Junção Diabólica
Ninja Gaiden está de regresso a dobrar neste 2025. Tivemos há pouco tempo o retorno às origens 2D da famosa saga, e agora o quarto capítulo da evolução 3D que se iniciou na Xbox. Não esquecendo que no arranque de 2025, tivemos ainda o regresso do segundo jogo da saga 3D na sua edição Black. Um ano positivo para os fãs. Uma saga que marcou a história pela sua dificuldade e por se construir em torno da ação frenética. Monstros, demónios, figuras completamente oriundas de uma realidade paralela e ninjas. Há algo mais perfeito? Julgo que não. A Tecmo iniciou esta aventura nos anos 80, mas é com a criação de uma divisão dirigida por Tomonobu Itagaki, que recentemente nos deixou, que a saga acaba por ganhar a sua maior fama. Colocando o jogo num formato 3D que resultou e deixou uma marca para o futuro desta série.
Um pouco como os jogos de combate, que aliás a Tecmo Creative #3 (conhecida oficialmente como Team Ninja) foi exatamente criada para desenvolver, Ninja Gaiden em 3D vai beber dessa escola, colocando várias versões do mesmo jogo ao longo dos anos com melhorias significativas. Ora vejamos: Ninja Gaiden levou a Ninja Gaiden Black, que levou a Ninja Gaiden Sigma, que posteriormente teve ainda direito a Ninja Gaiden Sigma Plus. Tudo isto é apenas o primeiro jogo. O segundo teve um tratamento igualmente curioso, com Ninja Gaiden II a ser seguido de Ninja Gaiden Sigma 2 e, este ano, com Ninja Gaiden 2 Black. Por último, o terceiro capítulo teve Ninja Gaiden 3 e Ninja Gaiden 3 Razor’s Edge. No final das contas, o melhor a fazer antes de partir nesta nova aventura, caso queiram explorar o que está para trás, é jogar Ninja Gaiden Black, Ninja Gaiden 2 Black e, por fim, Ninja Gaiden 3 Razor’s Edge. Com estes três estão prontos para a aventura. É estritamente necessário para desfrutar do quarto capítulo? Sinceramente, não em termos narrativos, mas tornará tudo mais apetecível.

Direção da série
Ninja Gaiden 4 é o primeiro a transportar-se numa direção inédita para a sua produção. Tal como aconteceu com Bayonetta, a Koei Tecmo entregou a distribuição de Ninja Gaiden 4 à Xbox Game Studios e o desenvolvimento foi dividido entre a Team Ninja e a PlatinumGames. A verdade é que o ADN das duas empresas é muito semelhante e o anúncio desta colaboração podia ter alguns desfechos complexos. Podíamos ter aqui uma completa mixórdia de géneros que se anulavam ou, então, o cocktail perfeito para a noite perfeita. Não posso dizer já que as duas empresas falharam ou acertaram, mas com certeza posso dizer que trabalharam para desenvolver este jogo no seu melhor estado possível.
Importante ressaltar que houve uma entrevista ao PC Gamer, que indicou que a PlatinumGames é a responsável pelo desenvolvimento do jogo, enquanto a equipa da Team Ninja trabalhou no balanceamento e design, de forma que a essência de Ninja Gaiden não se perdesse. Desta forma, conseguimos ter um jogo com um estilo de combate familiar e frenético, aliado ao design de personagens característico da Platinum, enquanto se misturam movimentos mais técnicos, a dificuldade e as características que fazem deste um título Ninja Gaiden.

O primeiro Ninja Gaiden que me aventurei foi o terceiro capítulo na Wii U, com o lançamento de Razor’s Edge, inicialmente exclusivo daquela consola, mas que eventualmente teve versões para outras consolas mais recentes. E como quem já me segue há algum tempo pode saber, sou um grande fã dos trabalhos feitos pela PlatinumGames, principalmente pelo seu estilo de jogo e pela forma como colocam o jogador num desafio interessante, mas não frustrante. A fusão do ADN destas duas empresas é, à partida, aliciante. Assim, a minha entrada neste jogo transformou-se de curiosidade para um desejo forte de avançar em cada capítulo, mesmo tendo de suar a cada grande batalha.
Diversão e dificuldade
O jogo é difícil. É um facto. Não há nada que se possa fazer quanto a isso? Podem muitos de vocês estar a perguntar. Sim, há. Não estamos perante um jogo da FromSoftware, mas estamos perante um título que sempre colocou em cheque a experiência do jogador. Neste quarto capítulo, temos várias opções de o jogo continuar desafiante, mas relativamente mais acessível para jogadores que não queiram passar por frustrações. Falando em nome próprio, sou um jogador que gosta do desafio e da gratificação de passar por um mau bocado, mas não gosto de ficar preso infinitamente num local, principalmente num jogo tão frenético como este.
A verdade é esta: soulslike são tipicamente mais pesados em movimentos e, apesar disto não ser regra, na ação de um Bayonetta, Devil May Cry ou Ninja Gaiden, prefiro aventurar-me num desafio mais gratificante e menos frustrante. Ninja Gaiden 4 permite explorar opções para adaptarmos a forma de jogar e tornar a aventura um momento divertido e entusiasmante. Com um tempo de jogo razoável e uma aventura linear na sua essência, a dificuldade pode proporcionar mais horas de jogo e de ganhar experiência com a imensidão de combinações que nos são colocadas à frente.
As ações são muitas e dividem-se em várias armas e estilos de combate, colocando alguns botões à disposição que permitem realizar imensas manobras que nos concedem pontos e nos permitem evoluir ao longo do jogo. Quanto mais poderosos, teoricamente mais fácil o jogo se torna, mas na realidade continua a ser uma explosão de dificuldade a cada capítulo terminado e, mesmo sabendo mais, o jogo continua a evoluir de forma gradual para que a dificuldade esteja sempre presente. E acreditem, mesmo para os jogadores menos experientes, o nível de dificuldade mais baixo tem a sua cota de desafio nos grandes vilões de fim de arco.
Mais uma vez, gostaria de realçar e deixar bem claro que Ninja Gaiden 4 está apetrechado de um conjunto de opções de acessibilidade que permitem melhorar a experiência de qualquer jogador, tenham ou não algum tipo de incapacidade. Até as cores dos objetos do jogo são passíveis de mudança!
O amarelo está de regresso
Falando em cores, é impressionante como ainda não se encontram formas mais criativas de indicar o caminho ao jogador. Os materiais amarelos, chamativos ao olhar por fugirem completamente das tonalidades do restante cenário, continuam a ser utilizados em excesso para progredir na aventura. Compreendo que, neste título, a ação dos combates esteja em primeiro plano e a jornada entre cada combate seja secundária, mas com tão pouco de exploração e com um caminho tão linear como este, acho que poderia ter sido feito um trabalho mais interessante nesta questão. Estes objetos amarelos já são alvo de discussão há imensos anos, mas continuam a marcar presença em grandes licenças, principalmente em jogos deste estilo.

Não, nós não somos assim tão alienados de tudo que não consigamos perceber que o único buraco na montanha na zona onde estamos seja o caminho para onde temos de seguir, principalmente quando temos um indicador que podemos ativar para ajudar a perceber para onde ir. Não me quero alongar muito neste tópico, mas tinha de o referir. Contudo, deixo também o apontamento que podem alterar esta cor e torná-la mais natural ao ambiente. No final das contas, este é apenas um dos problemas encontrados na beleza que é jogar Ninja Gaiden 4.
Igual… igual… igual…
Há alguma coisa nos inimigos deste jogo que me deixa frustrado. Não sei se é o facto de haver um combate a cada esquina, sem grande espaço para descansar os dedos, ou se é simplesmente o facto de, durante uma área do jogo que se pode alongar por quatro ou cinco capítulos, estarmos presos a tipos de inimigos que se vão repetindo constantemente. Sim, é algo que nestes jogos se torna “normal”, mas aqui senti que estava num certo exagero desmedido. Novamente, posso ter ficado com essa ideia derivada da forma como a ação acontece: jogo linear, sem espaço para exploração e em que quaisquer três ou quatro saltos no cenário levam a um novo campo de batalha. E quando não estamos a derrotar inimigos, temos um momento de movimento frenético, onde há tantos obstáculos que não nos podemos distrair dois segundos.
Esta forma frenética de nos colocar na ação leva a uma sensação de repetição que rapidamente se tornou irritante. Mas, como geralmente há sempre dois lados da moeda, do outro lado, esta velocidade no combate e a movimentação rápida entre zonas colocam-nos rapidamente no local onde o capítulo termina. E quando digo rapidamente, é coisa para nos gastar cerca de uma hora em cada um dos capítulos, ou até mais, dependendo das formas mais atrozes com que destroem os vossos inimigos ou são igualmente destruídos. Mesmo assim, é de reforçar esta pouca distinção de inimigos num capítulo onde encontramos vinte zonas de combate e todas elas são semelhantes, com exceção da quantidade e de um ou dois inimigos que se vão destacando.
Essência garantida
Compreendo que esta questão dos inimigos pode rapidamente deixar de ser uma não-questão, quando partimos da ideia da essência que este género de jogos tem. Ou seja, que é algo habitual e que eu, até já tendo jogado vários e gostando do género, devia estar mais habituado a isto. O que me leva a concluir que o verdadeiro estilo da franquia está presente neste quarto capítulo e que, do princípio ao fim, nunca me tirou o prazer de trucidar de formas completamente tresloucadas os meus inimigos. As diferentes armas que vamos conseguindo enquanto avançamos na aventura, aliadas a poderes que conseguimos adquirir, transformam aquelas armas letais em autênticas máquinas de carnificina.

Ninja Gaiden 4 é violento em níveis extremos. A atenção é necessária em todo, e qualquer segundo prende o jogador do primeiro ao último minuto. Épico nas batalhas com os principais vilões e capaz de nos fazer suplicar por mais rapidez na execução dos combos que nos levam à glória. Acreditem, quando os conseguimos encaixar, são de uma satisfação desmedida, e é bonito ver o nosso personagem a desmembrar cada inimigo presente no ecrã. Julgo que este capítulo da saga, há demasiado tempo silenciada, chega com toda a essência que ela merece, podendo provavelmente colocar este universo novamente nas conversas dos jogadores.
Narrativamente falando
Mesmo com toda esta ação e inimigos saídos das escolas da PlatinumGames, existe ainda espaço para nos contarem uma história. Uma história que, no final das contas, é relativamente simples, mas tem apontamentos que se destacaram de forma demasiado evidente para não os trazer para aqui. Seja nas sequências habituais de cutscene, ou nas conversas com os nossos fiéis companheiros que vão estando presentes aqui e ali, há sempre um momento que me fez esboçar um sorriso ou embrenhar ainda mais na história.
Referências ao passado vão surgindo nos momentos mais oportunos, mas é a forma natural dos criadores saberem que isto é uma franquia com uma base sólida, colocando falas certeiras que chegam depois de nos questionarmos… este jogo está a ir para um caminho inesperado, não está? E é mesmo aqui que eles sabem onde colocar aquele momento no guião que nos vai responder, dando a sensação de que nos conseguem ler a mente… Acho que ainda não chegámos ao momento daquele anúncio da PlayStation 9. Lembram-se?
Mas o jogo tem essa forma caricata de contar a história, colocando chavões em momentos certos e oportunos, clicando no jogador uma experiência agradável e funcional para o que está a ser contado. Achei hilariante e brilhante a forma como conseguiram tornar cativantes momentos de uma história que podia acabar sem grande sal.
Perfeição nas coisas certas
Ninja Gaiden 4 não é um jogo perfeito, mas não se esconde daquilo que tenta ser. O regresso desta franquia foi feito com mestria e, mesmo com os seus vários problemas, oferece uma experiência fluida, divertida, desafiante e, principalmente, foi capaz de me fazer voltar a mais um jogo de ninjas e ficar agarrado do princípio ao fim. E este ano estamos carregadinhos destes jogos. Gostei imenso da experiência, nunca me deixou sentir frustrado, mesmo quando parecia que se encaminhava para esse lado, uma afinação ali e acolá nas opções resolveu rapidamente.

É um título para todos os jogadores, sim… mesmo o pessoal mais novo que já tenha a destreza para este tipo de jogos. Mas tu disseste que isto é violência em extremo lá em cima! É verdade, mas é possível diminuir o nível de gore, tornando-o mais amigável a idades menores. De qualquer forma, deixo à consideração de cada pai verificar o jogo antes de o entregar a alguém com uma idade mais baixa. Não me responsabilizo, ok? Ninja Gaiden 4 é um título fácil de aprender, mas complexo para dominar. Independentemente do nível de dificuldade, é a estrutura de combate, quase ao nível de um jogo do género de luta, com uma imensidão de combinações diferentes entre um número reduzido de teclas, que torna este jogo mais técnico e menos “destruidor de botões e comandos”.
A PlatinumGames está de parabéns por conseguir construir este título com os desafios inerentes, sem que perdesse a essência conquistada pela Team Ninja e, por outro lado, a casa-mãe não deixou o seu filhote tresmalhar por caminhos nunca antes navegados. É um excelente quarto capítulo e espero sinceramente que consiga cativar-te como me cativou a mim, pois significará que, provavelmente, daqui por algum tempo possamos estar a conversar sobre como este jogo conseguiu reconquistar os fãs da franquia, mesmo sem reinventar a roda, mas com a solidez de um bom jogo.