Eriksholm: The Stolen Dream é o primeiro lançamento do estúdio River End Games, composto por vários talentos veteranos da indústria dos videojogos. Com uma forte promessa de aposta numa história cinemática e jogabilidade assente em mecânicas stealth, será que conseguiu cumprir?

Puro stealth
Este é um jogo isométrico e de furtividade pura. Corpos inimigos não podem ser descobertos e os nossos personagens nunca podem ser vistos, pois isso equivale logo a um reiniciar do checkpoint. Quem procura algo mais virado para a ação, é melhor procurar noutro lado.
Eriksholm: The Stolen Dream aposta sem medos numa jogabilidade baseada em esquivar-se, esconder-se e atacar de surpresa e nas sombras. Os níveis iniciais são mais simples,, quando ainda só jogamos com a personagem Hanna, mas logo vamos ganhando mais técnicas furtivas conforme outros personagens vão aparecendo e juntando-se à nossa equipa. Esta nunca passa dos 3 personagens controláveis ao mesmo tempo, mas adquire uma dinâmica muito interessante.
E há algo curioso na forma como o stealth nos é oferecido aqui. Não há quase liberdade nenhuma na forma como podemos passar por ou derrotar certos inimigos. Embora sempre assente nessa premissa de jamais sermos vistos, a jogabilidade desenvolve-se mais como um puzzle em que temos de perceber o que fazer primeiro e como encaixar certos personagens. Isso implica coordenar muitos dos ataques, explorando as capacidades de cada um. Há uma personagem que consegue apagar luzes com pedras, outro consegue estrangular os inimigos e nadar, outra consegue adormecê-los com dardos. Gostaria de ter tido mais alguma variedade nestas opções, mas até gostei desta vertente mais puzzle da forma de jogar. Claro que, para quem procura liberdade na forma de abordar cada cenário, isto poderá ser um pouco frustrante.

Cinematográfico… mas pouco
Este jogo sempre foi apresentado como tendo um foco grande na narrativa, mas esta é das partes que deixa mais a desejar. A história segue a aventura de Hanna na cidade de Eriksholm. Com o misterioso desaparecimento do seu irmão, Herman, desencadeia-se uma série de eventos catastróficos que mudarão para sempre as suas vidas e o destino de toda a cidade. O problema é que Eriksholm: The Stolen Dream cai em clichés do género (jogos com irmãos poderá ser considerado um género?). Há momentos emocionantes, mas que não chegam com carga suficiente e é fácil perceber porquê.
As cinemáticas são de facto muito bonitas e ao nível de muitas produções AAA, mas não são muitas e isso acaba por fazer com que não se passe o tempo necessário com estes personagens, para além dos momentos da jogabilidade, onde não há espaço para desenvolver emocionalmente a ligação entre eles. Juntando a isso, depois do suposto momento devastador, a história do jogo parece cair no nada. As motivações dos personagens e alguns acontecimentos parecem ter pouca importância ou sentido e há coisas que simplesmente não são claras (um vilão sem grande interesse não ajuda nada à festa). Gostei de Hanna, Alva e Herman, mas precisava de mais tempo para os conhecer a fundo.

Mundo vivo
Para mim o maior destaque de Eriksholm: The Stolen Dream é o seu mundo vibrante. Apresentando-nos Eriksholm, um lugar fortemente inspirado nas cidades nórdicas do século XX, é aqui que se vê claramente a capacidade da equipa experiente por detrás deste jogo. Os cenários são vivos, com água que corre, bandeiras e toldos que se mexem com o vento, luzes vivas e reflexos, personagens que compõem o pano de fundo e dão vida à cidade, e muitos outros detalhes que só acrescentam ao realismo dos vários cenários que vamos percorrendo. Estes são ainda muito variados, não se limitando à cidade em si, mas levando-nos por grutas, jardins palacianos e zonas industriais.
Espalhados pelos cenários, para os que gostam de explorar, há ainda vários colecionáveis escondidos como cartazes e cartas dos locais que dão gosto de apanhar, pois acrescentam profundidade à história do lugar.
O design dos níveis também é muito interessante, dando um toque especial à jogabilidade stealth/puzzle e estratégica. Há momentos em que temos de levar um personagem pelos telhados, outro a rastejar para dentro do mesmo edifício, enquanto outro nada à volta, procurando outra entrada. Tudo isto é feito quase em simultâneo e os controlos são muito intuitivos e rápidos, criando momentos de tensão muito satisfatórios.

Quero mais!
O River End Games é uma novo estúdios de desenvolvimento de videojogos sediado em Gotemburgo, na Suécia. Fundada por um grupo de veteranos da indústria cujos créditos incluem Little Nightmares, Mirror’s Edge e Unravel, a sua experiência está mais do que provada neste primeiro jogo feito em conjunto por estes talentos tão diversos. Espero que o estúdio continue a apostar no género, não se desviando das mecânicas furtivas, mas as histórias precisam de uma escrita mais aprofundada e maior desenvolvimento. E digo isto porque um dos objetivos do River End Games é mesmo “criar narrativas profundas em mundos visualmente cativantes” (tal como descrito no seu site). O mundo visualmente cativante já o tivemos aqui, sem dúvida o ponto alto de Eriksholm: The Stolen Dream, e agora só falta mesmo uma aposta maior na narrativa.
No seu todo, Eriksholm: The Stolen Dream é um dos meus jogos favoritos deste ano, muito pela sua jogabilidade e construção de níveis. Fãs de jogos isométricos e stealth, não deixem este passar.
Este análise foi possível com o apoio do Nordcurrent Labs/River End Games.