Escola de Sobrevivência: Um Safari Interativo
Publicado a 09 Mar, 2021

Por todas as coisas trágicas que trouxe consigo, a pandemia trouxe também uma coisa boa: uma desculpa universal para tudo o que está errado, não corre bem ou pode dar para o torto.

Não podes ir aquele compromisso chato (no Zoom)? A culpa é da pandemia. Arruinaste a mobília de casa por tentares fazer parkour inhouse? Que bandido é este COVID! Traíste a tua esposa com duas suecas de voluptuosos seios? Ah malfadada pandemia!

No que às desculpas diz respeito, o surto de Covid-19 é uma espécie de calças de fato de treino fatelas que ninguém quer usar, mas que ainda assim dão jeito porque têm aquele elástico amigo que fecha o olho às novas e supérfluas camadas de adiposidade abdominal que ganhaste. Ora, recorrendo a este confortável trapo (com um símbolo de visto ao contrário a sombrear a imortal marca “Mike”), quero aqui dizer que, por causa da pandemia e dos seus efeitos nefastos na minha saúde mental, dei por mim a observar o programa de um conhecido manuseador de fezes profissional. Para os mais distraídos: Estou obviamente a referir-me ao programa interativo de Bear Grills, na Netflix, e não a reruns dos comentários futebolísticos com André Ventura.

A série chama-se “Escola de Sobrevivência” tendo o episódio que observei (felizmente só há dois) o subtítulo de  “Um Safari Interativo”. O nome é logo um sinal que algum talentoso marketeer esteve envolvido nisto. Se o título correspondesse à verdade, a série chamar-se-ia “Papando Porcaria Viscosa e Mexendo em Excrementos de Elefante Sem Razão Aparente por Bear Grills”.

Antes de abordarmos o manuseamento do produto interno bruto do intestino de um elefante Sul Africano, convém talvez dar-vos uma pequena explicação sobre o conceito deste programa. Numa reserva animal, alguém cortou a eletricidade da cerca que rodeia o parque, fazendo assim com que um babuíno chamado Thimba e um leão (sem nome, porque nisto dos animais foragidos pelos vistos há filhos e enteados) escapassem. Pior! Há pessoas em perigo perto da zona onde o leão foi visto pela última vez, o babuíno anda à beirinha do Cabo da Roca lá do sítio e vem uma tempestade a caminho (mas só da zona onde podemos resolver a questão da eletricidade, que isto as tempestades são como os Pokémons elétricos no Pokémon Azul. Só estão onde já há faísca).

Como por sorte Bear Grills estava no local com uma equipa de produção, preparada para filmar múltiplos desfechos para cada rumo narrativo, é incumbido (e nós com ele) de resolver toda a situação. Talvez motivado pela música estupidamente dramática que acompanha cada gesto que faz, Bear decide por mãos à obra e aplicar os seus conhecimentos de sobrevivência na resolução da situação. É aí que começam os problemas.

Quando se fere com um afiado e super-realista kit de maquilhagem de Halloween, naquilo que é um incidente que pode levar a que “a ferida” infete, Grills espera até encontrar- dois problemas resolvidos depois – uma planta com efeito anestésico que lhe tira a dor. É muito bem jogado. Eu, que sou um tipo que não durava um dia no meio do mato, teria tratado da ferida numa das duas viagens de helicóptero que fiz até encontrar a planta. Mas essa é a diferença entre um mestre da sobrevivência e um menino da cidade como eu. Grills sabe que não pode confiar em ninguém, além de si próprio. É talvez por isso que se dá ao trabalho de resolver tudo e só depois chama a ajuda dos rangers do parque (que nesta representação parecem tão ativos e vivaços como as companheiras de cama de Ted Bundy).

Mas voltemos ao fator que, de facto, criou a carreira de Bear Grills: ingestão de coisas viscosas e degustação de diversos fluídos animais. Durante esta aventura (dependendo das vossas escolhas), Grills papa coisas nojentas. Mais do que expectável, isto seria até ok se, e sublinho, SE ao menos tivesse a honestidade de dizer assim “vou papar esta lagarta porque é o que vocês esperam que eu faça”. Em vez disso, o papar de larvas africanas é nos explicado assim: “eh pá, tem de ser que isto tem muitos nutrientes, e eu aqui, sozinho, e sem contacto humano desde que sai de um helicóptero há 2 minutos, não posso ser esquisito. Afinal de contas, ando desde manhã nesta correria para salvar os animais e sempre sem comer. Ainda é capaz de me dar uma quebra de tensão ou assim!”. Estou a parafrasear, mas vocês percebem a ideia.

Como se isto não bastasse, num programa interativo, onde as nossas escolhas influenciam a “história”, é incompreensível porque é que não temos a opção de não ver Grills a manusear bolas de matéria fecal do tamanho da cabeça de um garoto de 10 anos. Bear pega casualmente em cocó, não por sobrevivência, não porque alguém o tenha desafiado e nem sequer para descobrir a direção dos referidos elefantes. Pega em cocó só para dizer assim “Reparem! Cagalhão de elefante! Agora sei que passaram por aqui e estou no caminho certo!”, conclusão a que– e posso estar enganado – eu também chegaria, mas sem manusear as referidas fezes.

Posto isto, termino com uma palavra de esperança.
Se algum dia sentirem que não são bons o suficiente, lembrem-se sempre, vocês conseguiriam perceber para onde os elefantes foram sem pegar em cocó e o “guru” televisivo da sobrevivência não.

Escola de Sobrevivência: Um Safari Interativo
Escola de Sobrevivência, Um Safari Interativo
 
Uma Fraude
Criador:
Realizador:
Elenco:
Premiere: 16 de fevereiro de 2021
Episódio: 2
Duração: 00H54M (54 min)
Distribuição: ,
Lançamento: 16 de Fevereiro de 2021
0.5
  • Positivo
  • Se aprecias malabarismos de fezes este programa é para ti.
  • Um programa inspirador para quem quer entrar no mundo da maquilhagem de atores, de forma profissional, e acha que meio batom gasto não chega.
  • Os amantes de sushi tem aqui a oportunidade de ver que nem tudo o que é cru e exótico é espetacular.
  • Negativo
  • Se fores daqueles esquisitos que não apreciam mexer em fezes só porque sim, cautela.
  • Péssimo para a imagem dos Rangers de todo o mundo. Primeiro adolescentes que fazem explodir a erva ao vestirem licra e agora isto.
  • Demasiadas opções. Grills pode consumir tanta coisa nojenta, de tantas maneiras diferentes, que fica difícil escolher.
Escrito por:
Tiago Lacerda
O Tiago é um budista reformado que neste momento vive em Portugal, mas que já residiu no estrangeiro. Nomeadamente, no Algarve. Fala para cima de 110 línguas diferentes. Infelizmente, 108 desses idiomas só ele os entende. Tem o hábito de inventar descrições sobre si próprio e ainda bem pois é um individuo que não convém conhecer.