Maid: uma serie inspirada na vida real

Ou por outras palavras: quando é que esta mãe tem descanso?

Inspirado nas memórias de Stephanie Land, Maid conta a história de Alex (Margaret Qualley), de 23 anos, que foge de um relacionamento emocionalmente abusivo com Maddy, a sua filha de dois anos. Alex, uma aspirante escritora que vive ao norte de Seattle, fica acordada a observar o homem que acabou de encerrar uma discussão com ela ao abrir um buraco na parede com um murro. Quando ela tem certeza de que ele está a dormir, pega na filha e não olha para trás. O desespero e o medo são óbvios: ela e Maddy estão prestes a ficar sem teto pela primeira vez, mas não há alternativa.

O que se segue é uma história em parte da pobreza para a riqueza, ou pelo menos para a não-pobreza. À medida que Alex começa a reconstituir a sua vida entre abrigos para vítimas, a ocasional gentileza de estranhos e um trabalho de limpeza escravizante e mal pago numa de empregadas doméstica ao domicílio.

Uma série de 10 episódios que poderiam muito bem terem sido cinco. Este poderia ser o nosso pensamento se estivéssemos a ver cada episódio passivamente. No entanto, a pouco e pouco vamo-nos apercebendo que este próprio prolongar de algo que parece já em si não sair do mesmo lugar, é, de facto, o objetivo. A série, mais do que dramatizar as memórias de Land, parece oferecer uma visão quase documental da papelada que envolve todos os esforços para ter acesso à (já mínima) ajuda supostamente oferecida a mulheres desesperadas e aos seus filhos, e a inadequação para o propósito de todos os aspetos do estado a que se refere para oferecer socorro.

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Durante 10 episódios de aproximadamente 1h cada, vemos Alex lutar contra o status quo e a inércia dos serviços que supostamente existem para a ajudar. O seu caminho é um labirinto de formulários incompreensivos, perguntas intrusivas, requisitos de documentos, encontrando-se numa situação de pescadinha de rabo na boca. As próprias instituições que querem ajudar, com tanta burocracia acabam por quase atirar as vítimas de volta para os seus agressores, despindo-as de munição e formas de se sustentarem por si só.

Maid traz à luz a precariedade da existência sem residência fixa, renda adequada ou suporte familiar, e evoca um mundo raramente visto na vida real ou na tela. Ele ilumina todas as vulnerabilidades que ter filhos acarreta. O menor contratempo, sem dinheiro ou recursos para corrigi-lo, só se pode transformar num desastre que arrasta outro consigo, como uma bola de neve. Frequentemente, vemos o total das finanças de Alex caindo a zero antes que ela possa garantir o que precisa para receber o dinheiro do dia seguinte – comida para si mesma, gasolina para o carro, pagamento para a creche de Maddy… É desesperante! E sempre que parece que a sua vida pode estar a entrar no caminho certo, há outra coisa que aparece. Seja o companheiro, bêbado e em negação, Sean (Nick Robinson) que a quer de volta e que sabe que só o conseguirá se lhe tirar a filha, ou a mãe desnorteada Paula (mãe na vida real de Qualley, Andie MacDowell).

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Existem, contudo, alguns pontos fracos. Há episódios em que parece que nada acontece ou o que acontece é apenas para avançar a história numa determinada direção de sequestro emocional do espectador e que vão contra a natureza das próprias personagens. Isto por vezes torna Maid uma experiência um tanto frustrante e dispersa, ainda que nunca deixando de ser comovente. No entanto, esses problemas são de alguma forma compensados pela ternura e a autenticidade da relação entre as mães e a filhas, ressaltando as performances brilhantes, especialmente de Qualley, que tornam a série num drama envolvente e um poderoso testemunho do sofrimento de muitos.

A série poderia ser brilhante com um ou dois ajustes. Por exemplo, poderia pegar em cada episódio numa das casas que Alex limpa e retirar dali algum tipo de lição, fazer uma crítica, um contraste entre a sua condição e a das suas patroas, a disparidade existente na América numa questão de quilómetros, mas não o faz! E quando o faz, fica aquém. Não é que o esforço físico e a escassa recompensa do trabalho de Alex, ou suas observações sobre a vida e a casa dos seus clientes, não ganhe tempo de tela. Mas eles não são tão centrais quanto poderiam ser. Eles tendem a estar lá para embelezar ou ilustrar outras linhas de história mais melodramáticas. Divididas entres os homens: Sean e o pai de Alex, Hank, ambos com problemas de vício e raiva, cuja violência teve o maior papel em descarrilar a vida de Alex; e as mulheres: a mãe de Alex, um espírito livre bipolar e narcisista que é um enorme fardo para Alex, Denise (BJ Harrison), a gerente de um abrigo para violência doméstica e Regina (Anika Noni Rose), uma advogada rica e magoada para quem Alex limpa a casa.

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Maid melhora à medida que as personagens têm permissão para revelar as camadas dramáticas. À primeira vista, pode parecer que se inclina para alguns diálogos e clichês narrativos sobre a pobreza nos primeiros episódios de casal. No entanto, alguns detalhes de realização que trazem à tona o estado de espírito de Alex, como uma criança perdida num deserto de abutres à espera que caia para a atacarem, dão outra dimensão à história. O final, embora previsível, acaba por funcionar. Durante 10 episódios somos obrigados a importarmos nos por esta mãe e a sua filha, e desejamos a todos os custos que a sua vida mude.

Em última análise, Maid arrisca ao trazer para o ecrã um retrato dos diferente tipos de abuso emocional e circunstancial em vez do físico. Mas consegue-o de forma muito especial, oferecendo pelo caminho algumas das performances imperdíveis do ano.

Criada

Maid
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Premiere: 1 de outubro de 2021
Temporada: 1
Distribuidora:
7
Picture of João Simões
João Simões
Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.

Colaboraram neste artigo

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