John Carpenter’s Toxic Commando

Num mercado saturado de clones de Left 4 Dead, será que o toque de mestre de John Carpenter e a experiência da Saber Interactive chegam para destacar este título?

De tempos a tempos, aparece um qualquer jogo em que uma pessoa olha e não sabe bem o que pensar. Será que gosto? Será que não gosto? Existe alguém interessado? Há tanta demanda por algo assim? 

Nessas alturas, tendemos a pender para um dos lados e acabamos por abraçar um novo título ou descartá-lo por completo, assim numa decisão até algo rápida, onde nem se pensa muito sobre o assunto e depressa nos esquecemos que tal coisa existe. Admito que é um mal necessário, onde mais depressa se safa um jogo mau, que fica mais gravado na nossa memória, do que um título que não se soube posicionar adequadamente no mercado. 

John Carpenter’s Toxic Commando foi um desses títulos para mim, em que mal o vi anunciado pensei “Olha, arroz outra vez!”.

Não acho que o tempo entre o anúncio e o lançamento tenha sido desperdiçado, porque com a presença online até algo regular, conseguiram de alguma forma despertar-me o interesse. Podia realmente haver ali algo que fosse interessante, e estava disposto a dar uma hipótese real a este novo título da Saber Interactive

Mas logo aí fiquei de pulga atrás da orelha com este título, porque há um par de anos atrás este mesmo estúdio havia lançado o World War Z, algo que na altura me havia despertado mais interesse que Toxic Commando, mas quando pensamos bem na coisa, estamos perante o mesmo jogo. 

Bom, se realmente formos pensar bem nisto, a história tem-se vindo a repetir há já quase duas décadas!

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Fico genuinamente curioso por perceber o que vários estúdios pensam quando decidem criar um videojogo como este. É que se olharmos para Left 4 Dead, aquele que é capaz de ter sido o nome que criou um novo género ou estilo de jogo, ele tinha várias coisas a seu favor. 

A mais óbvia, e já mencionada, é ter sido o primeiro. Não havia nada como ele até então e todos o queriam jogar. Depois tinha um grupo de personagens genuinamente interessantes e com personalidades bem marcadas. A nível de jogabilidade eram exatamente iguais, mas estarmos na pele de um personagem que parecia reagir como nós iríamos reagir numa situação daquelas, dava outro gosto. E até os próprios inimigos especiais tinham uma personalidade vincada graças ao seu visual diferenciador, que ele próprio contava a história.

Havia ainda a forma como todo o jogo nos foi vendido e como era consumido. Estávamos perante quatro grandes níveis, apresentados como se fossem um filme e todos com direito a sequências de abertura e a um par de momentos épicos que transformavam a experiência em algo de transcendente. Ainda hoje me lembro perfeitamente de estar no meio de um dos “filmes” e do nada ver um avião comercial a vir na minha direção e rebentar ao colidir com o chão. Ou ao ver uma bomba de combustível rebentar e criar um impacto e destruição de tal escala que temi pelo que iria acontecer de seguida (uma enchente de zombies!). 

Mas porque estou aqui a falar de Left 4 Dead quando temos Toxic Commando em mãos? Já lá vamos. 

Anos se passaram, assim com Left 4 Dead 2, e nomes como Payday ou Killing Floor 2 tentaram seguir-lhes os passos. Payday mudava algo a fórmula, deixando de lado zombies e trazendo polícias enquanto quatro jogadores tentavam proceder a um assalto. E curiosamente, Killing Floor, antes de ser um jogo completo na mesma altura de Left 4 Dead, havia sido um mod bem famoso para Unreal Tournament 2004. Hoje é seguro dizer que já tem o seu espaço, mas na altura era apenas algo meio esquecido nas sombras. Warhammer também lá andou a chafurdar, apareceu um Deep Rock Galactic que até teve o seu sucesso e, mais recentemente, o dito World War Z e também Back 4 Blood, dos mesmos criadores de Left 4 Dead, que nos fez voltar à casa de partida. 

Então e onde estou a querer chegar com toda esta conversa? É que Toxic Commando, vai ser um dos próximos nomes que vou mencionar num parágrafo idêntico ao anterior, quando um novo jogo cooperativo contra hordas for lançado e eu precisar de exemplos que não acrescentaram nada a um género que está igual desde 2008! 

E não há mal algum em não acrescentar nada! Mas numa indústria onde o jogador está a ser bombardeado de novos títulos a uma velocidade algo assustadora, que por vezes nem aguentam um mês completo no ativo até serem desligados de vez, e onde os próprios criadores e programadores e artistas estão a ser postos na rua às centenas de cada vez, eu tenho de perguntar: onde é que está o mercado para jogos como Toxic Commando

É uma atitude algo fria e corporativa, mas acho que todos querem sobreviver nesta indústria e fazer algo que gostam, mas há que ser realista e saber ler o mercado. Se não, vamos ver alguns números.

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Atualmente, enquanto escrevo este texto, Back 4 Blood conta com pouco mais de 2000 jogadores ativos, e só está assim porque está em promoção, porque por norma anda pouco acima dos 1000 jogadores. Warhammer: Vermintide 2, está com cerca de 3000 jogadores no ativo. Já Deep Rock Galactic, que é gerado progressivamente e faz com que os jogadores nunca tenham a mesma experiência, e com mais atividades e variedade do que apenas sobreviver a zombies, conta com cerca de 15 mil jogadores no ativo. 

E depois temos aqui dois nomes que merecem destaque próprio. Um deles, o próprio jogo da Saber Interactive, World War Z, lançado em 2021 e que até teve direito a um rework recentemente, conta com uma média de 5000 jogadores ativos. Left 4 Dead 2, que agora reúne ambos os jogos num só, está, surpreendentemente (ou não), com uma média de 30 mil jogadores. 

Pergunta: porque razão foram eles dedicar-se a Toxic Commando se já tinham um jogo idêntico no mercado, até com uma média acima do normal de jogadores no ativo, e que podiam desenvolver muito mais conteúdo dentro daquele universo do que estar a criar outro?

Claro que Toxic Commando diferencia-se bastante de World War Z. A começar pelo tom, que assume uma vertente mais cómica e uma estética algo anos 80 ou de filmes série B. 

Há também a questão dos veículos, que dão mais liberdade para explorar e que até é necessário porque cada mapa que visitamos somos livres de explorar. Não temos forçosamente de ir diretamente aos nossos objetivos e podemos ir procurar recursos que ajudam-nos a evoluir e melhorar os personagens, que têm habilidades próprias, outro fator diferenciador dos originais. 

Não se pode dizer que seja mundo aberto, porque não é (e aí está algo que poderiam tentar explorar!), mas pelo menos há uma certa frescura nesse departamento, já que não ficamos com a sensação que estamos a seguir um túnel até finalizar o nível. Esta liberdade acabou por criar algumas situações divertidas ou tensas, como estarmos num carro, a tentar escapar a zombies, e ficarmos presos em lama, a tentar atirar o gancho a uma árvore qualquer e não estarmos a ter sucesso algum. 

Como os recursos acabam por ser exclusivos de quem os apanha, acaba por surgir uma necessidade natural em querer explorar mais ou repetir os níveis. Mas quanto mais se repete, também mais se nota que acabamos por estar a fazer mais do mesmo, desculpem a redundância. 

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E tudo o que já mencionei de outros títulos, como sequências épicas e momentos cinematográficos e tudo isso, está aqui! Até têm a mãozinha mágica de John Carpenter, um dos mestres do cinema de terror! Como jogo e produto acabado, está tudo muito bem conseguido, mas aquilo que o jogador recebe é apenas uma experiência que com amigos tem mais valor mas assim que a completem, muito provavelmente não vão lá voltar. Vão apenas seguir para o próximo título do momento, que esteja nas bocas do mundo, e assim sucessivamente. 

Se há algo que a história nos ensina, e os números nos contam, é que se já existiu um esforço para chegar a 10 mil jogadores ativos numa semana de lançamento, e de momento já conta com uma tendência decrescente, o mais provável é seguir o mesmo caminho que todos os outros. Não acho que mereça tal tratamento, tal como não achava isso de World War Z ou Back 4 Blood ou outros tantos que já nem me lembro de ter jogado.

É um jogo decente e que promete um par de horas de boa diversão? Sim, claro! Se é algo que o mercado estava em falta? Nem por isso. 

John Carpenter's Toxic Commando

John Carpenter's Toxic Commando
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Lançamento: 2026-03-12
Distribuição:
7
Picture of Marco Almeida
Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

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