Já há muito tempo que não ficava feliz com o meu país… Até que na última semana descobri como Portugal contornou uma importante questão de machismo em 1998. Trata-se de uma questão de machismo que envolve uma das grandes estreias cinematográficas desse ano.
Ainda hoje quando estou desanimada com o meu país, comigo mesma, ou com o mundo, quando preciso de força para continuar um trabalho, ou lavar a loiça, oiço uma música, uma música apenas: “Make a Man out of you”.
É engraçado como uma canção com este título consegue transmitir força mesmo a uma mulher.. É uma música que até à Mulan parece transmitir força. É o seu grande momento, é durante esta música que ela se torna na guerreira espetacular que todos sabíamos que se tornaria. A música não escolhe géneros.
Como qualquer criança desta geração, quando vi pela primeira vez o filme vi-o em português, e por isso também oiço sempre a canção em português. Talvez seja porque assim transmite não só força, mas também nostalgia…
Contudo, na semana passada pela primeira vez, ouvi a música em inglês (estava se calhar a viver debaixo duma pedra), porque apareceu como banda sonora de um vídeo no YouTube. Como é meu costume, atentei logo na letra e fiquei em choque com a segunda frase: “Did they send me daughters/ When I asked for sons?”. Resposta: Desculpa! Estás a dizer que as filhas não são tão capazes? Agora sim, fico ainda mais feliz por no final a Mulan te ter feito abrir os olhos.
A minha reação obviamente foi raiva, mas a segunda foi espanto por não me lembrar de alguma vez ter ouvido esta frase na versão portuguesa. E, de facto, não ouvi, porque em Portugal traduziram esta frase para: “Temos cá palermas/ Eu pedi heróis”. E já agora na versão brasileira ficou: “Derrotar os hunos/ É o que vai valer”.
Talvez na altura a Disney não se tenha apercebido de que aquele verso, mesmo dentro do contexto do filme, podia não ser o melhor… E neste caso, admito que fiquei feliz por Portugal não ter feito uma tradução literal.
Só que uns minutos depois comecei a relacionar as duas letras, a original e a tradução portuguesa: Então em Portugal em vez de “filhas” são “palermas” e os “filhos” são “heróis”? Talvez seja ainda pior ao misturar os dois, ver como Portugal traduziu filhas para palermas. Realmente eles estavam no filme a agir como palermas, mas sabendo que o que está no original é “daughters”, complica tudo. Porque não dizer logo “fools”? Agir como palerma é parecido com agir como filha? Está a começar a ser um assunto demasiado complexo e perturbador que, se calhar, até só a própria Mulan conseguiria resolver. Como todas as grandes batalhas tudo começa por pequenos pormenores e mal-entendidos entre línguas.
Lá se vai a minha primeira ideia de que Portugal de alguma forma, mesmo que pequena, tinha combatido algum traço de machismo… Ao fazerem a tradução brasileira, foram espertos, e honrados ao não mencionar nenhum adjetivo, nem incorrer em comparações de género.
Não foi desta que Portugal trouxe honra para nós, mas vou continuar a ouvir a música na mesma, só não posso comparar a letra. Só me resta esperar que as pequenas meninas em Portugal (como já é normal) não ouçam a versão original. Fiquem na ignorância da tradução.