La Belle Sauvage, e sim o trocadilho é bastante fácil e o próprio autor usa-o no livro, é o primeiro volume da trilogia The Book of Dust, em português O Livro do Pó, que dá continuidade à mundialmente famosa trilogia His Dark Materials em Portugal Mundos Paralelos, que até teve uma adaptação pela HBO. Este livro funciona como prequela à história de Lyra Belacqua.
Enredo e Personagens
O enredo segue as peripécias de Malcolm Polstead, filho de estalageiros donos d’A Truta, e o seu dæmon Asta; de Lyra Belacqua, a personagem acarinhada pelos fãs de Mundos Paralelos, com a particularidade de ser um bebé de seis meses no início da narrativa; e de Alice Parslow, ajudante de A Truta.
A história situa-se entre a sentença de Lorde Asriel e a chegada de Lyra ao Colégio Jordan através de asilo académico. Normalmente não revelo o final das histórias, mas, tendo em conta que este livro é essencialmente uma prequela, não faz mal. O enredo foca-se em Malcolm como personagem principal, que desde muito cedo se vê envolvido numa guerra secreta entre Oakley Street e o Magisterium, simplesmente pela sua curiosidade e empatia com o próximo. Malcom assume, desde muito cedo na trama, responsabilidades não oficiais de comunicar com Oakley Street através da Dra. Hannah Relf e de proteger Lyra que está a ser protegida no Priorado na margem oposta d’A Truta, onde é visitante frequente e ajuda nas tarefas diárias. Alice surge como fiel escudeira de Malcolm e principal cuidadora de Lyra na fase de ação do livro.

Surge também Gerard Bonneville, um teólogo experimental especialista em partículas caído em desgraça, que quer obter Lyra, sem nunca se perceber bem para que fim, sabendo apenas o motivo de tal obsessão. Pullman introduz nesta personagem uma temática bastante interessante. De Mundos Paralelos sabe-se que os dæmons são representações físicas da alma dos seres humanos, não sendo possível um viver sem o outro (em termos gerais). Normalmente os dæmons assumem formas mutáveis durante a infância até se estabelecerem numa forma definitiva que melhor representa o seu humano. Isto é uma interpretação muito inteligente por parte de Pullman, pois a formação de personalidade de cada ser humano só acontece no início da vida adulta.
Voltando ao Bonneville, o seu dæmon é uma hiena, animal conhecido por ser matreiro, violento e em alguns casos até psicóticos. Vários exemplos têm sido usados em animação para descrever estas características, sendo o mais sonante, sem dúvida, O Rei Leão. Agora, Pullman nunca tinha mencionado deformidades ou amputações em dæmons, o que ocorre na hiena (só tem 3 patas). Isto é brilhante, pois em vez de só projetar nas ações do humano alterações psicológicas, projetou-as de modo físico na projeção da alma, o que para mim foi uma forma brilhante e até limitadora da personagem que Pullman criou. Aqui sem dúvida nenhuma uma vénia ao autor.
Estrutura narrativa

Em termos de enredo, a história demora muito tempo a avançar. Tanto que pouca coisa acontece de relevante nas primeiras 200 páginas. Isto muda quando ocorre o diluvio, que vai despoletar a ação per se da trama. Para um livro que se apresenta para um público-alvo adolescente, algumas descrições podem ser um bocadinho fora do tom, especialmente se o leitor estiver a passar por processo de luto. Certos capítulos no final, são confusos e não se percebe bem o que fazem ali.
O final propriamente dito, ou seja, o pedido de asilo académico em Jordan, não só é curto como altamente anti climático, parecendo quase um roteiro vago para uma futura adaptação cinematográfica. Na minha opinião, perdeu-se uma oportunidade de ligação mais intensa com a trilogia Mundos Paralelos. Pessoalmente falta bastante coisa nesta prequela de Mundos Paralelos, coisas que deviam ter sido explicas melhor, pois importa entender a origem das personagens principais, especialmente de Lyra. Assim novamente, acho que Pullman perdeu uma oportunidade que já não volta (fazer uma prequela da prequela seria apenas parvo). Mais aquilo que os leitores queriam perceber melhor, como por exemplo a história de Asriel e Marisa, ficava aqui imensamente bem, mas pronto. Já passou.
Em termos de escrita, Pullman escreve para todos, não me parece uma escrita demasiadamente pesada com descrições em excesso, mas fica a faltar sim algum desenvolvimento de personagens que espero que aconteça nos 2 livros que faltam desta trilogia.
Aletiómetro e Malcolm

O aletiómetro é um objeto similar a um relógio de bolso e uma bússola que proporciona ao seu leitor descobrir a verdade. É baseado em perguntas que o seu leitor tem de fazer ao objeto usando três dos trinta e seis símbolos que nele existem. A sua utilização é complexa, sendo muitas vezes necessário vários anos de prática e estudo para conseguir usá-lo. De maneira muito mais rara, existe pessoas que conseguem usá-lo de maneira intuitiva. A mais notória, sem dúvida, Lyra Belacqua.
Malcolm não usa um aletiómetro durante este livro, mas será bastante interessante se o mesmo utilizar um, tendo em consideração não só as características da sua personagem, como oportunidade clara de o fazer. Se tiver de apostar, Malcolm será um leitor por prática e estudo, ao contrário de Lyra.
Versão portuguesa
Em termos editoriais, está bastante bem conseguido. A Editorial Presença manteve a tradutora Maria do Rosário Monteiro, que já tinha traduzido a trilogia de Mundos Paralelos, o que permite manter o registo de tradução. Não sou especialmente fã de ilustrações nos títulos de capítulos, mas Chris Wormell é um excelente ilustrador; deixo aqui a página do mesmo para não ser o único com acesso a este deleite (http://www.chriswormell.com/). Por isso, apesar de achar que não acrescenta nada, são sem dúvida lindos e, sendo um livro classificado como infantojuvenil, aceito que estejam aqui. O índice é dispensável.
Considerações Finais
Analisando o livro por si só, não o acho brilhante como a as críticas indicam; aplaudo sim, o reaparecer de um universo que gosto muito. Como parte do universo, acho que explica algumas coisas, mas falta responder a muitas outras. De qualquer maneira recomendo a leitura, pois será necessário para o enredo de A Aliança Secreta – O Livro do Pó volume II, especialmente pela importância de Malcolm.