O Monstra | Festival de Animação de Lisboa exibiu, no passado dia 18 de março no Cinema São Jorge, o filme franco-canadense A Morte Não Existe, na sua estreia em Portugal depois de ter estreado há quase um ano, em maio de 2025, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.
Escrito, realizado, produzido e montado pelo canadense Félix Dufour-Lapperrière, o filme parte de uma tentativa frustrada de atacar uma família rica, por parte de um grupo de revolucionários armados, e o seu impacto na personagem principal, Hélène, que, à última hora, foge e abandona os seus companheiros.
Costuma-se dizer que os primeiros dez minutos são suficientes para decidirmos se gostamos ou não de um filme. Erroneamente, pensei que neste caso bastassem os primeiros dois ou três, já que a sequência inicial, magistralmente construída, me fez pensar que talvez estivesse prestes a ver o meu filme favorito da Competição de Longas do Monstra 2026. Precipitei-me.
O que a sequência inicial faz é na verdade preparar-nos para um filme que está, efetivamente, magistralmente construído, isso não posso negar. Quando me pude dar ao luxo, ou quando o filme me deixou, focar apenas nas imagens, é impossível de negar a beleza impressionante com o que o filme nos confronta a cada plano que surge – e aqui é bom pensarmos nas diferentes conotações da palavra “impressionante”.
É de uma beleza impressionante pela animação, pela forma como mostra a natureza, tanto onírica como real, o jardim, os espaços interiores e o ambiente em torno das personagens, que se vêm camufladas ou confundidas nesse mesmo ambiente, pelo trabalho notável da cor e pela decisão de afastar delas qualquer possibilidade de uma “cor própria”.
É também de uma beleza impressionante pela forma como nos mostra, ou nos sujeita, à violência gráfica. Estejamos a falar da violência contra e entre seres humanos ou da violência contra e entre animais, se tivermos de definir este filme numa só palavra, uma das fortes concorrentes é “violência”. Tal como pode ser “culpa” ou “redenção”, temas que são ostensivamente abordados por entre a carnificina, muitas vezes gratuita e nada atenuada ou amenizada pelo facto de estarmos a ver uma animação e não um live-action, ao contrário do que poderíamos esperar. Não foram poucos os momentos em que me vi obrigado a desviar o olhar.

Por outro lado, se digo que o filme aborda ostensivamente os seus temas principais, é também porque não dá propriamente espaço a muita coisa além disso, estando tão profundamente entupido de diálogos. Essa necessidade incessante de conversa, sobrepondo-se muitas vezes a qualquer outra apreciação estética e insuflada pela sua autolatria e repetição, acaba por carregar demais o espectador e retirar momentos muito precisos de respiração e contemplação ao filme. Se disse que não foram poucos os momentos em que me vi obrigado a desviar o olhar, para suportar a violência gráfica, foram ainda mais os momentos em que dei por mim a tentar fazê-lo com os diálogos, a tentar desviar os ouvidos para, sobrevivendo ao texto, apreciar verdadeiramente as imagens – imagens essas que, além de belíssimas, como já referi, são muitas vezes mais do que suficiente para compreender a mensagem que o realizador nos quer transmitir, ou, talvez melhor ainda, para interpretarmos nós próprios os sinais que recebemos.
Num ano marcado por profundas convulsões políticas, em que tínhamos já recebido, como uma espécie de resposta ou reação aos nossos tempos, o último filme de Paul Thomas Anderson Batalha Atrás de Batalha, o Monstra traz-nos outra espécie de jornada de redenção e reflexão sobre a luta armada. No entanto, tal como o filme de PTA, o que recebemos não é muito além do superficial, cinematografica ou politicamente falando. Pelo menos aqui, temos um trabalho de animação digno da atenção de toda a gente. Vale sempre alguma coisa.