A Helena Rodrigues Galeria, recém-inaugurada, elegeu Minha Senhora, de Mim como título da sua primeira exposição, convocando diretamente o universo poético da autora Maria Teresa Horta e do livro homónimo (razão pela qual me desloquei à Galeria do Porto). Este manuscrito, publicado em 1971, foi um marco na literatura portuguesa pela afirmação frontal do desejo feminino, da autonomia do corpo e da recusa da moral patriarcal – temas que vemos com clareza na proposta curatorial –, bem como por ter sido uma das muitas obras censuradas pela PIDE durante o Estado Novo. Além da ameaça, feita à editora Snu Abecassis, de encerramento da Dom Quixote, a escritora foi pessoalmente perseguida, insultada e espancada na rua por três homens não identificados. Esteve presa durante 24 horas, as paredes de sua casa foram vandalizadas com dizeres ofensivos e recebeu telefonemas e cartas anónimas com ameaças.

Nesta minha análise, pretendo estabelecer um paralelismo literário entre as duas peças. Na produção textual, a mulher é o centro da narrativa dos poemas, sendo ainda o centro do desejo sexual, retirando a imagem como objeto do olhar masculino. Expressões de apropriação, como “meu corpo”, “minha senhora”, “meus braços” ou “meu peito”, são estratégias de linguagem que reclamam posse simbólica da própria identidade. A apresentação desloca essa lógica das páginas para o campo visual. A anatomia surge como território político e erótico simultaneamente, funcionando como espaço de tensão entre vulnerabilidade e força. O corpo não é idealizado, e sim ampliado ou sugerido, reforçando a ideia de que a figura feminina é um campo de disputa discursiva.

Nos poemas, o desejo feminino é afirmado de modo explícito. O programa expositivo transpõe essa herança para o presente. Não existe a mesma urgência política de censura, mas há ainda a necessidade de questionar normas, expectativas e formas de representação.
O facto de a exposição reunir várias artistas mulheres (Ânia Pais, Natacha Martins, Pereira Rute e Sofia Vermelho, curadora do projeto) introduz uma dimensão coletiva que também está presente no percurso de Horta. Foi inevitável recordar o contexto das “Três Marias” e das Novas Cartas Portuguesas, onde a autoria amplia a noção de “minha” para uma pluralidade de “nossas” senhoras de si.

Do ponto de vista técnico, a diversidade de meios (pintura, desenho, possivelmente instalação) contribui para essa pluralidade. Nas criações, o gesto é intenso e direto, quase visceral, aproximando-se da intensidade emocional que caracteriza a linguagem direta, sensorial, quase táctil da poetisa. A tinta, o traço ou a composição tornam-se equivalentes visuais da palavra afirmativa.
A maior força do dispositivo curatorial reside no modo como evita ilustrar literalmente o poema. Em vez de traduzir versos em imagens, apropria-se do seu gesto político e atualiza a pergunta central:
O que significa, hoje, ser senhora de si, possuir o próprio corpo, a própria imagem, a própria narrativa?
Se, na década de 70, essa pergunta implicava resistência frontal à repressão moral e política, atualmente convoca outras camadas: identidade, género, interseccionalidade e representação.

Não posso terminar sem referir a coragem deste grupo em assumir o risco do conceito (muito potente e historicamente carregado) de sobrepor-se à individualidade das artistas.
Minha Senhora de Mim afirma-se como uma exposição de continuidade histórica. Parte de um gesto literário radical de Maria Teresa Horta para pensar o presente visual. Tal como no livro, a questão central permanece a da autodeterminação — do corpo, da voz, da narrativa.
