A exigência não é muita, por norma até sou bem fácil de agradar, mas quando estou a presenciar algo e está constantemente a saltar-me à memória inúmeros exemplos de coisas idênticas que são consideravelmente melhores, algo parece não estar a encaixar comigo.
Em defesa deste Earth Must Die, uma aventura gráfica que nos coloca no papel de um vilão que, após a morte (in)desejada do seu pai tirano, se vê envolto numa guerra fria contra a Terra, não é que tenham a vida facilitada do meu lado, pois eu acredito ter vivido durante os anos de ouro das aventuras gráficas.
Enquanto jogava só me lembrava de outros grandes nomes como Day of the Tentacle, Gabriel Knight, Escape from Monkey Island, Beneath a Steel Sky, Broken Sword, Grim Fandango ou Myst. Podia ainda enumerar mais, mas acho suficiente para conseguir que vocês entendam onde eu vou querer chegar nos próximos parágrafos.
A última coisa que quero é que me entendam mal, ou passar a imagem errada daquilo que vão aqui encontrar, pois acho que estamos a entrar numa nova fase de aventuras gráficas e talvez seja preciso encontrar uma definição mais apropriada para aquilo que aqui temos.

É que quando penso neste tipo de videojogos, penso em coisas que vivem bastante da lógica e dedução, em que temos de investigar e ler e eventualmente as coisas fazem um mínimo de sentido para continuar a progressão. Normalmente dar “brute force” (o acto de tentar todas as hipóteses e mais algumas até funcionar) nunca, ou raramente, leva ao sucesso. Principalmente porque mais à frente vamos precisar compreender algo que já foi feito no passado e não entendendo a lógica, ficamos ainda mais presos do que já estávamos antes.
Acho que é isto que falta a Earth Must Die, uma sequência lógica que vá desbloqueando o progresso, e não decisões arbitrárias. Várias vezes dei por mim a seguir uma sequência lógica, que fazia sentido para levar a cabo o meu objetivo, mas aquilo que o jogo queria era algo apenas aleatório. Eu vi-me forçado a ir pelo caminho do “brute force” só para perceber o que estava realmente a ter impacto no jogo ou o que não fazia aquilo que era preciso.
O que também afasta este título daquilo que considero uma verdadeira aventura gráfica é a forma como apresentam ao jogador os elementos interativos, que neste caso existe um ícone a identificar esses mesmos elementos. É que a parte de investigar vai por água abaixo, basta rapidamente varrermos o ecrã com o rato e fica resolvido, sabemos com que elementos temos de interagir.
Claro que isto é mais um “adicionar” ao problema do que um problema real, pois imagino a tortura que seria ter de clicar em tudo o que existe no ecrã só para perceber o que tinha ou não interações.
Isto aliado ao facto de não haver nada que transite entre cenários, não existindo um inventário ou qualquer investimento mais intenso num desafio ou puzzle, reduz muito a experiência. Além disso, temos um género de enciclopédia que por vezes temos de perder imenso tempo à procura dos novos elementos adicionados que estão escondidos num recanto qualquer e que só depois do nosso personagem passar os olhos pelo texto é que desbloqueia um novo elemento ou diálogo.

Portanto, o grande desafio que existe é perceber que sequência de diálogos e opções devemos clicar, até que finalmente tenhamos o resultado que esperamos, ou que o jogo espera. É que nem podemos falhar e continuar a progredir, é algo linear e temos apenas de descobrir o caminho, como se estivéssemos apenas a atravessar um labirinto.
É pena que a componente jogo propriamente dita seja tão limitada, havendo uma questão que fica no ar sobre o porquê de terem optado por este medium e não por outro como uma série animada ou até um filme. O talento está lá!
Para quem cresceu com o Cartoon Network e derivados, vai facilmente olhar para Earth Must Die e pensar que se tivessem visto isto no canal, nem sequer iam duvidar que era lá que pertencia. Pelo meio de coisas como The Powerpuff Girls, Dexter’s Laboratory ou 2 Stupid Dogs, este seria mais uma das ofertas peculiares do canal e que só ia chamar a atenção pelo teor sexual que certas sequências têm.
Ou talvez fosse chamar a atenção pelo tipo de comentário mais ácido a questões políticas e sociais dos dias de hoje, que por vezes pareciam algo metidas a ferros só para passarem a mensagem que queriam ao público. E está tudo certo, porque é para isso que estas criações também existem e devem continuar a existir. Talvez devam fazer a coisa mais integrada dentro da história e não como uma breve linha de texto ou diálogo que salta logo à atenção por ser demasiado óbvio, mas ainda assim, totalmente válido.
O tipo de humor também não será para todos, havendo mesmo momentos que me perguntei se era aquele o caminho que estavam a tentar ir ou se apenas a entrega da piada não foi a melhor.
Mas isto é tão subjetivo que não consigo dizer com certeza alguma se foi ou não bem conseguido. Fala-se muito no tipo de humor britânico que é bem particular, e consoante a forma como é feito vai resultar para uns e não para outros, mas tirando o ocasional expelir de ar quando alguma outra reação ou situação surgiam inesperadamente, achei que no geral foi algo desinspirado e que até não aproveitaram nada bem o elenco de atores que tinham em mãos. Ainda assim, nesse aspeto todos fizeram um bom trabalho, só não tinham muito em que pegar.

A única coisa que queria é que houvesse mais jogo no meu jogo. Tudo mais interligado, ao longo da aventura inteira, algo que nos obrigasse a parar para pensar e o progresso fosse feito com um verdadeiro sentimento de conquista, não de aleatoriedade que após 27 tentativas num diálogo lá descobri a sequência que eles queriam que eu fizesse, não a sequência que podia ter sido descoberta tendo em conta o objetivo final.
Se alguém depositava esperanças neste título como sendo algo que vinha saciar aquela vontade de uma aventura gráfica clássica, em termos de jogo propriamente dito, não acho que seja aqui que vá encontrar isso. Mas se o tipo de humor for do vosso agrado e a simplicidade da jogabilidade não vos aborrecer, acredito que vão ter aqui uma experiência que vos vai entreter. Caso queiram algo mais, talvez seja melhor procurar noutro sítio.