No ano em que se celebram 50 anos do seu lançamento, em 1976, o MONSTRA | Festival de Animação de Lisboa dedicou uma sessão ao clássico desconhecido Allegro non troppo, no dia 13 de março na Sala 3 do Cinema São Jorge em Lisboa, inserindo-o numa mini-retrospectiva ao realizador e animador italiano Bruno Bozzetto, que teve a sua continuação e conclusão com a projeção de 16 curtas-metragens no dia 17 de março na Cinemateca Portuguesa.

Este filme, que se assume como uma paródia descarada, ou, vá, uma reinterpretação pessimista do clássico da Disney Fantasia (1940), apresenta-nos uma série de pequenas sequências animadas acompanhadas por música clássica. Ou, na verdade, música clássica acompanhada por sequências animadas, entrecortadas com pequenos interlúdios cómicos envolvendo o animador das sequências, o maestro, o apresentador e uma orquestra de idosas.
O interesse desta “pérola escondida”, se a pudermos chamar assim, está, como seria de esperar, na animação. Mantendo o mote geral do Fantasia e até mesmo a premissa específica de algumas cenas – veja-se a repetição da evolução das espécies -, não deixam de ser sequências belíssimas e um trabalho de animação digno de nota. Neste sentido, há cenas verdadeiramente incríveis, como aquela onde vemos uma reinterpretação do mito de Adão e Eva, do ponto de vista da cobra, o que, por si só, já é um pormenor curioso, ou a já referida representação da evolução das espécies, aqui surgida como uma marcha hipnotizante começada a partir de uma Coca-Cola gigante e concluída pelo avanço destruidor do Homem, representado pela religião, pela guerra e pela hiper industrialização e urbanização.
E, falando nesta última, é de referir o que, para mim, é o fator que realmente distingue positivamente este filme do seu antecessor, e objeto de paródia: a sua consciência social, política e ecológica. Se, como mencionei acima, esta é uma reinterpretação pessimista do clássico da Disney, esse pessimismo vem precisamente pela sua visão anticapitalista do mundo. Todas as sequências animadas, sem exceção, são um alerta para os perigos do capitalismo, seja este representado por um casal de namorados que impede uma abelha de almoçar, pelos prédios que crescem descontroladamente e destroem habitats ou pelo Diabo que subjugaria Adão e Eva a uma vida de exploração se estes não fossem acidentalmente salvos pela cobra.

Onde é que o filme falha então? Para mim, falha na sua incapacidade de se tornar um objeto artístico próprio e de se afirmar além do seu estatuto de paródia anticapitalista de um filme da Disney. E aqui, os interlúdios com atores reais parecem-me apenas uma forma de trazer para a obra este tom cómico e de paródia, de forma a termos mais um fator de distinção que nos faça querer ver, ou nos lembre o porquê de estarmos a ver, este filme e não o original. No entanto, este segundo fator de distinção poderia ter funcionado melhor se estes interlúdios não fossem absolutamente insuportáveis e anticlimáticos. O seu tom de comédia barata e fácil destoa completamente do restante tom sério e crítico das cenas de animação, e, sendo muitas vezes demasiado longos, não foram poucos os momentos em que dei por mim a implorar para que acabassem.
Portanto, vale pelas sequências de animação belíssimas, muito interessantes e bem executadas e vale sempre pela consciência política e pelo anticapitalismo, mas perde imenso pelos interlúdios insuportáveis e pela sua incapacidade de ultrapassar o facto de ser uma paródia de um clássicos incontornável. Na verdade, vale mais do que tudo pela vontade que me deu de revisitar o Fantasia.