Como parte da competição de longas-metragens, o MONSTRA | Festival de Animação de Lisboa, traz-nos ChaO, uma das mais recentes obras do Studio 4ºC, um estúdio de animação mais “experiente” que “popular” – ou, pelo menos, não tão popular como alguns outros seus concorrentes -, que já nos tinha entregue obras tão díspares e diversas como o magnífico Memories (1995), encabeçado por Katsuhiro Ôtomo, ou Justice League: Flashpoint Paradox (2012), a adaptação cinematográfica da saga da DC Comics que deu origem aos New-52.
Realizado por Yasuhiro Aoki, um estreante a solo nas lides da longa-metragem de animação, mas com um currículo que vai desde Boruto (2017) até à antologia Batman: Gotham Knight (2008), este filme mostra-nos Stephan, um jovem engenheiro num mundo de convivência entre humanos, sereias e tritões, que se vê conduzido a um casamento com ChaO, uma princesa sereia, depois de supostamente lhe declarar amor eterno.
Esta premissa, mesmo que cativante, não é, sejamos honestos, a mais original e surpreendente. Já a vimos explorada, com premissas mais ou menos próximas, em tantas obras incontornáveis, sendo Ponyo à Beira-Mar (2009) a mais evidente. Ao longo do filme, vamos perceber esta comparação, referência ou homenagem, como preferirmos chamar, cada vez mais e mais evidente. No entanto, posso-vos garantir, a originalidade chega-nos rápido pela abordagem alucinada, no bom sentido da palavra, desta mesma premissa, numa loucura colorida que merece toda a nossa atenção.

Aoki pega nos mesmos clichés do velho conflito reino dos humanos-reino do mar, do drama ecológico que é tão antigo que já vem até de H. C. Andersen, e oferece-nos este caos organizado com um timing cómico irresistível que nos apanha desprevenidos. É um filme verdadeiramente engraçado e a Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge em Lisboa, provou exatamente isso. Quer queiramos quer não, todos nos rimos com personagens desastrado a cair à água ou com “bebés adultos” gigantes a passear de fralda. E nem vos falo do personagem que aparece só para tirar macacos do nariz.
Parece ridículo e infantil, eu sei, e efetivamente é. É uma comédia que não tem medo de ser infantil e ridícula, de recorrer aos pressupostos da comédia romântica. Veja-se o casamento que acontece mais por motivos egoístas do que românticos, o sogro intimidante e autoritária e toda a gama de coadjuvantes que só existe para convencer Stephan do seu amor por ChaO, para nos descontrair e, desarmados, nos confrontar com o luto e a amizade.
Isto tudo num sonho belissimamente animado, com uma animação surpreendente, se pensarmos que nos chega do homem que, entre outras coisas, animou o Cavaleiro das Trevas e o filho do Naruto, que mistura humanos, que em momentos nos parecem rabiscos e noutros caricaturas, com sereias e tritões, frutos de um character design que, de tão incrivelmente conseguido e capaz de inovar o próprio conceito de sereias e tritões a que já fomos habituados, é o principal ponto positivo do filme.
Tem os seus defeitos, sem dúvida. Se muitas vezes é capaz de subverter os clichés das comédias românticas, noutros não consegue evitar cair em lugares comuns sem realmente acrescentar algo de interessante. O exemplo do Ponyo não foi usado à toa. O filme envereda muitas vezes por caminhos formulados, que, pavimentados por nomes tão reconhecíveis como Hayao Miyazaki, só nos soam previsíveis e desnecessários.
De qualquer forma, esta é sem dúvida uma obra que merece a nossa atenção, seja para os fãs de animação, para os que procuram comédias diferentes ou para os obcecados com a Princesa Sereia, fartos de rever o clássico da Disney.