Incluído na competição de longas-metragens, o Monstra | Festival de Animação de Lisboa, exibiu o vencedor do prémio Goya para Melhor Filme de Animação, Decorado realizado pelo galego Alberto Vázquez, figura recorrente nas premiações do Goya.
O filme, co-produzido pela produtora portuguesa Sardinha em Lata, mostra-nos Arnold, um rato desempregado de meia-idade, que, cada vez mais paranoico, está convencido de que tudo à sua volta é uma simulação.
Como se pode esperar, este filme apresenta-se como mais um daqueles exemplos clássicos de comédias com animais antropomórficos que são tudo menos infantis e, começo por dizer, cumpre bem este seu propósito.
Tal como o canadense A Morte Não Existe, com estreia no Monstra e sobre o qual escrevi também, este filme abre com uma sequência de planos muito interessantes, que nos prepara muitíssimo bem para o resto do filme e nos transporta logo para o ambiente esquisito onde vamos estar pela próxima hora e meia, mostrando-nos, inclusive, elementos que só se vão resolver já o filme vai bem adiantado. No entanto, ao contrário do filme anteriormente mencionado, este consegue sustentar-se bem além da sua excelente sequência de abertura.

Esta é uma obra verdadeiramente engraçada, com um humor que é construído tanto por piadas “diferentes” e realmente inesperadas – veja-se a figura da sereia que às tantas aparece – como por outros que, não deixando de ser engraçadas, não são muito além do expectável. Além disso, é um filme que nos faz rir muito com a mesma eficácia com que nos deixa constantemente preocupados e em alerta. Não demora muito até que deixemos de ver Arnold como paranoico e passemos a encara-lo como o único não alienado de toda a cidade e o filme cria momentos de suspense que nos vão, aos poucos, confirmando esta ideia.
Neste sentido, a animação é um ponto positivo do filme. Se o estilo é “infantilizado” ou “fofinho”, o contraste chega por estes tais momentos e elementos de suspense, como a coruja gigante que se afirma como um medo omnipresente e verdadeiramente aterrador, e pela crítica ao capitalismo e à alienação coletiva que vai dominando e que motivou toda a narrativa. Como o próprio realizador disse, no início da sessão, o objetivo sempre foi recorrer a animais antropomórficos como meio para crítica social.
A crítica, no entanto, não é a mais interessante do mundo, e muito menos a mais inovadora. Não se pode dizer que a ideia da realidade como uma simulação ou como um set, revelação que poderia ter ganho um bocadinho mais de interesse se o título do filme não a tivesse revelado logo à partida, é particularmente original. É um tema já mais do que trabalhado e a abordagem que Vázquez nos traz destaca-se em muito pouca coisa. Neste sentido, um final claramente criado para ser o clímax do filme e para nos deixar impactados a remoer sobre o que acabamos de ver, não afeta, é só uma sequência para a qual já estávamos preparados.
Portanto, esta nova produção que o Goya considerou o melhor filme de animação de 2025, fica-nos menos pela pretensão de crítica social com animais fofinhos (mais uma vez, uma abordagem não particularmente inovadora), e mais pelas boas piadas que, não poucas vezes, fizeram a Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge rir quase em uníssono.