É difícil falar de Liga da Justiça e não lembrar do ano de 2017, mas provavelmente este lançamento será o motivo para que essa data fique apenas numa memória longínqua. A verdade é que o filme lançado nesse ano foi uma grande confusão em toda a sua produção. Não só por situações imprevisíveis e que nada se podia fazer, mas também por algumas situações que poderiam ser totalmente evitadas. Algumas das notas mais complicadas daquela época (parece ter sido há uma década) era mesmo a confusão que as críticas faziam à Warner Bros. A empresa focou a sua direção em alguns aspetos que acabaram por retirar o controlo criativo aqueles que realmente queriam fazer algo com esta saga. E foi assim que todo o universo da DC se perdeu e os vários filmes que se interligaram estão agora num limbo muito confuso.
A complicada DCEU
Para quem está mais fora do que aqui aconteceu, deixem-me fazer um pequeno resumo. Algures no final da década de 2000 e com o final de O Cavaleiro das Trevas Renasce, a Warner começou a planear o seu universo cinematográfico baseado nos heróis da DC. Em 2011 acontece o arranque com Lanterna Verde, que devido aos seus maus resultados, a Warner decide voltar atrás e arrancar o universo em 2013, com Homem de Aço, com Zack Snyder no comando. Apesar do realizador não ser dos mais amados da indústria, o filme teve o sucesso suficiente para que a companhia levasse a ideia para a frente. Foi necessário aguardar 3 anos pelo próximo filme, mas a partir deste ponto o calendário estava repleto.
Em 2016, Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça, que oferece um novo Batman e introduz pela primeira vez a Mulher Maravilha no cinema, dando ainda uma pequena amostra do Aquaman e do Flash. É também em 2016 que chega Esquadrão Suicida e as coisas começam a desmoronar. As críticas negativas ao filme e principalmente a indicação que a Warner continuava a intrometer-se demasiado nas decisões criativas, começava a criar mau ambiente na continuidade deste universo. Em 2017 temos Mulher-Maravilha, que foi muito bem recebida e volta a dar esperança. Logo depois, chega Liga da Justiça, que é totalmente destronado pela crítica. Aqui o universo cai. As próximas produções seriam individuais, mantendo um pequeno fio condutor. Os fãs não gostaram muito de toda esta situação e mesmo com produções decentes, as coisas continuaram a correr mal. Aquaman, Shazam!, Birds of Prey e Mulher-Maravilha 1984, foram os filmes lançados após a junção dos heróis e que ainda estão de alguma forma ligados a este confuso universo cinematográfico.
É também importante referir que Zack Snyder esteve envolvido apenas em parte da produção do filme de 2017, tendo saído por situações familiares. Este filme foi assim passado a Joss Whedon, que alterou totalmente as ideias do primeiro. Tudo isto criou dificuldades na produção e levou a que o filme se tornasse numa confusão narrativa, de qualidade duvidosa em todos os seus aspetos. Além disso, há informações mais recentes que indicam que Whedon tornou a produção ainda menos apetecível com Ray Fisher a acusar o realizador. Uma situação muito complicada que a Warner tenta agora remediar com esta nova versão. A pergunta que fica é: Vale realmente a pena?

Zack Snyder entra em ação
De forma muito direta… Sim, vale a pena. O filme não muda os seus alicerces. A história base continua cá, por isso se não gostaram do filme de 2017 dificilmente vão gostar deste. Contudo, agora temos um filme mais bem explicado, encontrando uma coerência narrativa em todo o filme, mesmo com a sua longa duração. Snyder não faz aqui nenhum milagre e apenas transforma o filme na sua visão inicial, contando ainda com a liberdade criativa para fazer tudo como realmente queria, sem grandes restrições de tempo ou qualquer outro tipo. É importante ainda referir que quanto às quatro horas de filme, podem assistir esta história em pedaços visto que o realizador fez questão de a dividir em seis diferentes capítulos.
As cenas novas e o regresso de cenas essenciais que tinham sido cortadas da versão de 2017, ajudam a esta coerência em todo o filme. Apresenta-se aqui uma história que apesar de contar com os mesmos princípios, acrescenta muito conteúdo. Mais espaço de antena para personagens como Cyborg, Aquaman e Flash. Melhor estruturação das motivações de cada um dos protagonistas e do vilão. Desenvolvimento mais interessante do principal vilão de todo o filme. Este filme tem principalmente um conjunto de novas cenas totalmente computorizadas que alteram por completo o último ato. Aliás, julgo que esta última sequência é mesmo a que tem as maiores mudanças. Apesar de conseguirmos encontrar vários novos momentos ao longo de todo o filme, é mesmo na parte final que temos tudo muito diferente.
Ainda sobre esta questão tenho mais uma nota a fazer. O filme apresenta várias novidades que oferecem uma visão ao futuro do universo. A questão aqui é se a Warner vai querer continuar com esta história. Estou especialmente curioso para ver se existe coragem para continuar com esta nova estrutura, porque quer queiramos quer não, este nova versão faz o trabalho perfeito para a continuidade de um universo deste género. Esta é sem dúvida a visão que deveria ter acontecido. Por mais problemas que tenhamos aqui, é um trabalho muito bem composto e que finalmente se demonstra como aquilo que poderíamos ter tido. Por esse motivo, espero realmente que possamos ter aqui algo mais no futuro.
Não podia passar ao próximo ponto sem voltar a referir o final do filme. Já disse que há muitas diferenças, mas tenho de voltar a acentuar que há realmente muitas e grandes diferenças no final do filme. Aliás, desde que os heróis chegam para a batalha final, são poucos os momentos retirados da versão de 2017. A batalha está muito mais interessante, com momentos dedicados a cada um dos personagens. A coerência, o posicionamento, o tempo de antena e todos os momentos de cada um dos personagens está muito mais trabalhado e principalmente está realmente bem feito.
Os maiores problemas
Sem dúvida que este continua a não ser um filme perfeito. Zack Snyder não faz aqui nenhum milagre e mesmo melhorando muito a experiência de visualização nesta versão continuam a existir alguns problemas. O facto de termos a história base e alguma da estrutura dessa base se manter intacta contamos com alguns dos problemas que já tínhamos antes. Falo da história relativamente simples e com muita coisa por contar. Julgo que o maior problema da história é ter muito conteúdo que deveria ter sido introduzido em filmes a solo, como a concorrente mais direta fez. Desta forma, alguns dos personagens acabam por ter muita coisa ainda por contar e mesmo com esta longa duração fica muito por dizer.
A duração do filme poderia ter sido reduzida. As quatro horas são mesmo longas para o filme e mesmo que pessoalmente tenha passado bem aquele tempo, considero que facilmente podia ter sido reduzido para perto das 3 horas. Há muito conteúdo que podia ter sido contado de igual forma com metade do tempo que foi exposto. Por esse motivo, julgo que o filme é demasiado longo e mesmo com as suas melhorias, acredito que um filme menor iria agradar a muito mais público.
O outro ponto que está algo… estranho, é a sua banda sonora. Desde a partida de Hans Zimmer dos comandos dos filmes de super-heróis que a companhia tem experimentado algumas coisas novas. Aqui não difere e apesar de muitos dos temas orquestrais serem de grande qualidade, acaba por faltar alguma coerência na junção de toda a trilha. Principalmente, em momentos que saltamos de herói para herói e a música acompanha esse salto. Podia ter ficado interessante, mas terminou muito estranho.
O que não vou falar…
Não posso falar dos efeitos especiais. Tenho lido alguns dos meus colegas de outros sites a discutir muito sobre os efeitos especiais desta versão. Apesar de tudo não me aprofundei muito nessas críticas até escrever isto, mas sei que esses efeitos têm causado algumas notas de muitos críticos. Antes de mais, tenho de referir que os efeitos especiais da versão de 2017 foi uma das piores coisas que aconteceram naquela década no que toca a filmes de super-heróis. Sim, estou a falar da década onde foi lançado Lanterna Verde. Se não estavam piores, pelo menos a par com esse filme de 2011. Os efeitos do filme original estavam terríveis e tendo assistido ao filme em IMAX foi ainda pior.
A partir deste ponto, tenho que dizer que os efeitos especiais desta nova versão parecem ser um salto na direção certa, mas digo que não vou falar disto porquê? A verdade é que, apesar de termos visto com a melhor qualidade possível, este não deixa de ser um vídeo por streaming. Com isso em mente, há vários momentos em que a imagem parece pior do que realmente é. Não posso, nem consigo estar a criticar algo que não posso ter totalmente certeza se foram realmente problemas nos efeitos especiais ou simplesmente problemas no serviço de streaming, algo que a HBO nos avisou que também poderia estar com problemas.

Esta é a versão que queríamos…
Gostaria de concluir este texto por dizer que esta é a versão que queria. Esta é a versão que imaginei e que muitas vezes montei na minha cabeça. Snyder pode ter muitos problemas a contar as suas histórias e nem sempre são as mais interessantes, complexas ou até mesmo coesas, mas o seu estilo agrada-me e mais uma vez conseguiu dar a volta por cima num filme carregado de problemas. Mais uma vez, não posso dizer que o realizador faz milagres, mas consegue elevar este filme em larga escala. Não passamos de uma nota 3 para um 10, mas facilmente passamos para um 7 ou 7,5.
É um filme longo, por isso pode acrescentar alguns problemas à atenção do público, mas é também um filme que graças à divisão por capítulos facilita muito a sua visualização. Pessoalmente, gostei muito do que aqui vi. Acho que este filme oferece muitas possibilidades e deixa nas mãos da Warner Bros. a continuidade deste universo. Quero ver mais e julgo que temos aqui muito conteúdo para explorar. As cenas a mais acrescentam muito à história e principalmente correlacionam ainda mais o filme Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça a esta sequela.