Finalmente, chegou L’immensità ao cinema português. É o mais recente filme franco-italiano a apaixonar o público português. Muitos virão ver o filme pela incrível Penélope Cruz, novamente a interpretar um papel de mãe fragilizada pela vida doméstica, mas ficarão pelo enredo cativante e vida emocionalmente destrutiva de Adri, interpretada pela extraordinária jovem atriz Luana Giuliani.

O diretor do projeto, Emmanuele Crialese, incrivelmente, nos conduz de volta aos anos 70, mostrando-nos o auge da vida italiana e ao mesmo tempo a autodestruição de uma sociedade sexista e consumida por uma xenofobia que ainda hoje vivenciamos. Aliás, apesar das roupas da época, e o costume exacerbado de fumar um cigarrito dentro de casa, mesmo na cara das crianças, o filme é atualizadíssimo e desconfortavelmente realista, visto que ainda hoje muitos vivem aquilo que nos apresentam no filme.
Enredo e Personagens
O enredo é tudo menos simples. Encontramos uma família disfuncional, na qual o marido, Felice (Vincenzo Amato), chefe da família é ausente, mas cruel e violento, um completo estranho, dormindo com amantes mesmo debaixo do nariz de sua esposa. Clara (Penélope Cruz) é uma alcoólatra, presa num casamento que a conduz lentamente a um longo, interminável e rotativo ciclo de depressão do qual nunca se libertará, visto não ter qualquer independência. Naturalmente, as crianças começam também a evidenciar consequências desta disfuncionalidade. Adri refugia-se no seu próprio mundo, odiando a realidade onde se encontra, Gino (Patrizio Francioni) é um menino com uma fome insaciável, e uma ansiedade que lhe dá hábitos imundos, e, por último, Diana (Maria Chiara Goretti) que mesmo solitária e inocente, acaba por ser forçada a crescer para controlar a família que se desfaz por entre os dedos.

Porém, o filme centraliza-se, essencialmente, em Adriana que sofre de disforia de género. Por outras palavras, Adri deseja ser Andrea, um rapaz. Ao mesmo tempo, parece que ninguém se apercebe desta luta interna de Adri, luta que é o foco da sua personalidade. É o seu ódio pelo próprio corpo levam-na a ter comportamentos rebeldes que afetam o enredo da história e que lentamente intensificam o papel de Clara, a sua mãe, a única personagem que parece compreender a/o filha/o. No filme, observamos somente um ano na vida deste jovem, estamos presentes quando experiência loucuras e injustiças, quando ultrapassa os inúmeros testes de coragem que a vida lhe proporcionada, e também lá estamos quando se apaixona e finalmente sente felicidade, só para que esta lhe seja arrancada por debaixo dos pés, como é habitual enquanto crescemos.

Espectador
No entanto, qualquer espectador sairá insatisfeito da sala de cinema quando chegarem os créditos do filme. Adri é uma personagem única, talvez exageradamente. Dificilmente, conseguirá o espectador se identificar com uma personagem que é tão egoísta como é imaginativa. Adri, o mais velho das crianças é ainda demasiado jovem para compreender o mundo dos adultos, mas mesmo assim é julgador e frio. A personagem não sorri uma única vez, e quando confrontado com desafios para os quais os seus gritos não têm qualquer efeito, acaba por se refugiar em maravilhosos videoclipes de músicas da época, que interrompem a narrativa. Naturalmente, como adultos experientes, acabamos por nos identificar com a personagem de Penélope Cruz, talvez por termos de alguma forma experienciado a sua vida, quer de longe, quer na própria pele. Mesmo assim, o que nos distancia do filme é o facto de ser uma história deixada em aberto. Podemos só imaginar o que acontecerá a seguir, e nada parece poder mudar. Aliás, porque além daquelas duas personagens, todas as outras são pequenas, inalteráveis e vazias, ao ponto que se alterassem o ator que interpreta o cruel marido a meio do filme, talvez poucos notassem.
Ao apresentar um mundo em que só duas pessoas parecem verdadeiras, metade da população será excluída de o apreciar.