“se é para dar à liberdade apenas uma morada, que seja a da nossa boca.”, p65
A força da simplicidade e da economia narrativa
Nem Todas as Árvores Morrem de Pé é uma daquelas estreias literárias (estreia no mundo ficcional de adultos) que desarmam preconceitos. Vivemos numa época em que muitos romances parecem competir entre si pelo tamanho, pela complexidade estrutural ou pela quantidade de subtramas. Luísa Sobral prova que não é preciso construir um labirinto narrativo para criar uma estória devastadora. Basta saber contar. E ela sabe.
Já conhecíamos a Luísa como uma extraordinária compositora e letrista, alguém capaz de condensar sensações intrincadas em poucas palavras. Este volume confirma que essa capacidade não é exclusiva da música. A intérprete parece pertencer à rara categoria dos artistas de múltiplas linguagens.
A criação distingue-se sobretudo pela sua economia narrativa. Em vez de recorrer a artifícios pós-modernos, múltiplos níveis de metaficção ou construções excessivamente elaboradas, aposta numa conceção emocionalmente transparente, porém, nunca ingénua. O resultado é um manuscrito que demonstra uma compreensão muito madura de um princípio fundamental da teoria literária – a complexidade temática não exige complexidade formal.
O olhar íntimo sobre a História e a musicalidade da prosa
O enredo percorre algumas das décadas mais traumáticas da história alemã, desde a ascensão do nazismo, a versão comunista, até às consequências da divisão entre as duas ‘Alemanhas’. Contudo, o foco nunca está nos grandes acontecimentos históricos em si, mas no impacto íntimo e silencioso que estes exercem sobre vidas individuais. É um excelente exemplo de como a micro-história pode ser mais poderosa do que a grande narrativa histórica.
A escrita da Luísa apresenta uma característica particularmente interessante, uma espécie de lirismo contido. A sua prosa nunca procura impressionar pela ornamentação. Há uma musicalidade evidente no ritmo das frases, o que não me surpreende vindo de uma cantautora, e essa musicalidade está ao serviço da ficção e não da exibição estilística. O texto possui uma fluidez rara que transforma um romance com temas pesados numa leitura compulsiva. Vários críticos destacaram precisamente esta combinação entre simplicidade aparente e profundidade comovedora.
“Deste episódio guardo apenas a descoberta de que a vergonha é salgada.”, p55
Da canção ao romance: a génese de uma história necessária
Talvez o maior mérito do livro seja desafiar o status quo de uma certa literatura contemporânea que associa qualidade à dificuldade. Nem Todas as Árvores Morrem de Pé demonstra que acessibilidade não é sinónimo de superficialidade. A clareza da escrita amplifica o impacto emotivo. Quando o texto nos magoa, fá-lo sem truques. Quando nos comove, fá-lo porque as personagens são humanas e credíveis, não porque a autora manipula artificialmente a desordem.
Há também uma interessante coerência entre a génese da obra e o resultado final. Em várias entrevistas, Luísa Sobral explicou que a história nasceu de uma notícia real sobre um casal alemão que decidiu terminar a vida em conjunto. Inicialmente, inspirou a canção Maria Feliz, no entanto, a escritora sentiu que a ideia continuava a crescer dentro dela e exigia um formato mais amplo. Como afirmou, foi uma história que “quis ser escrita”. Essa origem ajuda a compreender a autenticidade comovedora do romance. Há uma sensação constante de necessidade narrativa, como se a criadora estivesse a seguir as personagens e não a forçá-las.
Uma arquitetura narrativa inteligente e viciante
Existe uma tendência para dar densidade psicológica a personagens secundárias e neste livro senti que a densidade, tempo de exposição e número de falas dessas personagens foram bastante equilibrados. Não fiquei com o sentimento de “falta qualquer coisa”. O mesmo para transições temporais. Sim, algumas acontecem com uma certa rapidez, mas isso não reduz, de todo, o potencial dramático de determinados acontecimentos. Pelo contrário, acho que é o que distingue. Poderia correr mal, contudo, a Luísa soube utilizar essa simplicidade.
Quando o enredo se insere em factos históricos, há uma tendência para esperar uma exploração histórica mais ambiciosa ou de uma maior complexidade estrutural. Sobral privilegia sempre a emoção sobre a experimentação formal. E, mais uma vez, fá-lo muito bem.
Outro aspeto interessante nesta obra, embora não inovador, porém, que me fascina sempre que o observo, é precisamente a forma como a letrista constrói o fio condutor através de diferentes tempos, vozes e perspetivas. Permite que a autora revele a história de forma gradual, respeitando a inteligência do leitor e potenciando o impacto afetivo das revelações. Trata-se de uma arquitetura narrativa cuidadosamente pensada, onde a memória, a identidade e o peso da História se entrelaçam sem nunca comprometer a fluidez da leitura.
Num panorama literário onde tantas obras parecem preocupar-se em deslumbrar, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé destaca-se pela capacidade de impressionar sem truques. É um projeto que encontra força na humanidade das suas personagens e na honestidade da sua escrita. E isso, por vezes, vale mais do que qualquer demonstração de complexidade. Li o livro em poucos dias, de tão viciada que estava. Obrigada, Luísa, por seres uma artista que se recusa a ser definida por um único ofício e por saberes onde plantar as palavras.