His Dark Materials – Uma trilogia fantástica que explora a religião, destino e liberdade
Publicado a 17 Jan, 2023

His Dark Materials (pt: Mundos Paralelos), a famosa trilogia de Philip Pullman, começou em 1995 com Northern Lights (pt: Reinos do Norte), seguida por The Subtle Knife (pt: A Torre dos Anjos) em 1997, e finalizada em 2000 com o lançamento de The Amber Spyglass (pt: O Telescópio de Âmbar). Em Portugal, os livros foram editados pela Editorial Presença.

Muitos deverão conhecer esta trilogia pela adaptação A Bússola Dourada que estreou nos cinemas em 2007, que apesar do elenco de excelência, foi mal recebida pela crítica. Mais recentemente, em parceria com a HBO, a BBC voltou a tentar adaptar a amada aventura de Lyra numa série, cuja última temporada terminou recentemente na HBOmax.

São raras as vezes em que pegamos num livro (supostamente) infantil, e somos surpreendidos com a complexidade dos temas abordados. Apesar dos ursos falantes e das bruxas colocarem estes livros na secção infanto-juvenil, tomei a liberdade de convencer (sem spoilers) também os mais crescidos a dar uma oportunidade a esta trilogia, porque, acreditem, vai ficar convosco semanas após terminarem o último capítulo.

Uma grande aventura com personagens inesquecíveis

Without stories, we wouldn’t be human beings at all

Being a practiced liar doesn’t mean you have a powerful imagination. Many good liars have no imagination at all

Mas afinal do que se trata His Dark Materials? Esta grande aventura segue Lyra, uma órfã tutelada pelos académicos de Oxford, num mundo diferente do nosso, em que a alma das pessoas se personifica em animais falantes, os daemons. Quando misteriosamente crianças começam a desaparecer, Lyra abandona os seus tutores para partir em busca do seu único amigo, Roger, que foi também raptado, com a companhia do seu daemon Pantalaimon e com a ajuda de um aletiómetro, um aparelho que diz a verdade, cobiçado por muitos que sabem da sua existência. Rapidamente, Lyra percebe que há algo mais por detrás do desaparecimento das crianças, e que a substância enigmática Pó (Dust) tem algo que ver com tudo isso. Lyra, uma protagonista rebelde e obstinada (mesmo por vezes irritante), vai encontrado aliados e fazendo amizades ao longo da sua grande aventura, que a fazem crescer e tornar numa heroína que não conseguimos deixar de torcer por.

Um dos maiores aliados que Lyra encontra durante a demanda é Will, que não posso deixar de dedicar algumas palavras, tendo sido a minha personagem favorita. Will é um rapaz que a infância atribulada, ao perder o pai e ter que lidar com os distúrbios psicológicos da mãe, moldou num rapaz desconfiado e que está mais confortável escondido, mesmo de si próprio, do que enfrentado os seus problemas. Will, desde que se cruza com Lyra, tem uma evolução incrível, e a sua relação com Lyra é um dos principais pontos fortes de toda a trilogia.

Para acompanhar os dois protagonistas, as personagens secundárias e figurantes são igualmente memoráveis e que enriquecem não só o mundo que Pullman criou, mas a própria narrativa, desde o urso Yorek Byrnisson, um dos primeiros e mais fiéis amigos da protagonista; Lee Scoresby, um aeronauta aventureiro que se vê sempre em mais sarilhos do que gostaria; e a bruxa Serafina Pekalla, sempre pronta a ajudar.

Exploração de temas complexos

To rebel was right and just, when you considered what the agents of the Authority did in His name

That is what the Church does, and every church is the same: control, destroy, obliterate every good feeling.

Também Lord Asriel e Srª Coulter são personagens que têm dimensões e uma complexidade que poucos livros infantis conseguem transmitir, e cujos arcos ao longo da trilogia bastariam para fazer de His Dark Materials algo de especial. É muitas vezes com estas personagens que Pullman é capaz de explorar os temas de religião, autoridade e livre-arbítrio, o significado da vida e crescer. His Dark Materials, mais do que uma aventura infantil, é uma crítica em que o autor expõe as suas visões relativamente à igreja organizada e aos seus membros.

Insisto em escrever o título da obra em inglês, porque His dark materials provém de uma passagem da obra épica de Milton, Paraíso Perdido, que descreve a epopeia de Eva e Adão. Pullman usa esta obra como base para os temas de His Dark Materials, mas ao invés de Milton que sugere que a verdadeira liberdade está em seguir os princípios cristãos, Pullman opõem-se a isto, descrevendo mesmo o seu Deus como tirânico e um inimigo à liberdade. São muitas as passagens que nos fazem pensar sobre a temática da religião organizada e Pullman não tem medo de ir longe na crítica, o que faz disto uma obra instigante independentemente das posições pessoais.

Escrita lindíssima, mas com demasiada exposição

We are all subject to the fates. But we must all act as if we are not, or die of despair.”

É muitas vezes nestas passagens que os pontos fracos de Pullman saltam à vista. As passagens que exploram estas temáticas com frequência, ao invés de transmitidas de forma subtil, são bombardeadas em parágrafos e parágrafos de exposição e em monólogos longos em que as personagens explicam toda a sua motivação e interesses. Para além disso, muitos mistérios são revelados também em largas passagens de exposição, que acabam por vezes ser insatisfatórios.

Por outro lado, e principalmente nos primeiros dois livros, o paço da narrativa é extremamente rápido, não dando tempo, quer ao leitor, quer às personagens processar os acontecimentos. Um exemplo claro são algumas perdas de companheiros pelo caminho, que pouco impacto têm de imediato nas personagens. O ritmo, no entanto, melhora significativamente com o terceiro livro, que permite processar as revelações e twists de melhor forma. A escrita de Pullman é também um ponto alto da saga, com passagens que deixam mesmo alguma humidade no canto do olho.

Mundos criativos e fantantásticos

Was there only one world, after all, that spent its time dreaming of others?

O universo que Pullman criou é sem dúvida o que mais atrai os leitores. Pullman criou vários mundos, cada qual tão diferente um do outro, transportando-nos para um autêntico conto de fadas. Quer seja os ursos com armaduras, os companheiros animais falantes, as bruxas, os monstros, até mesmo criaturas difíceis de imaginar, povos com culturas diferentes, homens e mulheres do tamanho de dedos que cavalgam libelinhas… tudo é possível neste universo, que nos deixa a sonhar acordados e a desejar encontrar uma janela para atravessar para estes mundos paralelos.

Final anti climático

The place you fight cruelty is where you find it, and the place you give help is where you see it needed

Por fim, e enquanto que tematicamente His Dark Materials é algo especial, e o mundo e personagens fazem da história inesquecível, o final pode parecer algo anti climático. Sim, acontece uma grande batalha, as profecias concretizam-se, mas as consequências destas coisas pouco interessam para o autor, que mais que contar uma história, pretende passar uma mensagem. Apesar de muitas coisas ficarem por responder no último livro, a conclusão dos arcos das personagens é incrivelmente satisfatório, embora que emocionalmente devastador. Apesar dos pontos negativos, os fortes falam mais alto e no fim a jornada das personagens neste mundo maravilhoso e os temas que nos expõe o autor fazem a história ficar semanas na nossa mente. Se não se importarem com algumas passagens com pesada exposição e com algumas perguntas por responder, deem uma oportunidade a His Dark Materials. Prometo que se arrependem.

Mundos Paralelos
His Dark Materials
Bom
História:
Lançamento: 1997-2000
Saga/Série: Mundos Paralelos
Distribuição:
7.5
  • Positivo
  • Exploração de temas complexos que ficam na memória
  • Desenvolvimento das personagens
  • Mundos criativos e fantásticos
  • Bonita escrita com passagens emocionantes
  • Negativo
  • Muita exposição
  • Ritmo demasiado rápido nos primeiros volumes
  • Final anti climático com muito por responder
Escrito por:
Rodrigo Fernandes
Biólogo em ascensão que usa a ficção como escapatória aos aborrecidos artigos científicos. Sou o clássico geek de óculos que adora ler sobre feiticeiros e guerras em mundos imaginários. Se não estiver agarrado a um livro de fantasia épica, estarei com certeza colado à mais recente série de TV ou com a mão no comando da PS. Ocasionalmente também me aventuro pelo mundo das animes e mangas. A minha missão de vida é forçar toda a gente a ver e adorar Avatar: A Lenda de Aang e estou sempre aberto a discutir porque é que os Lannister são a melhor casa de Westeros.