Um professor russo documenta clandestinamente como uma escola rural em Karabash, na Rússia, se converte lentamente num centro de recrutamento durante o conflito na Ucrânia, expondo a máquina de propaganda do presidente Vladimir Putin e do seu governo.
Mr. Nobody Contra Putin funcionaria perfeitamente como uma sátira de humor afiado à la “Jojo Rabbit” (2019), se não fosse pelo simples facto de se tratar de um documentário, narrado por Pavel Talankin, uma pessoa real, de carne e osso; sobre a situação de milhares de crianças reais, que subitamente se vêem parte de uma campanha de brainwashing massivo, coordenada por pessoas reais e liderada por um indivíduo que por, muito que nos custe a acreditar, também ele é real, de carne e osso – Putin. Talakin, um professor e coordenador de eventos de uma escola em Karabash, aproveita-se da sua privilegiada situação de poder documentar o que vê sem ser julgado por ter uma câmara na mão, para nos mostrar como realmente funciona a Rússia de Vladimir Putin, que já não era perfeita, mas que pior ficou depois da eclosão da guerra na Ucrânia em 2022.

O documentário é inteiramente narrado por Pavel, que recebe créditos de co-direção e de direção de fotografia (justíssimo tendo em conta que foi ele quem captou praticamente todo o material). No entanto, o que nos prende é a forma como o faz. Com o seu tom de troublemaker, atrevido, mas gentil e atencioso o suficiente para nos fazer duvidar que tal pessoa se sujeitaria a qualquer confusão. E a verdade é que funciona na perfeição. O diretor tem o cuidado suficiente para, apesar da natureza um tanto quanto eticamente questionável no que toca ao modo como este conseguiu as filmagens, mostrar-se extremamente cuidadoso ao não retratar quaisquer dos envolvidos como absolutamente contra ou a favor do regime, acabando por não retratar ninguém como imoral ou irremediável. Mesmo a figura mais contestável, um professor de História que orgulhosamente cita nomes de assassinos russos como os seus heróis, mais tarde recebe um close-up de uma ou duas lágrimas que lhe descem a face na cerimónia de formatura da escola, muito provavelmente porque este sabe que dentro de semanas muitos daqueles alunos poderão estar a ser recrutados para um cenário de guerra. Desta forma, todos os envolvidos no projeto tentam fazer o que podem para proteger todos os retratados que não tiveram a mesma sorte de Talakin e que ainda se encontram na Rússia aquando do lançamento do filme.

Mr. Nobody Contra Putin não se trata de recrutar jovens para um conflito, trata-se sim de uma dura realidade de um governo que obriga profissionais da educação a mentir e a manipular crianças para que estas acreditem que não existe propósito maior na vida do que batalhar pela pátria e que, na eventualidade de uma morte, esta representará algum tipo de imortalidade. É um documentário cru, profundamente perturbador e retrata em primeira pessoa a megalomania de Putin que acredito que as pessoas imaginem, mas que nunca pensaram ser assim.
Quero, para finalizar, deixar uma pequena nota para o nome que torna tudo isto possível: Pavel Talankin. É graças a ele que Mr. Nobody Contra Putin está disponível para o mundo – graças a um cidadão russo. Um professor que orgulhosamente exibia uma bandeira a favor da democracia no seu escritório. Alguém que nutria o interesse dos seus alunos e a ideia de que estes podiam ser alguém além de meros peões irracionais. “Pasha”, como carinhosamente o chamam os seus amigos, fugiu da sua terra natal, abdicando da sua profissão e escolhendo viver em sigilo. Tudo isto visando expor ao mundo a situação da Rússia e propagar a mensagem de que ele próprio se torna símbolo: no final do dia, todos são humanos. Que as suas escolhas de vida e a sua arte ditem os julgamentos que se tecerão sobre ele, e não o local que consta na sua certidão de nascimento.