Confesso que demorei bastante a digerir aquilo que esta Fighting Force Collection trouxe de volta para os ecrãs dos jogadores quase 30 anos depois do lançamento do jogo original. Só mesmo depois de tomar Kompensan, Gaviscon e Rennie é que me consegui recompor e olhar para isto com novos olhos.
E preferia não o ter feito!
Não há segundo olhar, nem terceiro nem qualquer olhar posterior para lá do primeiro, que consiga resolver o tratamento medonho e completamente desrespeitoso, para o jogo e para os jogadores, que a saga Fighting Force teve direito.
Eu não estava, nem estou, iludido relativamente ao que esperava receber com esta coleção. Obviamente que estamos a falar de um jogo com 30 anos em cima (um pouco menos para o segundo título), que na altura prometia ser o sucessor espiritual de Streets of Rage, e sendo esta apenas uma coleção dos dois elementos que compõem esta saga, nunca havendo menção alguma a remake ou remaster ou qualquer outra palavra da moda para tirar alguns trocos dos bolsos do consumidor, não estava à espera que a mesma fosse ter um visual digno dos dias que correm. O mesmo posso dizer da jogabilidade, que continua tal e qual me lembro dela, ainda assim dá para jogar perfeitamente e já sabíamos com o que contar, e banda sonora e tudo o resto, está tal e qual.

Então qual o grande problema? Se eu já contava com isto e se esta coleção deu aos jogadores isso mesmo é, no máximo, o chamado “é o que é”, certo?
Errado!
Ao contrário dos dias de hoje em que, melhor ou pior, as experiências que temos de plataforma em plataforma são praticamente iguais, nos anos 90 as coisas não eram bem assim. Uma consola era lançada e não vinha mais uma ou duas lançadas com um par de meses de diferença para competirem entre elas. Uma consola surgia no mercado e apenas um ou dois anos depois é que poderia surgir outra.
Só com a sétima geração, com nomes como a PlayStation 3, Xbox 360 ou Nintendo Wii, é que se passou a assistir a um lançamento mais próximo entre as três grandes e dali para a frente apenas encurtou. Tanto que atualmente as gerações são consideravelmente mais curtas, o que também tem muito a ver com os saltos tecnológicos que vão surgindo. Uma conversa para outra altura…
Aquilo que é certo, é que Fighting Force foi lançado originalmente para a PlayStation e Windows, e eventualmente para a Nintendo 64 dois anos depois, o que coincidiu com o lançamento de Fighting Force 2, que por sua vez saiu apenas na PlayStation e Dreamcast.
Portanto, quando têm a hipótese de voltar a lançar estes títulos para o mercado, parece-me que a escolha mais sensata seria pegarem nas versões visualmente mais capazes, não mexerem em nada, tal como não mexeram, e deixar que os jogadores possam instalar e jogar sem qualquer problema no conforto de suas casas. Dinheiro fácil.
A parte do dinheiro fácil manteve-se, porque com zero custos por parte da produção, bastou pegar no Carbon Engine e lançar tudo como uma coleção. E quem me dera poder configurar as opções deste emulador porque iamos conseguir um resultado muito melhor. Ou se calhar nem essas opções tem.

Nada contra o uso de emuladores, desde que mantenham vivos os jogos de outros tempos, são mais do que bem vindos. E há títulos que vivem bastante bem nestes moldes. Mas ultrapassa-me, por completo, de todas as formas e feitios, o motivo pelo qual eles optaram por emular a versão da PlayStation. Ainda para mais quando existia pelo menos uma versão PC e, no segundo título, uma versão Dreamcast.
Quer dizer, ultrapassa-me por estar a ver isto pelos olhos do consumidor, porque se fosse eu o detentor dos direitos e quisesse lançar algo assim e não tivesse qualquer amor ou respeito pelo que estava nas minhas mãos, tinha feito exatamente da mesma forma. Pegava num emulador que o meu estúdio havia criado, o dito Carbon Engine e que lê única e exclusivamente jogos da PlayStation, e lançava tudo para o mercado. Eu até podia saber que existiam versões melhores, mas como não tenho uma plataforma que vá ler diretamente o jogo tal como ele já existe, não pego nessas versões.
Mas qual o problema de ser a versão PlayStation? Ora bem, esta consola, além de muito potente e competente para a altura em que saiu, tinha limitações e essas limitações acabavam por estar ligadas aos vértices e como as texturas eram implementadas e, no final, como tudo era apresentado ao jogador. De forma a garantir que tudo mantinha a forma esperada, existiam certos ajustes feitos no momento, pela consola, que acabavam por dar aquele ar meio gelatinoso aos jogos. Texturas podiam ser meio torcidas, volumes mudavam constantemente, certas coisas moviam-se e não era suposto estarem a mexer. Isto é mais complexo do que parece, e tem muito mais que se lhe diga, mas em traços gerais era isto.
Em consolas como a Nintendo 64 ou Dreamcast, e também no PC, isto não era um problema. Aliás, desde que existe emulação da PlayStation original, isto também deixou de ser um problema porque a parte técnica que causava este problema na consola, deixou de ser uma limitação técnica na emulação, daí que o efeito gelatina que víamos na consola, é raro ser visível em emuladores (a não ser que desliguemos essa opção).
Ora acho que já perceberam onde quero chegar com esta minha explicação e também já devem ter percebido a minha frustração ao abrir a Fighting Force Collection e ver tudo o que é objeto 3D no meu ecrã parecer que estava a tremer sem motivo aparente. Sim, é nostálgico, mas não é no sentido que estava à espera.

Não há, nem nunca houve, nem vai haver, motivo algum para que esta coleção tenha sido lançada no estado em que foi. Custa-me acreditar que o valor que eles vão receber desta coleção tenha justificado estas decisões. Nem os jogadores mereciam ter de regressar a esta saga dentro destes moldes, e que agora é certo ter ficado arrumada de vez. Digo que não vão receber muito porque duvido seriamente que alguém queira abrir a carteira e pagar cerca de 20 euros por isto.
Podem meter um filtro para simular um ecrã CRT, e também parecer que tudo está algo pixelizado, podem inventar o que quiserem, e lá isso inventaram, mas não é isto que vai salvar a nódoa que é esta coleção.
Tenho pena que tenha sido este o resultado. Se o dicionário tivesse imagens, ao lado da palavra desilusão ia estar de certeza uma imagem de Fighting Force Collection. Uma imagem toda deformada, mas ia estar lá.