Depois de títulos como F.I.S.T.: Forged in Shadow Torch e ANNO: Mutationem, chega agora ao mercado Lost Soul Aside, mais um jogo produzido com a ajuda da PlayStation através do seu projeto China Hero Project, uma iniciativa criada com o intuito de ajudar criadores chineses a fazerem jogos e a lançá-los em novos mercados.
Ao jogar Lost Soul Aside dá para perceber de imediato as claras influências de séries clássicas como Devil May Cry e Final Fantasy, tanto na sua jogabilidade como na sua narrativa, mas é apenas isso que alcança, uma simples sensação de reconhecer algo que já jogámos antes, pois acaba por não trazer nada de novo para cima da mesa.

Quem já jogou Final Fantasy VII vai sentir uma espécie de déjá vu ao iniciar a campanha de Lost Soul Aside. A narrativa centra-se à volta de Kaser, a nossa personagem, que tal como a sua irmã mais nova, junta-se a um grupo de resistência chamado Glimmer, com o objetivo de acabar com a tirania do Império perante os seus habitantes. Algo soa familiar?
A história ganha um tom mais singular quando, durante uma missão interrompida por uma invasão alienígena (Voidrax), Kaser vê-se em apuros e acaba por conhecer Lord Arena, um destes seres em forma de dragão que se encontrava preso num laboratório do Emperador. Ao libertá-lo, estes acabam por se fundirem, dando ao nosso protagonista poderes que o tornam capaz de enfrentar esta nova ameaça.
Ao contrário de outros RPGs, que valorizam a interação com os companheiros e permitem criar laços emocionais através de escolhas e diálogos, aqui tudo se resume a interações muitos superficiais. Não existem grandes decisões a tomar em nome de Kaser, nem a possibilidade de podermos tomar nós as decisões de forma a moldarmos a narrativa ao nosso gosto.

Mesmo depois do criador ter vindo a público pedir desculpa pelos problemas de desempenho, é impossível não os apontar. Quem gosta de jogar os jogos em modo fidelidade, de maneira a poder absorver melhor o mundo criado pelos devs, Lost Soul Aside torna-o frustrante devido às constantes quebras de performance. O modo performance mesmo oferecendo uma experiência mais estável, também não escapa por completo, sobretudo quando confrontamos bosses de grande envergadura.
O jogo é muito repetitivo ao ponto de já nos sentirmos cansados quando chegamos a meio da campanha. Ainda no início do jogo, é nos dito que teremos de repetir a mesma tarefa umas cinco vezes, até aí não vejo grande problema, o que torna enfadonho é que pelo meio é sempre tudo igual, só que em locais diferentes. A estrutura é sempre a mesma: começar numa área nova, eliminar inimigos fáceis, enfrentar um mini boss, repetir este processo umas seis vezes até chegar ao boss final, aumentando a dificuldade desses mesmos mini bosses e depois recomeçar tudo mas noutro cenário. A mudança de ambientes não é suficiente para mascarar este loop constante.
Isto acaba por ser uma pena, pois o combate até acaba por ser divertido quando acabas por desbloquear certos poderes. Permitindo-te criar combos que nos fazem sentir bastante poderosos. Infelizmente, essa diversão é ofuscada pela repetição excessiva e pela inconsistência técnica.

Tal como a sua performance, também a qualidade visual consegue ser inconstante. Há momentos em que o jogo nos consegue deslumbrar, quer seja com um mundo novo onde as leis da física não são iguais às nossas e que verdadeiramente impressiona quer quando nos apresenta um dojo que se encontra em perfeita harmonia com a montanha, como no momento a seguir, certos assets, principalmente a água, parecem tirados de gerações anteriores, quebrando por completo a imersão.
Já no que toca ao áudio, Lost Soul Aside consegue a proeza de ser tão mau que dá a volta e se torna bom. Eu sei que isto parece estranho, como assim algo mau que é bom? Imaginem o filme The Room, ele é bastante conhecido pelas fracas prestações dos atores ao ponto de se tornarem memes. Bem no que toca ao Lost Soul, isso também acontece, principalmente no que toca à dobragem inglesa. Para quem quiser uma playthrough mais fidedigna, recomendo seriamente a dobragem chinesa, mas quem quiser rir um pouco, digo para experimentarem a inglesa.

A narrativa do jogo estende-se por cerca de 20 horas, podendo prolongar-se bastante mais para quem ambicionar a platina (é um daqueles que tens de terminar o jogo várias vezes e em dificuldades diferentes) e é vendido quase ao preço de um exclusivo first-party. No estado atual, é muito difícil recomendá-lo.
A melhor recomendação é mesmo revisitar, ou jogar pela primeira vez quem ainda não o fez, os clássicos que tanto inspiraram Lost Soul Aside. Devil may Cry pelo combate e Final Fantasy VII pela sua narrativa.