Certo dia, Rafiki (John Kani), o sábio macaco, decide contar a Kiara (Blue Ivy Carter), filha de Simba (Donald Glover) e Nala (Beyoncé) a história do seu avô, o rei Mufasa (Aaron Pierre) – um leão órfão que vê o rumo da sua vida mudar completamente após conhecer Taka (Kalvin Harrison), o herdeiro do rei Obasi (Lennie James). Este encontro marca o início da jornada dos dois leões em direção ao desconhecido, procurando desvendar o que a ironia do destino teria guardado para ambos.
“O Rei Leão”, de 2019, nasceu com uma missão ingrata – recontar o que é para mim, e será para muita gente também, a melhor longa-metragem de animação já feita. Quando foi anunciado que recriariam o mundo de Simba e companhia através de um CGI extremamente realista, parecia-me que dificilmente daria certo. E infelizmente estava, parcialmente, correto. O filme de 2019 tem vários problemas, nomeadamente o facto do extremo realismo entrar constantemente em conflito com as expressões faciais dos animais, naturalmente menos expressivas, quando na animação original, de 1994, os leões são representados com características humanas. No entanto, “O Rei Leão”, de 2019, faturou mais de mil milhões de dólares e a Disney não perdeu a oportunidade de fazer uma prequela.

Por outro lado, “Mufasa: o Rei Leão” (2024) não tem qualquer tipo de exigência preconcebida. Apoia-se, em partes, em materiais como “O Rei Leão 3 – Hakuna Matata” (2004), justamente por serem Rafiki, Timon e Pumba a contar a história ao espectador, muitas vezes quebrando a quarta parede, mas apresenta-nos uma história original deste universo o que, na minha opinião, foi algo muito positivo que acabou por me surpreender. Para melhorar a experiência, as expressões dos animais aqui são melhor conseguidas, apostando em traços mais humanos – nos leões principalmente – o que, ainda que não me seja completamente credível ver um leão extremamente realista a cantar, torna a experiência mais agradável.

A banda sonora fica a cargo do experiente Lin-Manuel Miranda, que faz, na minha opinião, um excelente trabalho, ainda que não se equipare à música do filme original. A fotografia de James Laxton e a realização de Barry Jenkins tornam a obra leve e muito bonita mas é o argumento de Jeffrey D. Nathanson que é uma verdadeira carta na manga. Se na longa-metragem de 2019, uma das principais críticas ao seu argumento foi a de arriscar pouco, aqui, é justamente o contrário: o argumento é criativo, não se torna repetitivo e brinca com as nossas expectativas ao revelar-se uma surpreendente metáfora para o destino, abordando temas muito importantes.
“Mufasa: o Rei Leão” representa uma melhoria significativa no quesito qualidade e criatividade, em relação à longa metragem de 2019. Ainda que não chegue perto da obra original e que nos obrigue, enquanto espectadores, a mergulhar em algo que me continua a parecer pouco credível, a parceria Jenkins/Nathanson funciona, transformando “Mufasa: o Rei Leão” num filme agradável, para toda a família, que me transportou novamente para este mundo nostálgico. E desta vez de uma forma que me agradou muito mais.