Heartstopper – Indescritivelmente amoroso
Publicado a 26 Abr, 2022

Ou por outras palavras, tragam o desfibrilhador, o meu coração parou com tanta ternura…

Baseado nas encantadoras novelas gráficas de Alice Oseman, Heartstopper segue Charlie Spring, um rapaz de 14 anos, e a paixão que aos poucos vai surgindo pelo popular jogador de rugby e colega de secretária, Nick Nelson.

Tendo já sofrido bullying anteriormente pela sua sexualidade, Charlie é o único rapaz “fora do armário” no seu secundário, um ambiente conhecido pela sua hostilidade para com a diferença. Como resultado, a vida de Charlie não é a mais fácil, e embora não deseje nada mais do que poder ser adolescente da mesma forma que todos os outros podem ser, livremente, para si a normalidade é outra. É cheia de medos, angústias, e reticências… Porém quando a sua amizade com Nick começa a desenvolver outros contornos, uma réstia de esperança junta-se a todas as suas dúvidas. A maneira como a sua relação progride ao longo dos episódios é amorosa, conseguida principalmente por performances calorosas e doces dos protagonistas, mas também pela realização e pequenos detalhes cinematográficos e editoriais.

É impossível medir com precisão o quão importante esta série será, não apenas para os fãs dos livros, mas também para todos os outros que encontrarão o trabalho de Oseman aqui pela primeira vez. É verdade que os programas focados em pessoas LGBTQ+ não são tão raros – ou estereotipados – como já foram, mas não deixam de ser importantes por causa disto, especialmente quando retratam histórias que exploram as realidades da vida adolescente queer com coração e carinho.

A maneira doce e saudável como Nick e Charlie se encontram ocorre de forma orgânica e natural, como muitos jovens gostariam que lhes tivesse acontecido, vendo finalmente uma representação no ecrã de uma adolescência que lhes faltou, para os mais adultos, ou que ainda podem estar a tempo de sonhar, para os mais jovens. Heartstopper normaliza os sentimentos de possíveis espectadores que podem estar inseguros ou com medo de viver a sua verdade.

Enquanto pessoas heterossexuais muitas vezes olham para trás para os tempos de escola como um momento divertido e despreocupado das suas vidas relativamente ao amor jovem, muitos outros se identificaram com a mistura confusa de isolamento e momentos em que se desejava desesperadamente poder viver como qualquer um.

É estranho, de facto, como uma série sobre adolescentes a passarem pelas mesmas dúvidas e perguntas, mas que não deixam de serem eles mesmos, ainda pode afetar uma pessoa quase uma década depois dessa altura da sua vida.

A série não é, no entanto, só momentos cor-de-rosa, tal como o não é o secundário. Existem momentos tristes, e mesmo de bullying como seria impossível de ignorar, uma vez que mesmo com todo o progresso que já se fez, sempre haverá fanáticos que atacam qualquer coisa, ou qualquer pessoa, que percebam como diferentes.

Desta forma, nem tudo é fácil para Nick ou Charlie. Este mesmo faz alusão ao facto de como muitas vezes uma pessoa se acostuma com o mundo a odiar-nos simplesmente por sermos como somos e como muitas vezes se aceita essa dor constante e se começa a acreditar que pode ser mesmo algo que merecemos experienciar. Assim, Heartstopper não foge das complicações de estar na escola, de ser adolescente, mas através do seu romance central, traz uma esperança de amor e aceitação que é precisa nessa idade. A cena entre Nick e a mãe, interpretada pela maravilhosa Olivia Colman numa supressa deliciosa, deixa qualquer coração literalmente parado, e mostra, mais uma vez, a importância de séries como este, em mostrar que nem tudo tem de ser triste neste universo do desconhecido.

O conjunto de personagens secundárias diverso e real é outro fator a seu favor. A representação trans ou a própria assexualidade são abordadas de forma cuidada e pensada. Embora em segundo plano nesta primeira temporada, esperamos que, existindo uma segunda, se aprofundem ainda mais estas narrativas tão importantes e pouco exploradas no pequeno ecrã e que o continuem a fazer tão elegantemente.

Em resumo, Heartstopper é indescritivelmente amoroso, necessário, e saudável, e com um total de oito episódios é como um longo abraço que nem sabíamos que precisávamos até o receber.

Heartstopper
Muito Bom
Criador:
Premiere: 22 de abril de 2022
Temporada: 1
Distribuição:
8
  • Positivo
  • Representatividade
  • Performances dos atores
  • Banda Sonora
Escrito por:
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.