A menopausa:
“é o momento em que a mulher deixa de ter ovulações e ciclos menstruais, marcando o fim do período reprodutivo.”
“é um processo biológico natural da vida da mulher caracterizada pela cessão de produção de hormonas pelos ovários.”
“significa a interrupção da menstruação.”
“é apenas uma data, isto é, quando decorreram 12 meses completos sem a mulher menstruar.”
“cessam de forma permanente, deixando assim de poder engravidar.”
“o revestimento da vagina fica mais fino, mais seco e perde a elasticidade.”
Na verdade, a menopausa é muito mais do que isto, e Claúdia Raia representou-a excecionalmente na peça homónima. E sim, a atriz representou a menopausa e não diferentes tipos de mulheres testemunhas do evento. Todas nós somos distintas, os sintomas são/serão distintos, a nossa personagem pode ficar ligeiramente alterada e nesse período é a menopausa que comanda todo o nosso ser e mente. É um processo biológico complexo que envolve alterações hormonais profundas – particularmente diminuição de estrogénio – e que tem como consequência uma multiplicidade de sintomas físicos e emocionais. Ondas de calor, alterações do sono, mudanças de humor, dificuldades de concentração ou transformações na relação com o próprio corpo são algumas das manifestações prováveis, mas também se incluem perda de memória (névoa cerebral), dor intensa na relação sexual, incontinência urinária e osteoporose, risco aumentado de doenças cardiovasculares, entre muitos outros.
Refiro-me a uma peça de teatro, de comédia, musical, que encara abertamente temas que têm vindo a ser desvalorizados, desviados… tabu. Esta etapa inevitável na vida das mulheres, é aqui abordada com humor, leveza e veracidade, mas sem nunca perder tamanha relevância. O espetáculo faz um paralelo perfeito com factos científicos sobre as mudanças hormonais, físicas e emocionais que acompanham esta fase, mostrando que o conhecimento é a melhor forma de empoderamento.
A encenação merece destaque. Há nela um estilo muito brasileiro, facilmente reconhecível. Um certo exagero assumido, mas simples. E eficaz. Os cenários com cores expressivas, os brilhos, os figurinos cheios de personalidade e o jogo de luzes criam um ambiente quase festivo no palco. Esta hipérbole faz parte da identidade cénica e contribui para a energia contagiante da narrativa. Tudo parece pensado para amplificar emoções e tornar cada momento mais sublinhado, reforçando o carácter cómico e musical da obra. É um estilo que, decerto, envolve o público e transforma o plano num espaço vivo, cheio de ritmo e intensidade. O som não estava perfeito na sessão que assisti, um eco que parecia um playback em concertos. No entanto, tratava-se claramente de um problema técnico, que em nada diminuiu a qualidade da criação.

Vou poupar os elogios à atriz e ator, que os seus dons teatrais já são conhecidos do povo português. Contudo, quero destacar o papel do marido de Cláudia, ator em cena, Jarbas de Mello, que surge exibindo a importância do envolvimento dos homens na compreensão e apoio ao sexo feminino (não só as suas parceiras). Fá-lo como ator e como testemunha real de vários dos 150 sintomas associados à menopausa. É um lembrete de que assuntos deste âmbito não são exclusivos das mulheres – e a reação do público prova isso. Embora a temática atrai maioritariamente mulheres, havia muitos homens na plateia – atentos e rindo com empatia. No meu caso, foi até o meu pai que quis levar as suas mulheres e o meu marido também aderiu. Uma pequena amostra que o teatro consegue envolver diferentes gerações e sensibilizar de forma universal.
Correndo o risco de ser redundante, o poder da comédia é notável. Rir de situações injustamente dramáticas e constrangedoras, abre espaço para reflexão e para a identificação. A comédia tem essa capacidade rara. Permite enfrentar questões potencialmente dolorosos sem lhes retirar importância. Pelo contrário, ao provocar o riso, cria uma certa distância saudável que torna possível olhar para essas experiências com mais clareza. Rir é, sem dúvida, uma forma de aprender, e a levidade com que conteúdos como a menopausa, relacionamentos e autoestima são tratados torna o pensamento muito mais acessível.
O final da atuação foi para mim a grande surpresa. A cortina humorística fechou, dando espaço a uma conversa e a partilhas entre público e artistas. Criou-se um momento único, de empatia, conexão e de tal maneira confortável que houve quem desse os seus diversos testemunhos perante uma plateia de mais de 1000 pessoas. Não me canso de dizer – teatro não é mero entretenimento, é educação, acolhimento e transformação.
Saí da sala com uma sensação de alegria, mas também de inspiração. Inspiração para escrever este texto e inspiração para o futuro. Sendo eu uma mulher ainda longe deste processo, ajudou-me a re-olhar para o envelhecimento feminino com outra perspetiva. Menopausa não tem, nem deve, de ser ultrapassada sozinha.

Talvez seja precisamente esse o grande mérito desta criação – lembrar-nos que o envelhecimento feminino não deve ser considerado como um declínio silencioso, mas como uma etapa de transformação que merece ser compreendida, partilhada e até celebrada. Depois da menopausa, as mulheres podem ter cerca de mais 35 anos de vida. É um marco de mudança, não uma estagnação de vida. Ao trazer a menopausa para o centro da cena com humor e frontalidade, o espetáculo contribui para normalizar uma experiência universal e para quebrar o isolamento que muitas mulheres ainda sentem ao atravessá-la. Este projeto é sobre a vida, relações humanas e sobre rir mesmo quando a realidade pede choro.
Excelente escrita, encenação, elenco e equipa técnica. Menopausa é um projeto que merece ser visto não apenas pelo talento, mas pela coragem de desconstruir um tema fundamental com humor, sensibilidade e inteligência.