O mês de Abril é um dos meses mais importantes no calendário português! Contudo, para além do nosso grande 25 de Abril, também temos o dia Europeu da Solidariedade entre Gerações (29 de Abril). E para celebrar este dia, vamos falar de alguns livros que desafiam e exploram a relação entre diferentes idades.
Um dos primeiros pensamentos que nos vem à cabeça quando imaginamos uma relação entre duas pessoas com uma diferença de idade acentuada é a típica dinâmica de avô/ó e neto/a. No livro “A Troca” de Beth O’leary (2020), essa estrutura familiar funciona de forma central: uma avó e uma neta, separadas por quase sessenta anos, trocam de casas e rotinas, redescobrindo-se ao tentarem “calçar” os sapatos uma da outra, defendendo a ideia de que nunca é tarde para recomeçar. Em “Um Homem chamado Ove” de Frederick Backman (2012), a relação intergeracional surge de outra forma: Ove, um sénior rabugento e isolado após a morte da mulher e a perda do emprego, vê a sua vida perturbada por um jovem casal recém-chegado, com quem inicialmente só tem conflitos, mas que acaba por o “puxar” (lentamente) de volta para a comunidade. Mais do que uma simples história de vida, é um retrato de vizinhança, amizades inesperadas, respeito mútuo e do impacto profundo (e muitas vezes silencioso) que um ser humano pode ter na vida dos outros, independentemente da idade.



Em território Nacional, podemos explorar esta relação entre gerações, de um modo mais discreto, através do livro “A Maquina de fazer Espanhóis” de Valter Hugo Mãe (2010). A história acompanha o senhor António Jorge da Silva, um barbeiro de oitenta e muitos anos que, depois de ficar viúvo, é “largado” num lar de idosos. Ali a personagem sente-se “despojada” de identidade, reduzida a “mais um velho” e acaba por mergulhar num processo de revolta, amargura e reflexão sobre o que fez ao longo da sua vida. A dimensão intergeracional aparece sobretudo na relação entre residentes e alguns profissionais, que os tratam com maior respeito e empatia, em contraste com a frieza ou com o paternalismo de outros que os veem apenas como “corpos frágeis” para tomar conta. Esta “relação profissional” entre gerações, embora não seja o foco central da narrativa, ajuda a perceber o impacto profundo que o olhar, o cuidado e a humanidade dos mais “novos” podem ter na dignidade, na memória e na vontade de viver dos mais “velhos”, reforçando o papel indispensável da convivência intergeracional do quotidiano num lar.
E para concluir esta celebração do dia Europeu da Solidariedade entre Gerações, não podia deixar de falar num dos duos mais emblemáticos do cinema e também em literatura: “The Karate Kid”, conhecido em português como “Momento da Verdade” (1984). Todos conhecem o filme, mas poucos sabem que a relação do inesquecível mestre Miyagi e do “Daniel San” existe em livro, exatamente com o mesmo título e publicado no mesmo ano, por Bonnie Bryant. Este duo lendário é, sem duvida, um dos melhores exemplos de como duas pessoas, de gerações tão distintas, podem influenciar profundamente a vida uma da outra e deixar uma marca tão duradoura em várias gerações, seja através da leitura ou do(s) filme(s).


Para que a memória do Mestre Miyagi nunca se apague, existe ainda outra versão do “The Karate Kid” (2019), adaptada por Rebecca Gyllenhaal e ilustrada por Kim Smith, dirigida ao publico “mais pequenino”. Esta versão infantil destaca o valor desta relação intergeracional, mostrando como a figura do sábio simpático e mais velho pode ser um guia de sabedoria, equilíbrio e respeito, e como os mais novos trazem energia, curiosidade e vontade de aprender e explorar. Tanto do lado dos mais “novos” como dos mais “velhos”, há sempre espaço para aprender, melhorar e acima de tudo…ser feliz! Uma lição simples mas importante para a solidariedade entre gerações.