O eco e cabeças de Brecht em Coimbra

O grupo Bonifrates traz Bertolt Brecht ao palco com uma encenação inteligente e politicamente consciente. Um espetáculo que prova que a força das ideias ainda reina.
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Esteve em cena, recentemente, uma adaptação da peça Os Cabeças Redondas e os Cabeças Bicudas, de Bertolt Brecht, pelo grupo Bonifrates.

Faço já o disclosure da minha admiração por este dramaturgo e da minha proximidade com as suas obras. O que, na verdade, poderia elevar as expectativas perante esta encenação. E a primeira palavra que disse quando saí da Casa da Cultura de Coimbra foi: “Amei”.

Esta transposição cénica conseguiu algo raro: respeitar profundamente o espírito político de Brecht, sem cair no panfleto nem na simples reconstituição histórica. Pelo contrário, a recriação provou que o teatro politicamente consciente pode continuar vivo, inquietante e artisticamente exigente, mesmo – ou talvez sobretudo – quando nasce num espaço modesto e com recursos limitados. O que Bonifrates conseguiu construir ultrapassou claramente muitas produções mais mediáticas e institucionalmente reconhecidas. E fizeram-no através daquilo que devia estar sempre no centro do palco – inteligência cénica, rigor interpretativo e uma compreensão profunda do texto.

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Adicionalmente, o projeto manteve várias marcas típicas do teatro épico brechtiano.

A cenografia e os figurinos revelaram precisamente essa inteligência. Tudo parecia colocado ao serviço do drama e do seu mecanismo (barra humor) satírico. A área foi explorada de forma extremamente eficaz, quase transformando as limitações numa vantagem estética. Houve uma enorme clareza de linguagem dramatúrgica. Cada elemento parecia pensado para reforçar o desconforto, o grotesco e a artificialidade das divisões sociais criadas na narrativa.

E depois, os atores. Magníficos. O elenco conseguiu manter um equilíbrio difícil entre sátira, distanciamento brechtiano e emoção humana. Em vários momentos, sentia-se a precisão quase coreográfica típica do teatro épico, mas sem frieza. Pelo contrário: havia energia, ironia e uma presença coletiva raríssima. Verificaram-se personagens mais “tipos sociais” do que indivíduos psicológicos.

O mais impressionante talvez tenha sido a forma como a peça conseguiu preservar a dimensão histórica do texto sem transformar o espetáculo num comentário político simplista aos dias de hoje. A obra nasce do contexto da ascensão do fascismo europeu, e isso sente-se constantemente: a fabricação de inimigos internos, a manipulação do medo, a facilidade com que diferenças absurdas substituem discussões sobre desigualdade e poder. Não obstante, a encenação, de João Paulo Janicas, teve intelecto suficiente para não gritar paralelos contemporâneos.

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O final foi particularmente marcante. No contexto de canções intercaladas, típicas de Brecht, a música de encerramento criou uma atmosfera coletiva, emocional. Como público, senti-me parte do elenco, senti-me parte de algo maior. Cantei. Houve naquele momento qualquer coisa que evocava, para mim, a memória de “Grândola, Vila Morena”, pela sensação de comunidade e resistência. Não era um apelo político explícito; era antes uma emoção histórica reconhecível, aquela mesma sensação de que o teatro consegue juntar pessoas numa experiência comum.

Algo paralelo entre Brecht e esta atuação é a sua estrutura muito política e didática – o público deve pensar criticamente, não apenas emocionar-se, concordar ou assumir posições.

Num tempo em que tantas produções confundem grandiosidade com qualidade, Bonifrates lembrou algo essencial: o teatro continua a depender sobretudo da força das ideias, da entrega dos intérpretes e da mente da encenação. E quando isso acontece, um palco pequeno torna-se enorme.

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Daniela Carvalho
Literatura. Ativismo. Feminismo. Teatro. Doutorada em Epidemiologia, Data Manager por profissão e escritora por necessidade. Escrevo contos, crónicas, textos de opinião e crítica - sobretudo de teatro e livros. Sou autora de dois livros, atriz e encenadora amadora. Feminista, ativista e preocupada pela saúde mental. Gosto tanto de super‑heróis como do mundo Disney.

Colaboraram neste artigo

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