A preservação da natureza e a exuberância dos ecossistemas têm sido temas recorrentes nos jogos de tabuleiro modernos. Hutan, desenhado pela dupla Asger Harding Granerud e Daniel Skjold Pedersen (conhecidos por sucessos como Heat ou Flamme Rouge) e ilustrado pelo mestre Vincent Dutrait, transporta-nos para as densas florestas da Indonésia. Publicado em Portugal pela Devir, este é um título que promete desafiar o raciocínio através de uma mecânica de draft de cartas e colocação de peças, que combina acessibilidade familiar com um desafio tático relevante.
O Conceito: Do Chão da Floresta até à Copa das Árvores
À primeira vista, Hutan é um jogo bastante direto. Cada jogador constrói a sua própria “mini floresta” através da colocação de flores num tabuleiro modular formado por quatro segmentos. Ao longo de nove rondas, os jogadores escolhem cartas de flores de um mercado comum e colocam-nas no seu tabuleiro respeitando duas regras essenciais: as flores têm de ser colocadas adjacentes entre si pelo menos uma delas tem de tocar numa flor já existente. Este conjunto de restrições cria imediatamente um puzzle espacial interessante. Não basta colocar peças, é preciso planear o crescimento.
O sistema evolui de forma natural:
- Sobrepor flores da mesma cor faz crescer árvores;
- Completar áreas homogéneas permite atrair animais;
- Animais introduzem efeitos adicionais, como “fertilizar” espaços adjacentes.
A Experiência de Jogo: Simplicidade com “Garra”
À primeira vista, Hutan parece um jogo familiar relaxante. Contudo, o sistema de pontuação introduz uma tensão interessante: as áreas completas e perfeitas dão muitos pontos, mas as áreas incompletas ou com cores misturadas subtraem pontos.

Esta penalização força os jogadores a serem conservadores ou extremamente precisos no seu planeamento. O uso do marcador de jogador inicial é vital, pois permite obter uma flor “joker” e garantir a primeira escolha na ronda seguinte, algo crucial quando precisamos desesperadamente de uma cor específica para não arruinar uma zona do tabuleiro. Este sistema cria uma tensão crescente nas rondas finais, algumas decisões difíceis sobre quando comprometer uma área e planeamento a longo prazo num jogo relativamente curto.
Há também uma componente de interação indireta através do drafting: escolher uma carta não é apenas sobre o que ganhas, mas também sobre o que negas aos adversários.
Componentes e Estética
Visualmente, Hutan é simplesmente deslumbre. O trabalho de Vincent Dutrait é, como sempre, de alto nível, e ver a floresta “ganhar vida” com as árvores de cartão em 3D e os tokens de animais é muito gratificante. No final de cada partida, o tabuleiro de cada jogador transforma-se num pequeno diorama de floresta tropical. É um daqueles jogos que chama a atenção à mesa e que facilmente conquista novos jogadores pela aparência.
No entanto, há um pequeno ponto de fricção: as árvores de cartão podem ser um pouco frágeis na montagem, exigindo algum cuidado ao manusear. Além disso, o processo de “flor sobre flor vira árvore, árvore vira animal” pode parecer ligeiramente repetitivo ou mecânico para alguns, embora ajude a manter a organização visual do crescimento da floresta.
Longevidade e Modos de Jogo
As regras de Hutan são fáceis de ensinar. Em poucas rondas, qualquer jogador percebe o fluxo do jogo. No entanto, dominar o puzzle é outra história. O jogo exige planeamento espacial rigoroso, gestão cuidadosa de recursos (flores e áreas) e antecipação das escolhas dos adversários. Além disso, há decisões subtis mas importantes, tais como quando escolher o marcador de primeiro jogador (já referido anteriormente), quando completar uma área (ou esperar pela carta ideal) e como lidar com a limitação de animais disponíveis (só existem três animais de cada espécie/cor).
Um dos aspetos mais interessantes de Hutan é a quantidade de conteúdo adicional incluído, desde Cartas de Ecossistema (objetivos adicionais que aumentam a complexidade e variabilidade), Modo Familiar (remove a pontuação negativa, ideal para jogar com os mais novos) e Modo Solo. Neste último modo, o livro de regras inclui um sistema de “conquistas” (achievements) e cenários específicos, o que aumenta drasticamente a vontade de voltar a tirar o jogo da prateleira para bater recordes pessoais.
Este conjunto transforma um jogo aparentemente simples numa experiência bastante rejogável.

Veredito
Hutan situa-se naquele “ponto rebuçado” entre o jogo familiar e o puzzle estratégico. Se gostas de títulos como Aqua, Harmonies ou Cascadia, vais sentir-te em casa. É um jogo tático, visualmente apelativo e com camadas de profundidade que se revelam após as primeiras partidas. Não é apenas um jogo bonito, existe um puzzle genuinamente interessante, onde cada decisão conta e onde pequenos erros podem ter consequências significativas no final.