A fórmula Marvel já dura mais de uma década e continua a resultar tão bem como no início. Depois do lançamento de Homem de Ferro e da recetividade da cena pós créditos, muito se falou do futuro dos filmes Marvel e muito estava por acontecer. Rapidamente, a Marvel Studios, mais tarde juntamente com a Disney, alinharam as suas ideias e transformaram aquilo que antes eram apenas filmes dispersos em algo muito maior que qualquer outra coisa no cinema. Finalmente, conseguiu-se transformar o formato comic para o mundo cinematográfico. Essa fórmula sempre funcionou, tal como funciona nas bandas desenhadas. Apesar da complexidade que pode ser dada a todo o universo, as histórias individuais tendem a ser algo simples e diretas, dentro da sua bolha e com o devido grau de interesse singular.

Essa magia sempre funcionou e continua a funcionar nos comics. Isto não significa que todas as histórias são incríveis e merecem ser lidas uma vez de vez em quando. Nos filmes acontece o mesmo. Nem todos são os melhores, mas são todos parte de um todo bem maior e interessante. Esse aspeto leva o público ao cinema até nos filmes que menos interesse tem. Vamos ser sinceros, quem é que realmente sabia quem eram os Eternos até serem apresentados aqui no mundo cinematográfico? O certo é que o interesse no todo é tão grande por parte do público que até os heróis mais desconhecidos tem agora uma grande hipótese de vingar. Eternals será mais uma prova disso, pois mesmo com as críticas menos boas já ultrapassou Black Widow e Shang-Chi no fim de semana de abertura.
As pessoas estão sedentas por mais e estão prontas para conhecer novos personagens, principalmente depois do sucesso que foram entradas como a de Guardians of the Galaxy. E como disse, nem todas as histórias individuais têm de ser as melhores. Lembrem-se de Ant-Man ou de Thor. Os filmes desses heróis, principalmente Thor, Thor Dark World e Ant-Man são dos menos interessantes da Marvel, mas foram um sucesso. Os seus personagens foram tão importantes no meio de todo o MCU que o público principal desses filmes nem se recorda desses momentos menos interessantes. Tudo isto apenas para dizer que as críticas de Eternals até ao momento não são qualquer razão para nos afastar do filme.
Muitos personagens para pouco tempo
Eternals não é um grupo fácil. Tal como Thor, tem uma certa ligação às mitologias criadas por nós. Isso não é escondido, mas oferece um desafio extra porque é necessário convencer o espectador que aquele ser mitológico que conhecemos tão bem dos livros de história é na verdade aquele personagem da banda desenhada. Além disso, são muitos personagens. A verdade é essa. Os Eternals são doze e todos eles têm igual importância. Rapidamente podemos ver que não é totalmente assim, havendo algumas personagens que de alguma forma se destacam. De qualquer forma, é preciso relacionar cada uma delas com o espectador da forma mais correta, criando laços para o futuro. Isso é consigo, pelo menos em parte. A verdade é que não senti isso com todos os personagens do grupo.
A realizadora tentou oferecer uma visão e relação entre todos os personagens, mas nem todos resultaram da forma mais perfeita. Alguns acabam por ficar à sombra de outros e infelizmente é difícil criar empatia por todos eles. Posso mesmo dizer que gostaria de ter visto mais destaque em algumas ligações que acabam por ter pouco tempo de antena. Chloé Zhao dá uma gentileza enorme no desenrolar das cenas e mesmo com um ritmo relativamente mais lento, parece que nada tem tempo para realmente se desenvolver. Como disse antes, isto não é regra para todos. É interessante olhar para este paradigma e tentar perceber de que forma é que tudo isto podia ser explorado, mas julgo que estes heróis tinham poucas alternativas a não ser que surgissem a partir de uma série, tal como alguns vão ser apresentados em breve.
Heróis importantes, vilão ainda mais
Mais do que apresentar estes heróis, a realizadora tinha a tarefa de nos dar um deslumbre para mais um dos grandes vilões do universo da Marvel. Os Celestials já tinham sido apresentados antes em Guardians of the Galaxy e Guardians of the Galaxy Vol.2. Em ambos os casos, percebemos que estes seres não são de ideias muito heróicas. De certa forma, rapidamente compreendemos que algo de muito estranho se está a passar no arranque deste Eternals, mesmo não conhecendo minimamente o lore onde se assenta.

A teia da MCU
Se Thanos surge como o misterioso vilão de toda a primeira grande saga da Marvel, então é muito possível que os Celestials venham a ser igualmente muito importantes para o futuro da MCU. Lembro que durante este filme ficamos a perceber que estes seres são mais antigos que as próprias pedras do infinito, estas que estão desde o início de tudo. Se assim é, estamos perante os mais antigos seres de toda a MCU. Ou será que não? A apresentação do Watcher em What If…?!, ou a introdução de Kang em Loki torna esta nova fase da MCU ainda mais complexa e carregada de ramificações. Isto ainda sem termos todo o multiverso numa brilhante confusão.
Como já referi anteriormente, a MCU sempre teve um belo grau de complexidade entre todos os filmes que já foram lançados. Tal como nos comics, a continuidade das histórias vai sempre depender de novos personagens, correndo o risco de tornar todo a MCU numa tremenda confusão. Podemos mesmo estar a caminhar para que daqui por 10 anos, seja tão difícil embrenhar novos espectadores na MCU, como é introduzir um leitor atualmente a todo o universo dos comics. Eternals é apenas mais um fio no meio desta teia.
Podem estar a perguntar porque estou a falar destas questões num artigo que deveria ser focado neste único filme, mas a verdade é que Eternals pode estar aqui a oferecer uma visão muito concreta sobre o futuro. Este é, sem dúvida, um dos filmes mais únicos de toda a MCU. Especialmente pela sua forma de construir e apresentar os personagens, mas principalmente pelas possíveis repercussões que podemos ter daqui para a frente. Enquanto todos se preocupam com a ideia de multiverso, que também terá muita força nesta fase, são alguns destes personagens que surgem em Eternals que podem vir a ter grande destaque.
A técnica e a qualidade não é tudo
Várias vezes, antes de me sentar na sala de cinema para assistir Eternals, que referi que Chloé Zhao podia não ser a realizadora mais indicada para a Marvel. Temos de perceber que há vários tipos de público e o estilo habitual da realizadora não é feito para as massas. Já me referi à forma como a realizadora tentou destacar os personagens de uma maneira muito diferente do que temos visto até hoje, mas no que toca à técnica e ao valor de produção?
Primeiro, deixem-me referir que este filme apresenta um dos melhores efeitos visuais da MCU nos últimos anos. Este tem sido um campo muitas vezes menosprezado pela Disney/Marvel, mas aqui julgo que estiveram muito bem. A qualidade dos efeitos e a forma como os encaixam em todos os momentos estão no ponto. Nada a apontar.
A realização de Chloé Zhao é interessante e dá um aspecto visual ao filme muito único. Senti que todas as cenas aconteciam com uma serenidade incrível, mesmo quando a ação era muita. É impressionante ver este contraste entre os lentos movimentos de câmara e o desenvolvimento da ação. Alguns dos ângulos e planos escolhidos pela realizadora oferecem um nível épico a algumas das cenas e isso é uma das melhores particularidades deste filme. Sem dúvida muito interessante.
Eternals é um bom filme?
Eternals não é um mau filme… Dito isto, posso referir que este não está perto dos piores filmes da MCU, mas também não está entre os melhores. Julgo que acerta em alguns aspetos, mas falha noutros. É um filme interessante, que oferece visões muito interessantes, principalmente e mais uma vez no que toca às cenas depois dos créditos. Deixa-me em pulgas para ver mais da MCU e só fico ainda mais ansioso por algumas das grandes séries e filmes que já estão programados.

Este filme fez o seu trabalho e deixou-me curioso. Talvez a realizadora não tenha conseguido entrar totalmente nas ideias do que muitos esperavam, mas oferece uma visão diferente e única no seio da MCU. Para mim, isso é positivo. Não faz do filme melhor, mas faz da sua relação com o universo algo que pode vir a ser mágico.
Dificilmente compreendo como é que este filme pode estar a ser cotado como pior que o Thor, Thor Dark World ou mesmo o primeiro Ant-Man. Não acho que seja um pior filme que esses e até consigo colocar à frente de filmes como Thor Ragnarok, mas por motivos completamente diferentes do que gostei nesse filme.
Relembrando o que referi no início, a fórmula Marvel está muito presente nos fãs e sempre que surge um filme que se atreve a desafiá-la é difícil entrar no imaginário das pessoas. Mas mais tarde passa a ser algo fantástico de saborear. Lembram-se como foi estranho ver WandaVision no início? Já dizia Pessoa. Primeiro estranha-se, depois entranha-se…