Mario Kart World

Reinventar a diversão

A Nintendo tornou-se sinónimo de diversão. Os anos passam, mas continuamos a explorar o seu hardware e software de forma a manter o nosso assombroso dia a dia um pouco mais interessante e entretido. Com várias franquias a atingirem espaço nas estantes das pessoas, há uma que predomina os momentos de festa desde 1992. Com um jogo da série principal a ser lançado em cada uma das principais consolas Nintendo desde a sua génese, este tornou-se já um dos grandes trunfos da empresa, contando ainda que foi o jogo mais vendido na Nintendo Switch, numa versão Deluxe do jogo da Wii U. Mario Kart é um fenómeno e, ao longo dos anos, tem-se reinventado, mantendo o seu estatuto e colocando todo e qualquer possível rival no seu lugar.

Sonic e Crash são apenas dois dos principais nomes que tentam entrar neste apertado mercado e, apesar de conseguirem oferecer experiências únicas e diferenciadas o suficiente para se destacarem, o chamamento final continua a empurrar-nos para o canalizador italiano mais famoso da história. É por isso que se tornou importante olhar para cada lançamento desta franquia com o detalhe necessário para se compreender de que forma a Nintendo pretende reinventar novamente a diversão.

Mario Kart 8 Deluxe é perfeito

8 Deluxe? Como assim? A minha passagem pela Wii U foi sofrida, mas maravilhosa. Enquanto tremia a cada nova notícia de cancelamento ou de desvio dos lançamentos das principais editoras, ia-me maravilhando com tudo o que chegava à consola. Mas há um… meus amigos… há um que se destacou em grande escala. Mario Kart 8 foi algo que nunca imaginei. Joguei, explorei, aventurei-me, conheci cada circuito como se não tivesse mais nada que fazer e partilhei momentos extremamente divertidos com quem me rodeava naquela altura. Online ou no sofá, Mario Kart 8 acompanhou-me durante anos e foi uma experiência que fez valer cada minuto em que fiz parte da pequena comunidade Wii U.

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Mario, Link e outros personagens icónicos da Nintendo correm em alta velocidade numa pista urbana cheia de curvas. Imagem do clássico Mario Kart 8 Deluxe, símbolo da geração anterior.

Quando entrei na Nintendo Switch, ainda com muito ceticismo por parte de muitos jogadores, dado o fracasso da consola anterior, fui de cabeça erguida para explorar o melhor da Wii U e pronto para dar o salto que tanto esperava. Havia o risco de se tornar outra consola sem qualquer suporte externo? Sim… Sei que a memória é curta, mas aqueles primeiros tempos foram penosos e, principalmente, muito incertos. A rápida subida nas vendas fazia sonhar com um futuro melhor e, de repente, logo no seu início de vida, começámos a ter um vislumbre do que seria o futuro da consola: Mario Kart 8 Deluxe marca a entrada dos portes diretos da Wii U para a Switch. No entanto, ao longo da vida da consola, a Nintendo reforça este lançamento, tornando-o no maior e mais completo Mario Kart da história.

Superar esta façanha não seria fácil, mas podemos fazer um exercício? No lançamento de Super Mario Maker e da sua sequela, muitos se perguntavam: “E agora? Como é que a Nintendo vai superar isto e criar algo único nos Super Mario Bros. 2D?” E assim surge Super Mario Wonder para mostrar que naquela escola ainda há muito para ensinar. Com Super Smash Bros. Ultimate e Mario Kart 8 Deluxe estamos perante a mesma situação. Como é suposto a Nintendo superar estes jogos em futuras sequelas? Parecem títulos perfeitos e que foram um pouco mais longe para estarem completos.

Mario Kart World é o próximo passo

O mais interessante é que, neste passo, a Nintendo parece ter preferido dar um passo atrás para conseguir dar vários para a frente. A equipa retira funcionalidades para acrescentar um tipo de conteúdo diferente. Mas será que estas mudanças conseguem reinventar a diversão e voltar a colocar os jogadores no sofá?

A aventura começa logo na partida para um novo, maravilhoso e interligado mundo. Aqui somos levados a um conjunto de atividades que vão alegrar qualquer fã de colecionismo. Um pouco na medida de jogos como Forza Horizon, estamos perante uma área completamente disponível para explorarmos e divertirmo-nos à nossa maneira e medida. E o mundo está carregado de vida, com outros personagens a desempenharem um papel importante neste preenchimento. É o local ideal para conhecer cada canto, cada segredo e cada detalhe dos diferentes biomas existentes. A diversidade vai-nos encher as medidas e transformar cada viagem numa montanha-russa de experiências.

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Um Goomba conduz um kart de aspeto robusto, levantando terra enquanto outros Goombas assistem ao fundo. Uma imagem divertida e caótica do novo Mario Kart World.

A essência de Mario Kart está bem enraizada desde a sua génese e fica complicado olhar para algo que não esteja intrinsecamente ligado a isso. Mesmo com o atrito habitual numa mudança tão drástica, há vários apontamentos importantes a retirar do que aqui foi feito. O modelo tradicional está mais ou menos por lá, mas com diversas mudanças. Dar três voltas em cada circuito de uma taça é regra do passado. Temos três voltas no primeiro circuito e, nos outros, temos de acelerar até ao local da próxima pista, contando pelo menos dois checkpoints na viagem, dado o ponto final no circuito. Este novo formato transforma exaustivamente as regras do jogo e cria ainda mais caos em cada corrida que fazemos.

Detalhes como vencer os 150cc e dar as três estrelas automaticamente aos 50cc e 100cc são melhorias que ajudam a simplificar o processo de completar Mario Kart World e, sinceramente, encaixam que nem uma luva no novo formato das taças. Já que a viagem entre circuitos em 50cc é bem mais transtornante. Tal qual condutor de fim de semana, lá vou eu a 50km/h numa autoestrada capaz de receber carros a 150km/h.

São esses pequenos apontamentos que, tal como uma animação de um personagem a cair no momento certo, oferecem uma experiência de jogo mais aprimorada. Sim, a imagem tem mais qualidade devido ao equipamento mais poderoso da Switch 2. Sim, o jogo é ainda mais fluido. Mais do que isso, o jogo tem alma e coração em cada detalhe e dá ao jogador uma experiência digna de ser experimentada. Por isso… A resposta é mesmo sim. Mario Kart World é divertido e pode levar os jogadores novamente ao sofá para o caótico desespero de tentar chegar ao final da corrida sem ficar em último.

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Baby Peach num pequeno jipe enfrenta um T-Rex gigante de boca aberta, num cenário pré-histórico. Aventura e perigo num dos biomas selvagens do novo mundo aberto.

Não é tudo perfeito

Pois não! A perfeição ainda está longe deste jogo, mas se recuarmos a maio de 2014, aquando do lançamento da primeira versão de Mario Kart 8, este era ainda um pequeno bebé sem grandes capacidades de agarrar o jogador durante horas infinitas. Eventualmente, tornou-se no jogo que todos conhecemos. Mario Kart World tem esse espaço e pode crescer imenso. Os primeiros passos estão dados e demonstram a capacidade da Nintendo se reinventar. Agora falta compreender de que forma vão fazer este jogo evoluir. Entretanto, é necessário apontar o que está mal.

Senti saudades do modelo tradicional das taças, onde damos três voltas em cada circuito. Em certos momentos, senti falta dos 200cc, que me permitiriam explorar o mundo de outra forma. Noutras alturas, dei por mim a desejar os 12 jogadores e a menor intensidade do meio da tabela. Em vários pontos, senti também a ausência de alguns circuitos clássicos a alimentar as taças. E em mais do que um momento, pareceu-me que o jogo tinha pouco conteúdo.

Mario Kart World tem vários buracos que precisam de ser preenchidos e, mesmo que na sua maioria as coisas tenham melhorado, ainda há espaço para crescer como jogo. O mundo aberto é uma adição de grande respeito, mas podia ser ainda melhor e mais integrado com as corridas. Podíamos realmente terminar uma corrida e caminhar para a seguinte, sem passar por uma listagem de vencedores. Na verdade, podíamos fazer um conjunto de mudanças que tornariam este jogo ainda mais complexo. Agora, será que isso seria mais divertido?

Caos dos 24

Todos nós temos aquela ideia muito simpática de que Mario Kart é um jogo de caos, onde tudo pode acontecer a qualquer momento, certo? Agora imaginem isso a duplicar. Se antes ir a meio da tabela era uma luta intensa pela sobrevivência, agora tornou-se num completo pandemónio. O meio da tabela significa uma autêntica batalha campal entre todos os jogadores. Em segundos, passamos de um quinto lugar para o décimo oitavo e voltamos ao sexto lugar. Fica tão caótico que se torna altamente desafiante de superar aquele espaço aterrorizante. Mas sabem o mais interessante disto? Quando antes ficava frustrado, agora só consigo soltar umas gargalhadas quando estou lá no meio. É tão surreal o quão caótica cada corrida se consegue tornar, e isso torna tudo mais brutal.

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Luigi acelera em pista com design vibrante e retro, rodeado por outros pilotos e um cenário detalhado com edifícios e público.

Quem é que precisa de um modo de batalha quando basta deixarmo-nos ficar para trás para termos o verdadeiro combate das nossas vidas? Segue o conselho: quando fores em primeiro, nem olhes para trás. Segue só a tua viagem tranquila, que acredita… atrás de ti, e não muito longe, vem um enorme furacão de carros em constante combate, prontinho para te atirar lá para trás. É de uma violência inquietante e já gerou memes por essa internet fora. Aliás, nunca senti tanto amor-ódio espalhado pelas redes sociais num jogo da Nintendo como neste Mario Kart World. Talvez a única exceção tenha sido mesmo o último Animal Crossing, que também conseguiu causar este tipo de partilha desenfreada.

A “carapaça” no topo do bolo

Se há cereja — ou, neste caso, carapaça — necessária no topo do bolo, então aqui tem de ser o novo modo de corrida em eliminação. É quase impressionante como estou a dar destaque a um modo já clássico em tantos jogos de corrida. A verdade é que este modo, em Mario Kart World, não é em nada diferente do que tão bem conhecemos noutros títulos, mas o caos inerente a este jogo e a corrida desenfreada num trajeto que pode ir de uma ponta à outra do mapa tornam tudo mais divertido.

Porque deixei este ponto para o fim? Porque é exatamente aqui que acho a Nintendo brilhante. Todas as equipas da Fórmula 1 têm um teto máximo financeiro para gastar no seu carro e todas podem fazer a mesma coisa para se conseguir superar, gastando o máximo possível. Por vezes, há uma que se destaca em fazer algo tão óbvio, mas que ninguém pensou. Sim, este modo é um clássico em jogos de corridas, mas em Mario Kart parece ter um sabor especial. E é aqui, meus amigos… é aqui que a Nintendo se sobressai e torna o banal numa brilhante dose de diversão.

Colocar 24 pilotos a competir por chegar na melhor posição possível em cada checkpoint tornou-se no desafio da minha jornada. No principal desafio, devo dizer. Explorar o mundo aberto foi delicioso, fazer as taças foi, de certa maneira, nostálgico, mas explorar o modo de eliminação foi sem dúvida desafiante. Com as suas particularidades no gameplay, jogar em 150cc sem qualquer ajuda pode ser particularmente puxado. A forma como podemos utilizar os elementos do circuito e do que está ao seu redor tornam tudo mais caótico. Se estamos a jogar com um ás dos atalhos, podemos dizer adeus aos primeiros lugares. Se estamos a jogar contra a consola, então aí podemos ter uma chance… mas eles aceleram… e aceleram bem.

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Mario, Luigi, Donkey Kong, Peach e outros celebram no meio de um campo verdejante com os seus veículos fora de estrada. Momento descontraído com espírito de festa e amizade.

Até hoje, sempre senti um desafio prazeroso em fazer as três estrelas em cada taça. Algo que, para concluir em jogos anteriores, temos de conseguir ficando sempre em primeiro em todas as corridas de determinada taça. Nos 50cc e 100cc sempre se tornou relativamente fácil, mas nos 150cc parece que há sempre uma carapaça que chega no momento certo para atrapalhar. Eventualmente, lá concluía todas as taças. Não sei se o desafio aqui está maior, mas pelo menos inicialmente senti um pico inesperado em várias das primeiras tentativas — principalmente no modo de eliminação. E de repente, no meio deste desafio e na particular abertura de cada corrida, tudo se torna um possível atalho ou ponto de turbo.

No final das contas, é mesmo este o modo que mais preciso de destacar e é aqui que continuo a desafiar-me e a melhorar as minhas aptidões para conseguir vencer os meus amigos na próxima sessão aqui em casa!

O perfeito imperfeito

Mario Kart World é uma experiência sólida, que faz tudo aquilo a que se propõe, aprimorada até aos detalhes mais ínfimos e com potencial para criar grandes momentos da nossa viagem pelo seu mundo. É um jogo perfeito naquilo que nos introduz, numa fluidez de louvar e uma atenção aos pormenores que poucos conseguem oferecer. É o básico abrilhantado de uma maneira como só a grande empresa de Quioto tão bem sabe fazer. Mario Kart 8 demorou anos até se tornar um jogo perfeito. Até há relativamente pouco tempo, ainda se encontrava a receber novos circuitos para podermos explorar. É por isso que olho para este primeiro mês como muito promissor e com um potencial altamente risonho para o futuro.

No meio de todas as suas imperfeições e dos conteúdos em falta, o brilho necessário enaltece este jogo de forma um pouco inesperada. A sua perfeição surge de todos os componentes que fazem deste um título obrigatório no arranque da Nintendo Switch 2.

Mario Kart World consegue realmente reinventar a diversão? Pessoalmente, a experiência foi incrível e, numa franquia que não sabia o caminho a seguir, a Nintendo deu uma volta tão grande que é surpreendente. Conseguir reduzir em tanta coisa e, mesmo assim, apresentar um trabalho de um nível de qualidade impressionante. A Nintendo é uma empresa diferente nos dias de hoje, mas ainda muito agarrada ao seu passado e à forma como a cultura japonesa funciona — e isso tem levado muitos jogadores a arrancar cabelos com certas decisões. Com isto dito, é preciso olhar com especial atenção para as equipas que estão agora por trás do seu conteúdo, porque há muito talento escondido que está pronto para dar saltos gigantes e voltar a colocar a diversão nas vossas salas!

Se Mario Kart 8 Deluxe foi a consagração, Mario Kart World é o recomeço — imperfeito, sim, mas com um brilho que só a verdadeira diversão consegue trazer.

Mario Kart World

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Lançamento: 2025-06-06 Ano: 2025
Saga/Série: Mario Kart
Distribuição:
Estúdio:
Plataformas:
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Eduardo Rodrigues
Considero-me um geek da cabeça aos pés. Adoro uma boa leitura, apreciar a arte da BD e da Manga, ver de uma assentada aquela série ou anime incrível, ir ao cinema e devorar um filme e deliciar-me com uma aventura interativa nos videojogos e nos jogos de tabuleiro. Sou um adepto da mágica Briosa e um assistente fervoroso no estádio.

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