernos. Fê-lo de tal maneira que conseguiu estabelecer uma nova fórmula de construção de histórias, criando uma teia de narrativas que Sheridan tem vindo a explorar exaustivamente em cada recanto possível da ficção. Pode não ser um conceito totalmente inédito na sua base, mas o criador deu um toque muito único, visceral e pessoal às mensagens que quer transmitir, redefinindo o que significa fazer um drama familiar e territorial hoje em dia.
No entanto, há que ter a honestidade de admitir que, mesmo com esta qualidade inerente a cada temporada, os últimos tempos da série principal já se arrastavam, vítimas do seu próprio peso e complexidade. O que é incrivelmente notável, e raro na indústria televisiva, é que foi o próprio Sheridan quem percebeu a tempo que era o momento certo para encerrar aquela jornada. Teve a lucidez de não deixar a sua obra-prima definhar, optando por fechá-la e avançar de forma inteligente para uma nova fase.

O Horizonte Risonho do Universo Sheridan
Dutton Ranch acaba, assim, por ser uma aposta fortíssima na continuidade próspera dessas mesmas ideias. Se os vários spinoffs têm o mérito gigantesco de conseguir oferecer diferentes perspetivas, linhagens e recuos temporais a este universo denso, então esta nova série é apenas, e sublinho que o “apenas” aqui é usado de forma muito leve, dada a sua importância, um reforço de peso na continuidade da narrativa contemporânea, que foi, afinal de contas, a principal catalisadora de todo este fenómeno.
O futuro adivinha-se, por isso, bastante risonho. Não só para o legado de Yellowstone, mas para tudo o que Taylor Sheridan decida levar até ao ecrã mais pequeno. Quando a poeira assenta no rancho, a certeza que fica é a de que estamos perante um contador de histórias singular. Fico muito curioso pelos próximos passos e, principalmente, em pulgas para perceber qual será o caminho a desbravar neste universo que, para gáudio de quem o acompanha, parece estar muito longe de dizer a sua última palavra.