Fogo que arde sem se ver?
Um mês passou-se desde que tive a oportunidade de experimentar Nocturnal. O pequeno vislumbre a que tive direito, deixou-me uma chama bem acesa e com vontade de explorar tudo o que Nahran, a ilha onde esta história tem lugar, tinha para oferecer. Agora que chega às mãos de todos nós a aventura completa, será que isto é “fogo que arde sem se ver”?
A primeira hora de jogo acaba por ser tudo aquilo que já tinha experimentado previamente (que podem relembrar aqui). O combate era competente, a exploração reduzida mas dá espaço para recompensas significativas na evolução de Ardeshir, o nosso personagem, e visualmente tem uma personalidade bem demarcada, o suficiente para se destacar dos demais.
A partir daí é que começa a verdadeira prova de fogo.
Uma das coisas que mais contava encontrar era uma evolução de habilidades mais significativa. Podemos aumentar a duração que a chama fica na nossa arma, aumentar a nossa vida e temos uma habilidade adicional para combate que podemos desbloquear. Isto poderia ser mais do que suficiente, e foi, mas sem mais armas ao nosso dispor, e sendo o fogo peça central de Nocturnal, havia bem mais que poderia ser feito para dar ao jogador mais liberdade no combate.
Para não deixar a pairar no ar o que podia ser facilmente feito, tendo em conta o tamanho da equipa que não chega a uma dezena de membros, era tão simples quanto adicionar bolas de fogo que poderiam ser consideradas granadas, ou a habilidade que desbloqueamos poderia ser doseada em vez de ser sempre a carga máxima do ataque. Visto termos um contador para a duração da chama, não me parece totalmente descabido. Em vez de uma só espada, poderíamos ter duas adagas que davam menos dano, mas atacavam mais rápido. Se existe uma opção de esquivar, deixem-me desbloquear a possibilidade de dar algum dano a cada inimigo que se cruzar comigo enquanto me esquivo. Algumas destas coisas, e outras tantas que poderiam ser mencionadas, nem implicavam grande desenvolvimento. Fica a dica.
A nível de exploração também pouco, ou nada, foi aprofundado. Ficou-me a faltar desbloquear três blocos da minha árvore de habilidades. Tendo em conta que podemos acumular pontos a destruir objetos em jogo e no combate, os puzzles e locais secretos que me ficaram por descobrir foi um ou dois, na pior das hipóteses. E foi raro aquele que tive de procurar, por norma cruzava-se naturalmente no meu caminho.
Mas o que tem Nocturnal para oferecer?
Acho que este título está mais focado naquilo que quer contar, ou no sentimento que quer passar ao jogador, não tanto na complexidade e dedicação que possa existir na jogabilidade em si. Talvez funcione mais como amostra de como o estúdio se quer posicionar, em cimentar a identidade da Sunnyside Games e, eventualmente, com o crescimento que possam vir a ter, explorar novas possibilidades que possam incluir uma jogabilidade mais aprofundada.
Mas nesse aspeto, não acho que tenham feito um mau trabalho. Tal como disse, olhando para Nocturnal podemos facilmente perceber que tem uma identidade própria, reminiscente de outros tempos e de outros títulos, mas que continua a ser fiel a si mesmo. Há momentos em que a direção artística realmente brilha e nos enche a vista.
A história em si, ainda que mais simples do que esperava, foi bem conseguida e a demanda de Ardeshir em salvar a sua irmã é sem dúvida algo que nos puxa a progredir no jogo. Esta é muito bem acompanhada de uma banda sonora incrível, que sabe exatamente quando entrar e quando adicionar valor ao momento.
Infelizmente, acho que pecaram em não ter dado mais espaço a isso mesmo, ao desenvolvimento da história, em haver mais algumas dinâmicas com o nosso personagem, as poucas que existiram foram boas, e talvez valesse a pena isso ser ainda mais explorado. Acho que os momentos finais poderiam ter conseguido ser ainda mais impactantes havendo esse desenvolvimento, e por “consequência” o jogo poderia ter sido mais longo. Se há quem aqui procure algo para alguns dias de diversão, vão ficar surpreendidos por conseguirem terminar o mesmo em pouco mais de duas horas e meia.
É um bom começo para este estúdio que se aventura com algo novo agora fora do mercado móvel. Já o tinham feito anteriormente mas era apenas a sequela de algo já lançado nas plataformas móveis. Este é o primeiro título que se espera ser mais sério e maduro (tanto a nível de teor como de desenvolvimento), e apesar de não ser um passo certo e confiante, é um primeiro passo que não envergonha e os coloca num bom patamar para surpreenderem daqui para a frente.