O agente secreto mais famoso do mundo voltou a conquistar os fãs com o lançamento de 007 First Light para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC. Desta vez, somos convidados a acompanhar um James Bond mais jovem, inexperiente e ainda em construção, descobrindo as origens daquele que viria a tornar-se o icónico agente 007.
Esta nova abordagem despertou-me a vontade de regressar às origens da personagem, revisitando os romances de Ian Fleming (1908-1964). Foi aí que a minha atenção deixou de estar centrada em Bond para se focar numa figura que, embora raramente esteja na linha da frente, é indispensável em praticamente todas as missões: M. Mais do que o líder do MI6, M representa a experiência, a liderança e a autoridade de toda a organização. E talvez seja precisamente nesta personagem que se encontra um dos exemplos mais interessantes de empoderamento da terceira idade no universo literário de 007.
Mas afinal quem é o lendário M?
A sua primeira aparição foi no romance que deu inicio a todo o universo de James Bond: “Casino Royale”, publicado em 1953. Neste livro somos apresentados ao homem que é responsável por comandar o Serviço Secreto Britânico e que orienta as missões do agente 007. Ian Fleming apresenta M como uma figura de autoridade absoluta e alguém cujas opiniões pesam sobre as decisões do MI6. Durante grande parte da série, Fleming, mantém o mistério em torno de M, fazendo dele uma das personagens mais intrigantes do MI6. É só no terceiro romance com o título “Moonraker” (1955) que começamos a ter mais detalhes relacionados com a personagem, incluindo o seu primeiro nome: Miles. A confirmação da sua identidade aparece apenas no ultimo romance escrito por Ian Fleming mas publicado depois da sua morte: “The Mand with the Golden Gun” (1965) onde M é indentificado como Vice-Almirante Sir Miles Messervy K.C.M.G. (Knight Commander of the Order of St Michael and St George).
Embora Ian Fleming nunca revele diretamente ou de forma explícita a idade de M, o leitor consegue perceber através dos romances que se trata de uma personagem madura. O facto de ter tido uma longa carreira ligada à Marinha Real Britânica, assim como a sua linguagem, a sua postura, a autoridade e o respeito que impõe como líder do MI6, ajudam na construção da imagem de um homem mais velho e com uma vasta experiência. A própria relação que estabelece com James Bond revela também uma dimensão quase paternal. Apesar de conhecer muito bem a sua tendência para desafiar ordens e seguir o próprio instinto, M demonstra uma paciência e uma confiança que só alguém com muita experiência poderia transmitir. Mais do que controlar Bond, M procura orientá-lo e consegue ver o seu valor enquanto agente e pessoa, contudo ele também reconhece a importância de impor limites, seja para o próprio bem do 007 assim como para os outros agentes ou missões.



A Diferença entre James Bond e M
James Bond representa a juventude enquanto força de movimento: a sua capacidade física, a ação, a impulsividade e a rebeldia contra as regras. A sua personalidade carismática e sedutora levam-no a conquistar relações amorosas com algumas das mulheres mais inteligentes e marcantes, enriquecendo a sua vida pessoal e tornando-a tão intensa como as suas missões. Ao virar de cada pagina, acompanhamos não apenas as suas aventuras, mas também os seus conflitos, o seu crescimento e as suas emoções, permitindo-nos conhecer o homem por de trás da lenda.
Mas se Bond representa o movimento constante do presente, M simboliza a experiência, a estabilidade e a confiança no pano de fundo. Mesmo com ele sentado à sua secretária, a influência de M estende-se muito para além do seu escritório. São as suas ordens, o seu planeamento e o seu conhecimento estratégico que orientam cada missão do MI6. É ele quem consegue observar o quadro completo: avaliar riscos, tomar decisões e assumir a responsabilidade pelas consequências dessas escolhas. O poder de M não nasce da velocidade e da força física, mas de algo que apenas o tempo pode dar: maturidade, discernimento, experiência e liderança. Nas suas mãos estão mais do que missões, estão vidas humanas e a segurança do seu país.
É precisamente por isso que M se torna numa das personagens mais fortes do universo do 007. Enquanto que nós, leitores, acompanhamos Bond e somos naturalmente atraídos pela sua coragem, pelo seu espirito aventureiro, inúmeros romances e estilo de vida perigoso, também conseguimos perceber que existe um charme em M que o próprio James Bond inveja. Por detrás do agente rebelde que nos entretém com inúmeras páginas repletas de aventuras, existe uma admiração pelo homem que representa tudo aquilo que a experiência pode oferecer: a capacidade de comandar o jogo sem nunca sair da cadeira.


Queria apenas terminar com uma pequena nota para celebrar o desempenho de Judi Dench, atriz britânica que abraçou o papel de M aos 60 anos e participou em 8 filmes da saga 007, entre 1995 e 2015. A sua interpretação foi memorável e digna da personagem literária, mostrando que mesmo uma mulher madura pode muito bem dar vida a um dos papeis mais significativos do universo de James Bond.